Bascuñán
A cabeça range e dói. Estendido no
barro, entre a montanha de mortos, Francisco Núnez de Pineda y
Bascunán abre os olhos. O mundo é um torvelinho de sangue e barro,
metralhado pela chuva, que gira e dá volta e espirra e gira.
Os índios atiram-se em cima dele.
Arrancam-lhe a couraça e o capacete de ferro, afundado pelo golpe
que o derrubou, e o despem aos arrancões. Francisco consegue fazer o
sinal da cruz antes de ser amarrado a uma árvore.
A tormenta açoita sua cara. O mundo
deixa de balançar. Uma voz dentro dele diz, através da gritaria dos
araucanos: “Estás em um charco da comarca de Chillán, em tua
terra do Chile. Esta chuva é a que molhou a pólvora. Este vento é
o que apagou as mechas.
Perdeste. Escutas os índios, que
discutem a tua morte”.
Francisco murmura uma última oração.
De repente, uma rajada de plumas
coloridas atravessa a chuva. Os araucanos abrem caminho ao cavalo
branco, que chega jorrando fogo pelas narinas e espuma pela boca. O
cavaleiro, mascarado pelo elmo que usa, dá um puxão brusco nas
rédeas. O cavalo ergue-se em duas patas na frente de Maulicán, o
vencedor da batalha. Todos ficam mudos.
“É o verdugo”, pensa Francisco.
“Agora, acabou”.
O florido cavaleiro se inclina e diz
alguma coisa a Maulicán. Francisco não escuta nada além das vozes
da chuva e do vento. Mas quando o cavaleiro dá as costas e
desaparece, Maulicán desamarra o prisioneiro, tira a própria capa e
o cobre.
Depois, os cavalos galopam rumo ao
sul.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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