101.
Se a nossa vida fosse um eterno
estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre,
tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos
montes. Se assim ficássemos para além de sempre!
Se ao menos, aquém da
impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos
uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais
palavras!
Olha como vai escurecendo!... O
sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é
o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de
fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me
não pensar mais em ti...
Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e
o mistério de ambos.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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