quarta-feira, 22 de abril de 2026

O Mestre e Margarida | 2


2
Pôncio Pilatos

De manto branco com a barra cor de sangue, com movimentos gingados de um cavaleiro, na manhã do décimo quarto dia do mês primaveril de Nissan, o procurador da Judeia, Pôncio Pilatos, saiu para a colunata coberta entre as duas alas do palácio de Herodes, o Grande.
Mais do que qualquer coisa no mundo, o procurador odiava o cheiro do óleo de rosas, e agora tudo pressagiava um dia ruim, pois esse cheiro começou a seguir o procurador desde o amanhecer. Parecia-lhe que o odor emanava dos ciprestes e das palmeiras do jardim e que, ao cheiro dos equipamentos de couro e do suor do corpo das tropas, misturava-se a maldita corrente de perfume de rosa. Desde as alas do fundo do palácio, onde se acomodou a primeira coorte da Décima Segunda Legião Fulminata, que chegara a Yerushalaim junto com o procurador, a colunata ao longo da área superior do jardim cobriu-se de fumaça, e a essa amargurada fumaça — sinal de que os cozinheiros nas centúrias haviam começado a preparar o almoço — misturava-se aquele mesmo odor gorduroso de rosas.
Oh, deuses, deuses, por que estão me castigando? É, não há dúvidas, é ela, de novo ela, essa doença invencível e terrível... a enxaqueca, que faz metade da cabeça doer... contra ela não há remédio, não há nenhuma salvação... vou tentar não mexer a cabeça...”
No chão de mosaico próximo à fonte, uma poltrona já estava preparada, e o procurador, sem olhar para ninguém, sentou-se e estendeu a mão para o lado. Respeitosamente, o secretário depositou nessa mão um pedaço de pergaminho. Sem conseguir conter a careta de dor, o procurador correu os olhos pelo escrito, devolveu o pergaminho ao secretário e articulou com dificuldade:
O processado é da Galileia? O caso foi enviado ao tetrarca?
Sim, procurador — respondeu o secretário.
E ele?
Recusou-se a concluir o caso e enviou a sentença de morte do Sinédrio para que o senhor confirme — explicou o secretário.
O procurador contorceu o rosto e disse baixinho:
Tragam o acusado.
No mesmo instante, dois legionários o trouxeram da área do jardim sob as colunas para a varanda, e colocaram diante da poltrona do procurador um homem de uns vinte e sete anos. Esse homem trajava um quitão azul velho e rasgado. A cabeça estava coberta por uma faixa branca com uma tira ao redor da testa e as mãos estavam atadas nas costas. O homem tinha um grande hematoma no olho esquerdo e no canto da boca havia uma escoriação com sangue pisado. O recém-chegado olhava para o procurador com muita curiosidade.
Este estava calado, depois perguntou baixinho em aramaico:
Foi você que incitou o povo a destruir o templo de Yerushalaim?
O procurador estava como uma pedra, só seus lábios se moviam um tantinho quando pronunciava as palavras. Ele estava como uma pedra porque temia balançar a cabeça, que ardia com a dor infernal.
O homem com as mãos atadas inclinou-se um pouco para frente e começou a falar:
Bom homem! Acredite em mim...
Mas o procurador, como antes, sem se mover e sem elevar minimamente o tom de voz, interrompeu-o no mesmo instante:
É a mim que você chama de bom homem? Está cometendo um engano. Em Yerushalaim, todos cochicham sobre mim, que sou um monstro cruel, e é a mais pura verdade. — E acrescentou no mesmo tom monótono: — Tragam-me o centurião Mata-ratos.
A todos pareceu que ficou escuro na varanda, quando o centurião da primeira centúria, Marcos, chamado de Mata-ratos, apresentou-se ao procurador. Mata-ratos era uma cabeça mais alto do que o maior soldado da Legião e tinha ombros tão largos que tapou completamente o sol ainda baixo.
O procurador dirigiu-se ao centurião em latim:
O criminoso me chama de “bom homem”. Leve-o daqui um instante e explique-lhe como deve referir-se a mim. Mas sem mutilação.
Então todos, menos o procurador, imóvel, seguiram Marcos Mata-ratos com o olhar, enquanto este acenava para o preso com a mão, indicando que deveria segui-lo.
Em geral, todo mundo seguia Mata-ratos com o olhar, onde quer que ele surgisse, por causa do seu tamanho e, para aqueles que o viam pela primeira vez, também porque o rosto do centurião tinha sido deformado: em algum lugar do passado seu nariz fora esmagado com um golpe de porrete alemão.
As botas pesadas de Marcos bateram no mosaico e o homem amarrado o seguiu sem fazer ruído. Imperou um silêncio absoluto na colunata e podia-se ouvir como os pombos arrulhavam na área do jardim perto da varanda e, também, como a água cantarolava na fonte uma intrincada e agradável canção.
O procurador teve vontade de levantar-se, pôr a têmpora embaixo do jato e deixar-se ficar assim. Mas ele sabia que nem isso o ajudaria.
Assim que Mata-ratos levou o preso da colunata para o jardim, ele arrancou o chicote das mãos de um legionário parado ao pé de uma estátua de bronze e, com um leve impulso, açoitou o preso nos ombros. O movimento do centurião foi displicente e fraco, mas o homem amarrado caiu instantaneamente no chão, como se lhe tivessem arrancado as pernas, engasgou com o ar, a cor desapareceu de seu rosto e o olhar tornou-se inexpressivo.
Só com a mão esquerda, Marcos suspendeu no ar o homem caído, leve como um saco vazio, colocou-o de pé e começou a falar, fanho, pronunciando de forma errada as palavras em aramaico:
O procurador romano deve ser chamado de Hegemon. Não use outras palavras. Sentido! Está me entendendo ou terei de bater novamente?
O preso cambaleou, mas recuperou o equilíbrio. A cor voltou ao seu rosto e ele respirou fundo, respondendo com a voz rouca:
Eu entendi. Não me bata.
Um instante depois, estava de novo diante do procurador.
A voz insípida e doente soou:
Nome?
O meu? — retrucou o preso depressa, expressando com todo o seu ser que estava pronto para responder com sensatez e não provocar mais ira.
O procurador disse baixinho:
O meu eu sei. Não finja ser mais bobo do que você é. O seu.
Yeshua — respondeu rapidamente o prisioneiro.
Tem sobrenome?
Ha-Notzri.
Natural de onde?
Da cidade de Gamala — respondeu o prisioneiro, indicando com a cabeça que lá, em algum lugar distante, à sua direita, ao norte, estava a cidade de Gamala.
Qual é sua origem?
Não sei ao certo — respondeu o preso, animado. — Não me lembro dos meus pais. Disseram-me que meu pai era sírio...
Qual é seu endereço permanente?
Não tenho morada permanente — respondeu timidamente o prisioneiro. — Viajo de cidade em cidade.
Isso pode ser resumido em uma palavra: vadiagem — disse o procurador, e perguntou: — Tem parentes?
Não tenho ninguém. Sou sozinho no mundo.
Por acaso sabe ler e escrever?
Sim.
Por acaso sabe alguma outra língua, além do aramaico?
Sei. Grego.
A pálpebra inchada levantou-se de leve e o olho, repuxado pela nuvem de sofrimento, parou no preso. O outro olho permaneceu fechado.
Pilatos começou a falar em grego:
Então era você que queria destruir o templo e conclamava o povo a isso?
O prisioneiro reanimou-se, seus olhos pararam de expressar medo e ele começou a falar em grego:
Eu, bom ho... — na mesma hora o terror brilhou nos olhos do prisioneiro porque por pouco ele não escorregou. — Eu, Hegemon, nunca na minha vida pensaria em destruir o templo e não incitei ninguém a cometer tal ato insano.
O rosto do secretário, que anotava o depoimento curvado sobre uma mesa baixa, expressou admiração. Ele ergueu a cabeça, mas imediatamente inclinou-a de volta para o pergaminho.
Uma multidão de pessoas diferentes se reúne nessa cidade para a festa. Entre elas há magos, astrólogos, videntes e assassinos — disse o procurador em tom monótono. — E dá de aparecerem também mentirosos. Você, por exemplo, é um mentiroso. Está anotado legivelmente: incitou a destruição do templo. Há testemunhas.
Essa boa gente — começou a falar o prisioneiro e, acrescentando rapidamente: —, Hegemon — continuou: —, não aprendeu nada e confundiu tudo o que eu disse. Em geral, estou começando a temer que essa confusão ainda vá se prolongar por muito, muito tempo. Tudo porque ele anota incorretamente o que eu digo.
Fez-se o silêncio. Agora os dois olhos doentes fitavam o prisioneiro intensamente.
Vou repetir para você, mas será pela última vez: pare de querer se fazer de louco, seu bandido — pronunciou Pilatos, em tom suave e monótono. — Não há muito anotado sobre você, mas o que foi anotado é o suficiente para enforcá-lo.
Não, não, Hegemon — disse o preso, esforçando-se no desejo de convencer. — Um sujeito vive me seguindo e escrevendo sem parar em um pergaminho de cabra. Mas, certa vez, dei uma espiada nesse pergaminho e fiquei horrorizado. Decididamente, eu não falei nada do que estava anotado ali. Eu lhe supliquei: queime seu pergaminho, pelo amor de Deus! Mas ele o arrancou de minhas mãos e fugiu.
Quem é esse? — perguntou Pilatos com aversão e tocou a têmpora com a mão.
Mateus Levi — explicou o prisioneiro com boa vontade. — Ele era coletor de impostos e o encontrei, pela primeira vez, a caminho de Betfagé, onde se projeta um jardim de figueiras em uma esquina, e conversei com ele. No início foi hostil comigo e até me insultou, quer dizer, achou que me tivesse insultado chamando-me de cachorro. — Aqui o prisioneiro deu um sorrisinho. — Eu, pessoalmente, não vejo nada de ruim nesse animal para me ofender com essa palavra...
O secretário parou de anotar e lançou um admirado olhar de soslaio, não para o preso, mas para o procurador.
... no entanto, depois de me ouvir, ele ficou mais amolecido — continuou Yeshua — e, finalmente, jogou o dinheiro na estrada e disse que seguiria comigo...
Pilatos deu um sorrisinho torto, arreganhando os dentes amarelos, e proferiu, virando-se de corpo inteiro para o secretário:
Oh, cidade de Yerushalaim! O que é que não se ouve nela! O coletor de impostos, vejam só, jogou o dinheiro na estrada!
Sem saber como responder a isso, o secretário considerou necessário repetir o sorriso de Pilatos.
E ele disse que, daquele momento em diante, odiaria o dinheiro — afirmou Yeshua sobre o estranho gesto de Mateus Levi, e acrescentou: — Desde então, ele se tornou meu companheiro de viagem.
Com os dentes ainda arreganhados, o procurador olhou para o preso de relance, depois para o sol, que não parava de subir sobre as estátuas equestres do hipódromo, distante, localizado abaixo, à direita, e, de repente, com algum sofrimento nauseabundo, pensou que o mais simples seria expulsar esse estranho bandido da varanda, pronunciando somente duas palavras: “Enforquem-no.” Expulsar também a tropa, sair da colunata para o interior do palácio, mandar escurecer o quarto, jogar-se no leito, pedir água gelada, com a voz lamentosa chamar seu cachorro Banga e reclamar com ele sobre a enxaqueca. E de repente a ideia do veneno brilhou sedutoramente na cabeça doente do procurador.
Ele lançou os olhos opacos para o preso e por algum tempo ficou calado, lembrando, com sofrimento, por que, sob a impiedosa chama do sol matinal de Yerushalaim, estava a sua frente um prisioneiro com o rosto desfigurado por surras, e quais perguntas desnecessárias ainda lhe deveriam fazer.
Mateus Levi? — perguntou o doente com a voz rouca e fechou os olhos.
Isso, Mateus Levi — chegou a ele uma voz alta que o fazia sofrer.
De qualquer forma, o que mesmo você falava sobre o templo à multidão reunida no mercado?
A voz daquele que respondia parecia perfurar a têmpora de Pilatos e, indescritivelmente dolorosa, dizia:
Eu, Hegemon, falava que o templo da velha crença ruirá e, em seu lugar, se erguerá o novo templo da verdade. Disse de tal forma para que fosse mais compreensível.
E para que você, seu vadio, foi confundir o povo no mercado, falando-lhe da verdade da qual você não tem ideia? O que é a verdade?
Nesse momento, o procurador pensou: “Oh, meus Deuses! Estou lhe perguntando algo desnecessário para um julgamento... Minha mente não me serve mais...” E novamente se assoma uma taça com um líquido escuro. “Tragam-me veneno, veneno...”
Então, ouviu a voz de novo:
A verdade, antes de tudo, é que a sua cabeça está doendo, e dói tão forte que você covardemente pensa na morte. Está sem forças não só para falar comigo, mas tem dificuldade até de olhar para mim. E agora eu, involuntariamente, sou o seu carrasco, e isso me deixa aflito. Você não consegue pensar em nada e deseja somente que venha seu cachorro, o único ser, pelo visto, ao qual você é afeiçoado. Mas seus tormentos agora chegarão ao fim, a dor de cabeça vai passar.
O secretário esbugalhou os olhos para o prisioneiro e não terminou de escrever as palavras.
Pilatos levantou os olhos atormentados para o prisioneiro e viu que o sol já estava bastante alto sobre o hipódromo, e que um raio penetrara na colunata e se arrastava até as sandálias gastas de Yeshua, que se afastava do sol.
O procurador levantou-se da poltrona, apertou a cabeça com as mãos, e o rosto amarelado e escanhoado expressou horror. Mas, na mesma hora, ele o suprimiu com sua vontade e sentou-se de novo.
O prisioneiro, ao mesmo tempo, continuava seu discurso, mas o secretário não anotava mais nada e, esticando o pescoço feito um ganso, só se esforçava para não deixar passar uma palavra sequer.
Pronto, está tudo acabado — dizia o preso, lançando olhares benevolentes para Pilatos. — Estou extremamente feliz com isso. Eu o aconselharia, Hegemon, a deixar o palácio por um tempo e a passear a pé em algum lugar dos arredores, bem, até mesmo nos jardins do monte das Oliveiras. Um temporal se aproxima... — o prisioneiro voltou-se e apertou os olhos contra o sol — ... mais tarde, à noite. Um passeio seria muito proveitoso para você e eu o acompanharia com gosto. Alguns pensamentos novos vieram-me à cabeça, que poderiam, suponho, parecer-lhe interessantes, e com boa vontade eu os dividiria com você, principalmente porque você deixa a impressão de ser um homem muito inteligente.
O secretário ficou mortalmente pálido e deixou o rolo cair no chão.
O ruim — continuava o homem amarrado, que não era interrompido por ninguém — é que você é um tanto fechado e perdeu definitivamente a fé nas pessoas. É impossível, você há de concordar, depositar toda sua afeição num cachorro. Sua vida é sem graça, Hegemon — aqui o orador permitiu-se um sorriso.
O secretário pensava somente se deveria ou não acreditar em seus ouvidos. Tinha de acreditar. Então, tentou imaginar qual seria a forma rara da ira do explosivo procurador diante do inédito atrevimento do preso. Mas isso o secretário não conseguia imaginar, apesar de conhecer bem o procurador.
Então, eclodiu a voz enrouquecida do procurador, que disse em latim:
Desatem suas mãos.
Um dos legionários da guarda bateu com a lança, entregou-a ao outro, aproximou-se e retirou as cordas do prisioneiro. O secretário apanhou o rolo e resolveu, por ora, não anotar nada e não se impressionar com nada.
Reconheça — perguntou baixinho, em grego, Pilatos. — Você é um grande doutor?
Não, procurador, não sou doutor — respondeu o prisioneiro com alívio, esfregando a mão vincada, inchada e vermelha.
Com os olhos severos e carranca, Pilatos perfurava o prisioneiro e nesses olhos não havia mais opacidade, neles surgiram as faíscas que todos conheciam.
Eu não lhe perguntei — disse Pilatos. — Você, por acaso, sabe também latim?
Sei, sim — respondeu o prisioneiro.
A cor vermelha tomou conta das bochechas amareladas de Pilatos, que perguntou em latim:
Como soube que eu queria chamar o cachorro?
É muito simples — respondeu o prisioneiro em latim. — Você passou com a mão pelo ar — o prisioneiro repetiu o gesto de Pilatos —, como se quisesse fazer um afago, e os lábios...
Isso — disse Pilatos.
Ficaram calados. Depois Pilatos fez uma pergunta em grego:
Quer dizer que você é doutor?
Não, não — respondeu vivamente o prisioneiro. — Acredite em mim, não sou doutor.
Está bem. Caso queira manter isso em segredo, mantenha. Isso não tem relação direta com o caso. Então, você afirma que não conclamava a destruir... ou a incendiar, ou, de alguma forma, a liquidar o templo?
Eu, Hegemon, não conclamei ninguém a tais atos, repito. Será que pareço um louco?
Oh, não, não parece um louco — respondeu baixinho o procurador e riu com um certo sorriso terrível. — Então, jure que isso não aconteceu.
Quer que jure por quem? — perguntou o desamarrado bastante animado.
Pode ser pela sua vida — respondeu o procurador. — É o momento certo de jurar por ela, pois, saiba, ela está por um fio.
Você não está pensando que é você que a sustenta, Hegemon? — perguntou o prisioneiro. — Caso pense assim, está cometendo um grande engano.
Pilatos estremeceu e respondeu com os dentes cerrados:
Eu posso cortar esse fio.
Também nisso você se engana — exclamou o prisioneiro com um sorriso radiante, protegendo-se do sol com a mão. — Você há de convir que, decerto, só poderá cortar o fio aquele que o pendurou, não é mesmo?
Isso, isso — disse Pilatos sorrindo. — Agora não tenho dúvidas de que os vadios inúteis de Yerushalaim o seguiam bem de perto. Não sei quem pendurou sua língua, mas foi bem pendurada. A propósito, diga-me: é verdade que você apareceu em Yerushalaim pelos portões de Susa montado num burro e acompanhado por uma multidão da ralé que o saudava aos gritos como se você fosse algum profeta? — Aqui o procurador apontou para o rolo do pergaminho.
O prisioneiro lançou um olhar perplexo para o procurador.
Eu nem tenho burro, Hegemon — disse ele. — Cheguei a Yerushalaim precisamente pelos portões de Susa, mas a pé, somente na companhia de Mateus Levi, e ninguém gritava para mim, pois até então ninguém me conhecia em Yerushalaim.
Você por acaso não conhece pessoas como — continuou Pilatos sem tirar os olhos do prisioneiro — um tal de Dismas, o outro Gestas e um terceiro Bar-Rabban?
Não conheço essas boas pessoas — respondeu o prisioneiro.
Verdade?
Verdade.
Agora me diga, por que você usa as palavras “boas pessoas” o tempo todo? Por acaso você chama todo mundo assim?
Todo mundo — respondeu o prisioneiro. — Não existem pessoas maldosas no mundo.
É a primeira vez que ouço isso — disse Pilatos, dando um sorrisinho. — Mas pode ser que eu conheça pouco a vida!... Não precisa mais anotar. — Dirigiu-se ao secretário, embora este não estivesse anotando nada mesmo, e continuou falando ao prisioneiro: — Você leu sobre isso em algum livro grego?
Não. Cheguei a isso com meu próprio raciocínio.
E você prega isso?
Prego.
Mas, por exemplo, o centurião Marcos, apelidado de Mata-ratos, ele é bom?
É — respondeu o prisioneiro. — Ele, na verdade, é um homem infeliz. Desde que as boas pessoas o deformaram, tornou-se cruel e insensível. Seria interessante saber quem o mutilou.
Posso informar isso com satisfação — respondeu Pilatos. — Pois fui testemunha disso. As boas pessoas partiam para cima dele, como cachorros para cima de um urso. Alemães agarraram-no pelo pescoço, pelas mãos, pelas pernas. O manipulário da infantaria caiu numa emboscada e, se não fosse uma tura da cavalaria, comandada por mim, romper um flanco, você, filósofo, não chegaria a conversar com o Mata-ratos. Isso ocorreu na batalha de Idistaviso, no vale das Virgens.
Tenho a certeza de que se pudesse falar com ele — disse de repente o prisioneiro em tom sonhador —, ele mudaria drasticamente.
Suponho — respondeu Pilatos — que você traria pouca alegria ao legado da Legião caso inventasse de conversar com algum de seus oficiais ou soldados. Aliás, isso está longe de acontecer, para a felicidade geral, e o primeiro a se ocupar disso serei eu.
Nesse instante, uma andorinha voou impetuosa na colunata, fez um círculo sob o teto dourado, desceu, quase atingiu com a asa pontuda o rosto de uma estátua de cobre no nicho e se escondeu atrás do capitel de uma coluna. Quem sabe teve a ideia de fazer um ninho ali.
Durante seu voo, uma fórmula configurou-se na lúcida e agora leve cabeça do procurador. Era a seguinte: Hegemon examinou o processo do filósofo vadio Yeshua, de sobrenome Ha-Notzri, e não encontrou constituição de crime algum. Não encontrou, em particular, a mínima ligação entre as ações de Yeshua e as desordens que ocorreram em Yerushalaim nos últimos tempos. O filósofo vadio revelou-se doente mental. Consequentemente, o procurador não confirmava a sentença de morte de Ha-Notzri, pronunciada pelo Pequeno Sinédrio. Porém, tendo em vista que os discursos utópicos e loucos de Ha-Notzri podiam ser motivo de perturbações em Yerushalaim, o procurador expulsará Yeshua de Yerushalaim e o submeterá à prisão na Cesareia, a de Straton, no mar Mediterrâneo, ou seja, exatamente onde fica a residência do procurador.
Restava ditar isso ao secretário.
As asas da andorinha rufaram exatamente sobre a cabeça do Hegemon. O pássaro se arrojou à bacia do chafariz e voou para a liberdade absoluta. O procurador ergueu os olhos para o prisioneiro e viu a poeira levantar num pilar ao lado deste.
É tudo sobre ele? — perguntou Pilatos ao secretário.
Infelizmente, não — respondeu o secretário inesperadamente e entregou a Pilatos outro pedaço de pergaminho.
O que mais há? — perguntou Pilatos, franzindo a testa.
Depois de ler o que lhe foi dado, seu rosto se alterou ainda mais. Não se sabe se foi o sangue escuro que afluiu para seu pescoço e rosto, ou se algo diferente aconteceu, só que sua pele perdeu o amarelado, empardeceu e os olhos como que afundaram.
Pelo visto, de novo o culpado era o sangue, que afluiu para as têmporas e começou a latejar, mas dessa vez algo aconteceu com a vista do procurador. Assim, teve a impressão de que a cabeça do prisioneiro flutuou para algum lugar e de que no lugar dela surgiu outra. E nessa cabeça calva havia uma coroa dourada sem dentes. Na testa havia uma chaga redonda que carcomia a pele e que estava besuntada de pomada. Uma boca banguela sulcada com um lábio inferior caído e caprichoso. Pareceu a Pilatos que as colunas cor-de-rosa da varanda e os telhados de Yerushalaim sumiram, ao longe, abaixo, além do jardim, e que tudo em volta estava mergulhado no denso verde dos jardins de ciprestes. E aconteceu algo estranho com seu ouvido, como se ao longe tocassem trombetas, baixinho e ameaçadoramente, e com muita clareza se ouvisse uma voz anasalada, que pronunciava arrastadamente as palavras soberanas: “A lei sobre a ofensa da majestade...”
Pensamentos curtos, desconexos e incomuns surgiram: “Estou perdido!..”, e depois: “Estamos perdidos!..” E entre eles um pensamento totalmente absurdo sobre uma tal de imortalidade, e a imortalidade, por algum motivo, provocou-lhe uma tristeza insuportável.
Pilatos esforçou-se, afastou as visões, voltou o olhar para a varanda e, novamente, surgiram diante dele os olhos do prisioneiro.
Ouça, Ha-Notzri — começou a dizer o procurador, olhando para Yeshua de maneira um tanto estranha: o rosto do procurador estava terrível, mas os olhos preocupados —, alguma vez você disse algo sobre o grande César? Responda! Disse?... Ou... não... disse? — Pilatos esticou a palavra “não” um pouco mais do que deveria num tribunal e, com seu olhar, enviou a Yeshua algum pensamento que parecia querer incutir no prisioneiro.
Dizer a verdade é fácil e agradável — observou o prisioneiro.
Eu não preciso saber — respondeu Pilatos com a voz abafada e maldosa — se para você é agradável ou desagradável dizer a verdade. Mas você é obrigado a dizê-la. Porém, quando falar, pese cada palavra caso não deseje uma morte não só inevitável, como também dolorosa.
Ninguém sabe o que aconteceu com o procurador da Judeia, mas ele se permitiu levantar a mão, como se estivesse se defendendo de um raio de sol e, por trás dessa mão, como atrás de um escudo, quisesse enviar ao prisioneiro algum olhar alusivo.
Então, responda — dizia ele. — Por acaso você conhece um certo Judas de Kerioth e o que exatamente lhe disse, caso tenha falado, sobre o César?
Foi assim — começou a narrar o prisioneiro com gosto. — Anteontem à noite, eu conheci perto do templo um jovem que se apresentou como Judas, da cidade de Kerioth. Ele me convidou para ir a sua casa na Cidade Baixa e me recebeu muito cordialmente...
Bom homem? — perguntou Pilatos, um fogo diabólico brilhando em seus olhos.
Bom homem e muito curioso — confirmou o prisioneiro. — Ele demonstrou o maior interesse por meus pensamentos e foi muito hospitaleiro comigo...
Acendeu as luminárias... — de dentes cerrados e no mesmo tom do prisioneiro, Pilatos pronunciou com os olhos brilhando.
Acendeu — continuou Yeshua, um pouco surpreso com o conhecimento de causa do procurador. — Pediu-me que expressasse a minha opinião sobre o poder do Estado. Ele estava extremamente interessado por essa questão.
E o que foi que você disse? — perguntou Pilatos. — Ou você vai responder que esqueceu o que disse? — Já havia desespero em seu tom.
Entre outras coisas, eu disse — contava o prisioneiro — que qualquer poder é uma violência contra as pessoas e que chegará o tempo em que não haverá mais o poder nem dos Césares, nem qualquer outro poder. O homem passará para o reino da verdade e da justiça, onde não haverá necessidade de poder algum.
[…]

Mikhail Bulgákov, em O Mestre e Margarida

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