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Pôncio Pilatos
De manto branco com a barra cor de
sangue, com movimentos gingados de um cavaleiro, na manhã do décimo
quarto dia do mês primaveril de Nissan, o procurador da Judeia,
Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberta entre as duas alas do
palácio de Herodes, o Grande.
Mais do que qualquer coisa no mundo, o
procurador odiava o cheiro do óleo de rosas, e agora tudo
pressagiava um dia ruim, pois esse cheiro começou a seguir o
procurador desde o amanhecer. Parecia-lhe que o odor emanava dos
ciprestes e das palmeiras do jardim e que, ao cheiro dos equipamentos
de couro e do suor do corpo das tropas, misturava-se a maldita
corrente de perfume de rosa. Desde as alas do fundo do palácio, onde
se acomodou a primeira coorte da Décima Segunda Legião Fulminata,
que chegara a Yerushalaim junto com o procurador, a colunata ao longo
da área superior do jardim cobriu-se de fumaça, e a essa amargurada
fumaça — sinal de que os cozinheiros nas centúrias haviam
começado a preparar o almoço — misturava-se aquele mesmo odor
gorduroso de rosas.
“Oh, deuses, deuses, por que estão
me castigando? É, não há dúvidas, é ela, de novo ela, essa
doença invencível e terrível... a enxaqueca, que faz metade da
cabeça doer... contra ela não há remédio, não há nenhuma
salvação... vou tentar não mexer a cabeça...”
No chão de mosaico próximo à fonte,
uma poltrona já estava preparada, e o procurador, sem olhar para
ninguém, sentou-se e estendeu a mão para o lado. Respeitosamente, o
secretário depositou nessa mão um pedaço de pergaminho. Sem
conseguir conter a careta de dor, o procurador correu os olhos pelo
escrito, devolveu o pergaminho ao secretário e articulou com
dificuldade:
— O processado é da Galileia? O
caso foi enviado ao tetrarca?
— Sim, procurador — respondeu o
secretário.
— E ele?
— Recusou-se a concluir o caso e
enviou a sentença de morte do Sinédrio para que o senhor confirme —
explicou o secretário.
O procurador contorceu o rosto e disse
baixinho:
— Tragam o acusado.
No mesmo instante, dois legionários o
trouxeram da área do jardim sob as colunas para a varanda, e
colocaram diante da poltrona do procurador um homem de uns vinte e
sete anos. Esse homem trajava um quitão azul velho e rasgado. A
cabeça estava coberta por uma faixa branca com uma tira ao redor da
testa e as mãos estavam atadas nas costas. O homem tinha um grande
hematoma no olho esquerdo e no canto da boca havia uma escoriação
com sangue pisado. O recém-chegado olhava para o procurador com
muita curiosidade.
Este estava calado, depois perguntou
baixinho em aramaico:
— Foi você que incitou o povo a
destruir o templo de Yerushalaim?
O procurador estava como uma pedra, só
seus lábios se moviam um tantinho quando pronunciava as palavras.
Ele estava como uma pedra porque temia balançar a cabeça, que ardia
com a dor infernal.
O homem com as mãos atadas
inclinou-se um pouco para frente e começou a falar:
— Bom homem! Acredite em mim...
Mas o procurador, como antes, sem se
mover e sem elevar minimamente o tom de voz, interrompeu-o no mesmo
instante:
— É a mim que você chama de bom
homem? Está cometendo um engano. Em Yerushalaim, todos cochicham
sobre mim, que sou um monstro cruel, e é a mais pura verdade. — E
acrescentou no mesmo tom monótono: — Tragam-me o centurião
Mata-ratos.
A todos pareceu que ficou escuro na
varanda, quando o centurião da primeira centúria, Marcos, chamado
de Mata-ratos, apresentou-se ao procurador. Mata-ratos era uma cabeça
mais alto do que o maior soldado da Legião e tinha ombros tão
largos que tapou completamente o sol ainda baixo.
O procurador dirigiu-se ao centurião
em latim:
— O criminoso me chama de “bom
homem”. Leve-o daqui um instante e explique-lhe como deve
referir-se a mim. Mas sem mutilação.
Então todos, menos o procurador,
imóvel, seguiram Marcos Mata-ratos com o olhar, enquanto este
acenava para o preso com a mão, indicando que deveria segui-lo.
Em geral, todo mundo seguia Mata-ratos
com o olhar, onde quer que ele surgisse, por causa do seu tamanho e,
para aqueles que o viam pela primeira vez, também porque o rosto do
centurião tinha sido deformado: em algum lugar do passado seu nariz
fora esmagado com um golpe de porrete alemão.
As botas pesadas de Marcos bateram no
mosaico e o homem amarrado o seguiu sem fazer ruído. Imperou um
silêncio absoluto na colunata e podia-se ouvir como os pombos
arrulhavam na área do jardim perto da varanda e, também, como a
água cantarolava na fonte uma intrincada e agradável canção.
O procurador teve vontade de
levantar-se, pôr a têmpora embaixo do jato e deixar-se ficar assim.
Mas ele sabia que nem isso o ajudaria.
Assim que Mata-ratos levou o preso da
colunata para o jardim, ele arrancou o chicote das mãos de um
legionário parado ao pé de uma estátua de bronze e, com um leve
impulso, açoitou o preso nos ombros. O movimento do centurião foi
displicente e fraco, mas o homem amarrado caiu instantaneamente no
chão, como se lhe tivessem arrancado as pernas, engasgou com o ar, a
cor desapareceu de seu rosto e o olhar tornou-se inexpressivo.
Só com a mão esquerda, Marcos
suspendeu no ar o homem caído, leve como um saco vazio, colocou-o de
pé e começou a falar, fanho, pronunciando de forma errada as
palavras em aramaico:
— O procurador romano deve ser
chamado de Hegemon. Não use outras palavras. Sentido! Está me
entendendo ou terei de bater novamente?
O preso cambaleou, mas recuperou o
equilíbrio. A cor voltou ao seu rosto e ele respirou fundo,
respondendo com a voz rouca:
— Eu entendi. Não me bata.
Um instante depois, estava de novo
diante do procurador.
A voz insípida e doente soou:
— Nome?
— O meu? — retrucou o preso
depressa, expressando com todo o seu ser que estava pronto para
responder com sensatez e não provocar mais ira.
O procurador disse baixinho:
— O meu eu sei. Não finja ser mais
bobo do que você é. O seu.
— Yeshua — respondeu rapidamente o
prisioneiro.
— Tem sobrenome?
— Ha-Notzri.
— Natural de onde?
— Da cidade de Gamala — respondeu
o prisioneiro, indicando com a cabeça que lá, em algum lugar
distante, à sua direita, ao norte, estava a cidade de Gamala.
— Qual é sua origem?
— Não sei ao certo — respondeu o
preso, animado. — Não me lembro dos meus pais. Disseram-me que meu
pai era sírio...
— Qual é seu endereço permanente?
— Não tenho morada permanente —
respondeu timidamente o prisioneiro. — Viajo de cidade em cidade.
— Isso pode ser resumido em uma
palavra: vadiagem — disse o procurador, e perguntou: — Tem
parentes?
— Não tenho ninguém. Sou sozinho
no mundo.
— Por acaso sabe ler e escrever?
— Sim.
— Por acaso sabe alguma outra
língua, além do aramaico?
— Sei. Grego.
A pálpebra inchada levantou-se de
leve e o olho, repuxado pela nuvem de sofrimento, parou no preso. O
outro olho permaneceu fechado.
Pilatos começou a falar em grego:
— Então era você que queria
destruir o templo e conclamava o povo a isso?
O prisioneiro reanimou-se, seus olhos
pararam de expressar medo e ele começou a falar em grego:
— Eu, bom ho... — na mesma hora o
terror brilhou nos olhos do prisioneiro porque por pouco ele não
escorregou. — Eu, Hegemon, nunca na minha vida pensaria em destruir
o templo e não incitei ninguém a cometer tal ato insano.
O rosto do secretário, que anotava o
depoimento curvado sobre uma mesa baixa, expressou admiração. Ele
ergueu a cabeça, mas imediatamente inclinou-a de volta para o
pergaminho.
— Uma multidão de pessoas
diferentes se reúne nessa cidade para a festa. Entre elas há
magos, astrólogos, videntes e assassinos — disse o procurador em
tom monótono. — E dá de aparecerem também mentirosos. Você, por
exemplo, é um mentiroso. Está anotado legivelmente: incitou a
destruição do templo. Há testemunhas.
— Essa boa gente — começou a
falar o prisioneiro e, acrescentando rapidamente: —, Hegemon —
continuou: —, não aprendeu nada e confundiu tudo o que eu disse.
Em geral, estou começando a temer que essa confusão ainda vá se
prolongar por muito, muito tempo. Tudo porque ele anota
incorretamente o que eu digo.
Fez-se o silêncio. Agora os dois
olhos doentes fitavam o prisioneiro intensamente.
— Vou repetir para você, mas será
pela última vez: pare de querer se fazer de louco, seu bandido —
pronunciou Pilatos, em tom suave e monótono. — Não há muito
anotado sobre você, mas o que foi anotado é o suficiente para
enforcá-lo.
— Não, não, Hegemon — disse o
preso, esforçando-se no desejo de convencer. — Um sujeito vive me
seguindo e escrevendo sem parar em um pergaminho de cabra. Mas, certa
vez, dei uma espiada nesse pergaminho e fiquei horrorizado.
Decididamente, eu não falei nada do que estava anotado ali. Eu lhe
supliquei: queime seu pergaminho, pelo amor de Deus! Mas ele o
arrancou de minhas mãos e fugiu.
— Quem é esse? — perguntou
Pilatos com aversão e tocou a têmpora com a mão.
— Mateus Levi — explicou o
prisioneiro com boa vontade. — Ele era coletor de impostos e o
encontrei, pela primeira vez, a caminho de Betfagé, onde se projeta
um jardim de figueiras em uma esquina, e conversei com ele. No início
foi hostil comigo e até me insultou, quer dizer, achou que me
tivesse insultado chamando-me de cachorro. — Aqui o prisioneiro deu
um sorrisinho. — Eu, pessoalmente, não vejo nada de ruim nesse
animal para me ofender com essa palavra...
O secretário parou de anotar e lançou
um admirado olhar de soslaio, não para o preso, mas para o
procurador.
— ... no entanto, depois de me
ouvir, ele ficou mais amolecido — continuou Yeshua — e,
finalmente, jogou o dinheiro na estrada e disse que seguiria
comigo...
Pilatos deu um sorrisinho torto,
arreganhando os dentes amarelos, e proferiu, virando-se de corpo
inteiro para o secretário:
— Oh, cidade de Yerushalaim! O que é
que não se ouve nela! O coletor de impostos, vejam só, jogou o
dinheiro na estrada!
Sem saber como responder a isso, o
secretário considerou necessário repetir o sorriso de Pilatos.
— E ele disse que, daquele momento
em diante, odiaria o dinheiro — afirmou Yeshua sobre o estranho
gesto de Mateus Levi, e acrescentou: — Desde então, ele se tornou
meu companheiro de viagem.
Com os dentes ainda arreganhados, o
procurador olhou para o preso de relance, depois para o sol, que não
parava de subir sobre as estátuas equestres do hipódromo, distante,
localizado abaixo, à direita, e, de repente, com algum sofrimento
nauseabundo, pensou que o mais simples seria expulsar esse estranho
bandido da varanda, pronunciando somente duas palavras:
“Enforquem-no.” Expulsar também a tropa, sair da colunata para o
interior do palácio, mandar escurecer o quarto, jogar-se no leito,
pedir água gelada, com a voz lamentosa chamar seu cachorro Banga e
reclamar com ele sobre a enxaqueca. E de repente a ideia do veneno
brilhou sedutoramente na cabeça doente do procurador.
Ele lançou os olhos opacos para o
preso e por algum tempo ficou calado, lembrando, com sofrimento, por
que, sob a impiedosa chama do sol matinal de Yerushalaim, estava a
sua frente um prisioneiro com o rosto desfigurado por surras, e quais
perguntas desnecessárias ainda lhe deveriam fazer.
— Mateus Levi? — perguntou o
doente com a voz rouca e fechou os olhos.
— Isso, Mateus Levi — chegou a ele
uma voz alta que o fazia sofrer.
— De qualquer forma, o que mesmo
você falava sobre o templo à multidão reunida no mercado?
A voz daquele que respondia parecia
perfurar a têmpora de Pilatos e, indescritivelmente dolorosa, dizia:
— Eu, Hegemon, falava que o templo
da velha crença ruirá e, em seu lugar, se erguerá o novo templo da
verdade. Disse de tal forma para que fosse mais compreensível.
— E para que você, seu vadio, foi
confundir o povo no mercado, falando-lhe da verdade da qual você
não tem ideia? O que é a verdade?
Nesse momento, o procurador pensou:
“Oh, meus Deuses! Estou lhe perguntando algo desnecessário para um
julgamento... Minha mente não me serve mais...” E novamente se
assoma uma taça com um líquido escuro. “Tragam-me veneno,
veneno...”
Então, ouviu a voz de novo:
— A verdade, antes de tudo, é que a
sua cabeça está doendo, e dói tão forte que você covardemente
pensa na morte. Está sem forças não só para falar comigo, mas tem
dificuldade até de olhar para mim. E agora eu, involuntariamente,
sou o seu carrasco, e isso me deixa aflito. Você não consegue
pensar em nada e deseja somente que venha seu cachorro, o único ser,
pelo visto, ao qual você é afeiçoado. Mas seus tormentos agora
chegarão ao fim, a dor de cabeça vai passar.
O secretário esbugalhou os olhos para
o prisioneiro e não terminou de escrever as palavras.
Pilatos levantou os olhos atormentados
para o prisioneiro e viu que o sol já estava bastante alto sobre o
hipódromo, e que um raio penetrara na colunata e se arrastava até
as sandálias gastas de Yeshua, que se afastava do sol.
O procurador levantou-se da poltrona,
apertou a cabeça com as mãos, e o rosto amarelado e escanhoado
expressou horror. Mas, na mesma hora, ele o suprimiu com sua vontade
e sentou-se de novo.
O prisioneiro, ao mesmo tempo,
continuava seu discurso, mas o secretário não anotava mais nada e,
esticando o pescoço feito um ganso, só se esforçava para não
deixar passar uma palavra sequer.
— Pronto, está tudo acabado —
dizia o preso, lançando olhares benevolentes para Pilatos. — Estou
extremamente feliz com isso. Eu o aconselharia, Hegemon, a deixar o
palácio por um tempo e a passear a pé em algum lugar dos arredores,
bem, até mesmo nos jardins do monte das Oliveiras. Um temporal se
aproxima... — o prisioneiro voltou-se e apertou os olhos contra o
sol — ... mais tarde, à noite. Um passeio seria muito proveitoso
para você e eu o acompanharia com gosto. Alguns pensamentos novos
vieram-me à cabeça, que poderiam, suponho, parecer-lhe
interessantes, e com boa vontade eu os dividiria com você,
principalmente porque você deixa a impressão de ser um homem muito
inteligente.
O secretário ficou mortalmente pálido
e deixou o rolo cair no chão.
— O ruim — continuava o homem
amarrado, que não era interrompido por ninguém — é que você é
um tanto fechado e perdeu definitivamente a fé nas pessoas. É
impossível, você há de concordar, depositar toda sua afeição num
cachorro. Sua vida é sem graça, Hegemon — aqui o orador
permitiu-se um sorriso.
O secretário pensava somente se
deveria ou não acreditar em seus ouvidos. Tinha de acreditar. Então,
tentou imaginar qual seria a forma rara da ira do explosivo
procurador diante do inédito atrevimento do preso. Mas isso o
secretário não conseguia imaginar, apesar de conhecer bem o
procurador.
Então, eclodiu a voz enrouquecida do
procurador, que disse em latim:
— Desatem suas mãos.
Um dos legionários da guarda bateu
com a lança, entregou-a ao outro, aproximou-se e retirou as cordas
do prisioneiro. O secretário apanhou o rolo e resolveu, por ora, não
anotar nada e não se impressionar com nada.
— Reconheça — perguntou baixinho,
em grego, Pilatos. — Você é um grande doutor?
— Não, procurador, não sou doutor
— respondeu o prisioneiro com alívio, esfregando a mão vincada,
inchada e vermelha.
Com os olhos severos e carranca,
Pilatos perfurava o prisioneiro e nesses olhos não havia mais
opacidade, neles surgiram as faíscas que todos conheciam.
— Eu não lhe perguntei — disse
Pilatos. — Você, por acaso, sabe também latim?
— Sei, sim — respondeu o
prisioneiro.
A cor vermelha tomou conta das
bochechas amareladas de Pilatos, que perguntou em latim:
— Como soube que eu queria chamar o
cachorro?
— É muito simples — respondeu o
prisioneiro em latim. — Você passou com a mão pelo ar — o
prisioneiro repetiu o gesto de Pilatos —, como se quisesse fazer um
afago, e os lábios...
— Isso — disse Pilatos.
Ficaram calados. Depois Pilatos fez
uma pergunta em grego:
— Quer dizer que você é doutor?
— Não, não — respondeu vivamente
o prisioneiro. — Acredite em mim, não sou doutor.
— Está bem. Caso queira manter isso
em segredo, mantenha. Isso não tem relação direta com o caso.
Então, você afirma que não conclamava a destruir... ou a
incendiar, ou, de alguma forma, a liquidar o templo?
— Eu, Hegemon, não conclamei
ninguém a tais atos, repito. Será que pareço um louco?
— Oh, não, não parece um louco —
respondeu baixinho o procurador e riu com um certo sorriso terrível.
— Então, jure que isso não aconteceu.
— Quer que jure por quem? —
perguntou o desamarrado bastante animado.
— Pode ser pela sua vida —
respondeu o procurador. — É o momento certo de jurar por ela,
pois, saiba, ela está por um fio.
— Você não está pensando que é
você que a sustenta, Hegemon? — perguntou o prisioneiro. — Caso
pense assim, está cometendo um grande engano.
Pilatos estremeceu e respondeu com os
dentes cerrados:
— Eu posso cortar esse fio.
— Também nisso você se engana —
exclamou o prisioneiro com um sorriso radiante, protegendo-se do sol
com a mão. — Você há de convir que, decerto, só poderá cortar
o fio aquele que o pendurou, não é mesmo?
— Isso, isso — disse Pilatos
sorrindo. — Agora não tenho dúvidas de que os vadios inúteis de
Yerushalaim o seguiam bem de perto. Não sei quem pendurou sua
língua, mas foi bem pendurada. A propósito, diga-me: é verdade que
você apareceu em Yerushalaim pelos portões de Susa montado num
burro e acompanhado por uma multidão da ralé que o saudava aos
gritos como se você fosse algum profeta? — Aqui o procurador
apontou para o rolo do pergaminho.
O prisioneiro lançou um olhar
perplexo para o procurador.
— Eu nem tenho burro, Hegemon —
disse ele. — Cheguei a Yerushalaim precisamente pelos portões de
Susa, mas a pé, somente na companhia de Mateus Levi, e ninguém
gritava para mim, pois até então ninguém me conhecia em
Yerushalaim.
— Você por acaso não conhece
pessoas como — continuou Pilatos sem tirar os olhos do prisioneiro
— um tal de Dismas, o outro Gestas e um terceiro Bar-Rabban?
— Não conheço essas boas pessoas —
respondeu o prisioneiro.
— Verdade?
— Verdade.
— Agora me diga, por que você usa
as palavras “boas pessoas” o tempo todo? Por acaso você chama
todo mundo assim?
— Todo mundo — respondeu o
prisioneiro. — Não existem pessoas maldosas no mundo.
— É a primeira vez que ouço isso —
disse Pilatos, dando um sorrisinho. — Mas pode ser que eu conheça
pouco a vida!... Não precisa mais anotar. — Dirigiu-se ao
secretário, embora este não estivesse anotando nada mesmo, e
continuou falando ao prisioneiro: — Você leu sobre isso em algum
livro grego?
— Não. Cheguei a isso com meu
próprio raciocínio.
— E você prega isso?
— Prego.
— Mas, por exemplo, o centurião
Marcos, apelidado de Mata-ratos, ele é bom?
— É — respondeu o prisioneiro. —
Ele, na verdade, é um homem infeliz. Desde que as boas pessoas o
deformaram, tornou-se cruel e insensível. Seria interessante saber
quem o mutilou.
— Posso informar isso com satisfação
— respondeu Pilatos. — Pois fui testemunha disso. As boas pessoas
partiam para cima dele, como cachorros para cima de um urso. Alemães
agarraram-no pelo pescoço, pelas mãos, pelas pernas. O manipulário
da infantaria caiu numa emboscada e, se não fosse uma tura da
cavalaria, comandada por mim, romper um flanco, você, filósofo, não
chegaria a conversar com o Mata-ratos. Isso ocorreu na batalha de
Idistaviso, no vale das Virgens.
— Tenho a certeza de que se pudesse
falar com ele — disse de repente o prisioneiro em tom sonhador —,
ele mudaria drasticamente.
— Suponho — respondeu Pilatos —
que você traria pouca alegria ao legado da Legião caso inventasse
de conversar com algum de seus oficiais ou soldados. Aliás, isso
está longe de acontecer, para a felicidade geral, e o primeiro a se
ocupar disso serei eu.
Nesse instante, uma andorinha voou
impetuosa na colunata, fez um círculo sob o teto dourado, desceu,
quase atingiu com a asa pontuda o rosto de uma estátua de cobre no
nicho e se escondeu atrás do capitel de uma coluna. Quem sabe teve a
ideia de fazer um ninho ali.
Durante seu voo, uma fórmula
configurou-se na lúcida e agora leve cabeça do procurador. Era a
seguinte: Hegemon examinou o processo do filósofo vadio Yeshua, de
sobrenome Ha-Notzri, e não encontrou constituição de crime algum.
Não encontrou, em particular, a mínima ligação entre as ações
de Yeshua e as desordens que ocorreram em Yerushalaim nos últimos
tempos. O filósofo vadio revelou-se doente mental. Consequentemente,
o procurador não confirmava a sentença de morte de Ha-Notzri,
pronunciada pelo Pequeno Sinédrio. Porém, tendo em vista que os
discursos utópicos e loucos de Ha-Notzri podiam ser motivo de
perturbações em Yerushalaim, o procurador expulsará Yeshua de
Yerushalaim e o submeterá à prisão na Cesareia, a de Straton, no
mar Mediterrâneo, ou seja, exatamente onde fica a residência do
procurador.
Restava ditar isso ao secretário.
As asas da andorinha rufaram
exatamente sobre a cabeça do Hegemon. O pássaro se arrojou à bacia
do chafariz e voou para a liberdade absoluta. O procurador ergueu os
olhos para o prisioneiro e viu a poeira levantar num pilar ao lado
deste.
— É tudo sobre ele? — perguntou
Pilatos ao secretário.
— Infelizmente, não — respondeu o
secretário inesperadamente e entregou a Pilatos outro pedaço de
pergaminho.
— O que mais há? — perguntou
Pilatos, franzindo a testa.
Depois de ler o que lhe foi dado, seu
rosto se alterou ainda mais. Não se sabe se foi o sangue escuro que
afluiu para seu pescoço e rosto, ou se algo diferente aconteceu, só
que sua pele perdeu o amarelado, empardeceu e os olhos como que
afundaram.
Pelo visto, de novo o culpado era o
sangue, que afluiu para as têmporas e começou a latejar, mas dessa
vez algo aconteceu com a vista do procurador. Assim, teve a impressão
de que a cabeça do prisioneiro flutuou para algum lugar e de que no
lugar dela surgiu outra. E nessa cabeça calva havia uma coroa
dourada sem dentes. Na testa havia uma chaga redonda que carcomia a
pele e que estava besuntada de pomada. Uma boca banguela sulcada com
um lábio inferior caído e caprichoso. Pareceu a Pilatos que as
colunas cor-de-rosa da varanda e os telhados de Yerushalaim sumiram,
ao longe, abaixo, além do jardim, e que tudo em volta estava
mergulhado no denso verde dos jardins de ciprestes. E aconteceu algo
estranho com seu ouvido, como se ao longe tocassem trombetas,
baixinho e ameaçadoramente, e com muita clareza se ouvisse uma voz
anasalada, que pronunciava arrastadamente as palavras soberanas: “A
lei sobre a ofensa da majestade...”
Pensamentos curtos, desconexos e
incomuns surgiram: “Estou perdido!..”, e depois: “Estamos
perdidos!..” E entre eles um pensamento totalmente absurdo sobre
uma tal de imortalidade, e a imortalidade, por algum motivo,
provocou-lhe uma tristeza insuportável.
Pilatos esforçou-se, afastou as
visões, voltou o olhar para a varanda e, novamente, surgiram diante
dele os olhos do prisioneiro.
— Ouça, Ha-Notzri — começou a
dizer o procurador, olhando para Yeshua de maneira um tanto estranha:
o rosto do procurador estava terrível, mas os olhos preocupados —,
alguma vez você disse algo sobre o grande César? Responda!
Disse?... Ou... não... disse? — Pilatos esticou a palavra “não”
um pouco mais do que deveria num tribunal e, com seu olhar, enviou a
Yeshua algum pensamento que parecia querer incutir no prisioneiro.
— Dizer a verdade é fácil e
agradável — observou o prisioneiro.
— Eu não preciso saber —
respondeu Pilatos com a voz abafada e maldosa — se para você é
agradável ou desagradável dizer a verdade. Mas você é obrigado a
dizê-la. Porém, quando falar, pese cada palavra caso não deseje
uma morte não só inevitável, como também dolorosa.
Ninguém sabe o que aconteceu com o
procurador da Judeia, mas ele se permitiu levantar a mão, como se
estivesse se defendendo de um raio de sol e, por trás dessa mão,
como atrás de um escudo, quisesse enviar ao prisioneiro algum olhar
alusivo.
— Então, responda — dizia ele. —
Por acaso você conhece um certo Judas de Kerioth e o que exatamente
lhe disse, caso tenha falado, sobre o César?
— Foi assim — começou a narrar o
prisioneiro com gosto. — Anteontem à noite, eu conheci perto do
templo um jovem que se apresentou como Judas, da cidade de Kerioth.
Ele me convidou para ir a sua casa na Cidade Baixa e me recebeu muito
cordialmente...
— Bom homem? — perguntou Pilatos,
um fogo diabólico brilhando em seus olhos.
— Bom homem e muito curioso —
confirmou o prisioneiro. — Ele demonstrou o maior interesse por
meus pensamentos e foi muito hospitaleiro comigo...
— Acendeu as luminárias... — de
dentes cerrados e no mesmo tom do prisioneiro, Pilatos pronunciou com
os olhos brilhando.
— Acendeu — continuou Yeshua, um
pouco surpreso com o conhecimento de causa do procurador. —
Pediu-me que expressasse a minha opinião sobre o poder do Estado.
Ele estava extremamente interessado por essa questão.
— E o que foi que você disse? —
perguntou Pilatos. — Ou você vai responder que esqueceu o que
disse? — Já havia desespero em seu tom.
— Entre outras coisas, eu disse —
contava o prisioneiro — que qualquer poder é uma violência contra
as pessoas e que chegará o tempo em que não haverá mais o poder
nem dos Césares, nem qualquer outro poder. O homem passará para o
reino da verdade e da justiça, onde não haverá necessidade de
poder algum.
[…]
Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

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