terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Farto

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Estou farto!! Farto de tudo, de todos e, essencialmente, de mim!
Ando farto do mundo, que, por sua vez, há de estar farto de mim com o mesmo asco. Estou farto deste mundo pródigo em ignorância, ganância, egoísmo, preconceito... Clichês da vida moderna, bem sei, mas clichês que assim o são por conta da nossa própria negligência, que consente, sem cerimônia, em quaisquer atrocidades repetidas por um tanto mais de vezes, reduzindo-as a banalidades da vida cotidiana. Enquanto não nos tocam, preferimos aceita-las a combatê-las.
Estou farto da vida, invariavelmente mal vivida, de cujo sentido - admitindo que haja um - desconfio. Confio mais na morte: objetiva, inevitável e redentora. Viver a vida é suportá-la. Até que a morte nos liberte.
Ando farto de pessoas arrogantes e prepotentes. Farto de “doutor” sem doutorado; de “excelências” canalhas e imorais; de “madamas” da alta, retificadas a bisturi, empetecadas e sem educação; de pirralhos de “iPhones” em punho e “Nikes” fosforescentes nos pés, cuspindo gírias e desaforos, com o respaldo econômico do papai - o doutor sem doutorado - e o afago complacente da mamãe - a madama empetecada.
Ando farto de doutos pedantes que regurgitam suas dúbias erudições apenas pela delícia de sobrelevarem-se diante de plateias ignaras - o que os torna seres desprezíveis, sem que sequer suspeitem, pois a vaidade os cega sobremaneira.
Estou farto de camisetas com dizeres em inglês e estampa de “estrelas e faixas”! Estou farto de não nos assumirmos brasileiros, de ansiarmos doentiamente ser americanos do norte, de nos envergonharmos de nosso vernáculo e propalar orgulhosamente “eu tò fasendo ingleiz no iazígi!”, de nos deixarmos aculturar tão passiva e ingenuamente por um império que, hoje, além do domínio econômico e militar, exerce um domínio cultural devastador sobre o mundo.
Ando farto de convenções sociais hipócritas que rechaçam com veemência o havido por “anormal”, farto de regras impostas por quem não as cumpre, farto de condutas “socialmente aceitáveis” que me soam inaceitáveis e ridículas! Estou irremediavelmente farto da tirania da opinião de Stendhal, da aristocracia de província de Ivan Turguêniev, de tudo que é vazio, superficial, fútil, insosso... Estou farto de embalagens, de indumentárias, de maquiagens; ardis para ocultar a essência - ou, o que talvez seja mais provável, a ausência dela.
Estou farto de sobrenomes tradicionais, de genealogias, de profissionais bem-sucedidos, de condições sociais. Somos a essência de nós mesmos, e, portanto, somos únicos, independentemente de um sobrenome, uma linhagem, um ofício ou uma classe econômica.
Estou farto de ver tanta gente, farta como eu, acuada pelos órgãos repressores oficiais e pela própria sociedade, impossibilitadas de reagir na proporção da violência que sofrem diariamente, sem que sejam condenadas sumariamente. Estou farto de a resiliência ganhar status de virtude, quando a indignação e a revolta - tão obsoletas e previamente censuradas, hoje, pelas “pessoas de bem” - poderiam mudar tudo para melhor para a imensa maioria das pessoas - inclusive para as “de bem”!
Ando farto, por fim, de mim mesmo, por ser protagonista involuntário, mas consciente, de parte daquilo que repudio e de que estou farto. Farto de mim por vociferar com a ira de um revolucionário e agir com a placidez de um bovino. Farto de não fazer nada a respeito. Mas é que eu estou farto... de tudo... da vida... do mundo... de mim...
Estou farto e cansado...
Não que eu esteja certo, apenas estou farto.
Leonard Von Mühlen, in obviousmag.org

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