Jazz é vício. Não tem essa história
de flertar com o lance, brincar com o material, dar uma cafungadinha
e voltar, são e salvo, para o aprisco (bééé!) familiar.
Jazz é feito paquerar a cunhada,
passar a mão na mulher do amigo, beijar no elevador a colega de
trabalho: começa leve, mas deixa cicatrizes profundas.
Imaginem um garoto do Estácio,
daqueles bem amalucados, com as canelas recém-cobertas pela calça
comprida e ainda cheias de mercúrio cromo devido a um tombo de
bicicleta em Paquetá, entrando na velha Palermo, no Largo da
Carioca, e saindo com um embrulho de discos, as fotos deslumbrantes,
Oscar Peterson,Dave Brubeck, Stan Getz, os primeirões.
No dia seguinte, a fera já está
diferente. A mãe, intuitiva, desconfia que seu bebê começou a
queimar fumo com os vagabundos do morro do São Carlos. Ainda não.
Foi o jazz. A cara do adolescente parece coisa de filme B, “Invasores
de Cassiopeia”, essas loucuras. Os amigos de esquina, sem o
clássico dente da frente e sapatos tô-na-merda, ainda gostam de
Elvis Prestes, talvez um parente distante do lendário líder
comunista, e do Lirôu (o acento era aí mesmo) Richa – mas o bicho
já viajou pra galáxias muito além do Carl Sagan.
Já que tocamos no assunto, não há
no jazz, com a possível inclusão de Bud Powell e Charlie Parker,
seres de planetas tão fascinantes como John Coltrane e Charles
Mingus.
A série The very best of the
Atlantic Years, presta serviço inestimável aos jovens
jazzófilos lançando os discos dos dois gigantes. O ouvinte que
continuar o mesmo depois de “My favorite things”, “Summertime”
e “Body and soul” pode dirigir-se ao Jardim da Saudade e cavar a
própria sepultura.Já está morto. O mesmo vale para
“Pithecanthropus erectus”, “Reincarnation of a lovebird” e
“Cryin’ blues”. No CD de Coltrane ainda podem ser ouvidos, de
quebra, Wynton Kelly e o jovem (na época) McCoy Tyner, além das
aulas de contrabaixo dadas por Paul Chambers. Dannie Richmond, um dos
maiores bateristas de jazz de todos os tempos, bota – e tira – o
trem nos trilhos para Mingus.
Os viciados conhecem de cor e salteado
as faixas, mas jamais se cansam delas. Já os novatos começarão –
garanto que é muito melhor que essas frescuras de magos na estrada
de Damasco – a percorrer as sagas jazzísticas de Coltrane e
Mingus: um aspirou atingir a divindade com seu sopro. Por ironia, e a
história da música está repleta delas, quanto mais alto voava,
piores as visões do inferno. O outro passou a vida toda no inferno
sem saber que era um deus.
Aldir Blanc, em O gabinete do doutor Blanc – sobre jazz, literatura e outros improvisos

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