128.
Repudiei sempre que me compreendessem.
Ser compreendido é prostituir-se. Prefiro ser tomado a sério como o
que não sou, ignorado humanamente, com decência e naturalidade.
Nada poderia indignar-me tanto como se
no escritório me estranhassem.
Quero gozar comigo a ironia de me não
estranharem. Quero o cilício de me julgarem igual a eles. Quero a
crucifixão de me não distinguirem. Há martírios mais subtis que
aqueles que se registam dos santos e dos eremitas. Há suplícios da
inteligência como os há do corpo e do desejo.
E desses, como dos outros, suplícios
há uma volúpia.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

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