quarta-feira, 22 de abril de 2026

Brinde no banquete das musas

Poesia, marulho e náusea,
poesia, canção suicida,
poesia, que recomeças
de outro mundo, noutra vida.
 
Deixaste-nos mais famintos,
poesia, comida estranha,
se nenhum pão te equivale:
a mosca deglute a aranha.
 
Poesia, sobre os princípios
e os vagos dons do universo:
em teu regaço incestuoso,
o belo câncer do verso.
 
Azul, em chama, o telúrio
reintegra a essência do poeta,
e o que é perdido se salva…
Poesia, morte secreta.

Carlos Drummond de Andrade, em Fazendeiro do ar

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