— Cretino!
Foi o fim de uma conversa áspera da
moça pelo seu telefone celular. Depois daquele “cretino!”, dito
com aquela força, era de se esperar que a moça jogasse o celular
longe, como se estivesse jogando fora o próprio cretino. Mas não.
Ela apenas desligou o celular e colocou ao lado da sua xícara de
café (ou seria chá?), na mesa. O homem da mesa ao lado
certificou-se de que ela estava calma e não despejaria todo o seu
ódio, que pela conversa no celular parecia incluir toda a
humanidade, sobre sua cabeça, e comentou:
— Palavra curiosa, né?
— O quê?
— Cretino.
— Por quê?
— Eu sempre pensei que tivesse
alguma coisa a ver com Creta.
— Concreta?
— Não. Creta. A ilha de Creta.
Cretino seria alguém de Creta. Que por alguma razão teria a fama de
produzir idiotas.
— E não é?
— Não. Fui ver no dicionário.
Cretino é quem sofre de cretinismo, uma condição decorrente de
problemas na tiroide.
— Não é o caso do meu cretino.
— Eu desconfiei que não era. No
dicionário diz que “cretino” também é sinônimo de lorpa,
pacóvio...
O telefone tocou. Vivaldi. Ela atendeu
rispidamente.
— Quié?
Ouviu por alguns minutos, de cara
feia. E ela era linda. Depois disse:
— Sabe o que você é? Um lorpa.
Qual é o outro?
— Pacóvio — disse o homem.
— Um pacóvio. Nunca vi um pacóvio
igual. O quê? Não, não estou com ninguém. Estou tomando um
cappuccino sozinha, pensando em como pude perder meu tempo com um
pacóvio como você. Por favor, não me ligue mais.
Ela desligou o telefone. Sorrindo. Ele
perguntou:
— Marido?
— Deus me livre.
— Namorado?
— Não é mais.
— Posso lhe pagar outro cappuccino?
Mais tarde, já na cama, ela
distraída, ele perguntou se ela estava pensando no namorado.
— Não, não. Acabou.
— O que foi que ele fez, afinal?
— Nada. Pacovice geral. Na verdade
não nos entendemos desde o início. Ele é bonito. Mas sabe aquele
tipo que tem os bíceps na cabeça? É ele. Não podia dar certo.
— Ainda mais com o Vivaldi.
— Como, Vivaldi?
— É o que toca no seu celular.
Vivaldi. Uma das quatro estações. Tenho uma tese de que se pode
saber tudo sobre uma pessoa pelo que ela escolhe para tocar no seu
celular. Uma vez rompi o namoro com uma mulher quando descobri que o
celular dela tocava Wagner. Achei que seria perigoso. Já uma mulher
que escolhe Vivaldi...
— Não é para qualquer cretino.
— Definitivamente não.
Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos impossíveis
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