quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

14. Narra o que se passou no divã real



Logo que o xeque Nuredim Zarur — o emissário do rei — partiu em busca do calígrafo que desenhara as 32 legendas do divã, deram entrada na magnífica sala do trono cinco músicos egípcios que executaram, com grande sentimento, as mais ternas canções e melodias árabes. Enquanto os músicos faziam vibrar seus alaúdes, harpas, cítaras e flautas, duas graciosas bailarinas djalicianas(1), para maior deslumbramento de todos, dançavam sobre o vasto tablado de forma circular.
Era de causar espanto a semelhança que se observava entre as duas jovens escravas.
Tinham ambas o mesmo talhe esbelto, a mesma face morena, os mesmos olhos pintados de khol negro; ostentavam brincos, pulseiras e colares exatamente iguais. E, para completar a confusão, apresentavam-se com trajes em que não se percebia a menor diferença.
Em dado momento o califa, que parecia de bom humor, dirigiu-se a Beremiz a quem disse:
— Que achas, ó Calculista, das minhas lindas adjamis? Já reparaste, com certeza, que são parecidíssimas. Uma delas chama-se Iclímia; tem a outra o mavioso nome de Tabessã(2). São gêmeas e valem um tesouro. Não encontrei, até hoje, quem fosse capaz de distinguir, com segurança, uma da outra quando elas reaparecem no tablado, depois da dança. Iclímia (repara bem!) é a que se acha agora à direita; Tabessã, à esquerda, junto à coluna, dirige-nos, neste momento, seu melhor sorriso! Pela cor de sua pele lisa, pelo perfume delicado que exala, ela se assemelha à haste odorante do aloés.
— Confesso, ó xeque do Islã(3) — respondeu Beremiz —, que as vossas bailarinas são, realmente, irresistíveis. Louvado seja Alá, o Único, que criou a Beleza para com ela modelar as sedutoras formas femininas. Da mulher formosa já disse o poeta:

E para teu luxo a teia que os poetas fabricam com o fio de ouro das imagens; e os pintores o que fazem é criar para tua formosura nova imortalidade.
Para adornar-te, para vestir-te, para fazer-te mais preciosa, o mar dá as suas pérolas, a terra o seu ouro, os jardins suas flores.

Sobre a tua mocidade o desejo do coração dos homens derramou a sua glória(4).




 Parece-me, entretanto — ponderou o calculista —, relativamente fácil distinguir-se Iclímia de sua irmã Tabessã. Basta reparar na feitura dos trajes de cada uma!
Como assim? — atalhou o sultão. — Pelos trajes não se poderá descobrir a menor diferença, pois determinei que ambas usassem véus, blusas e mahzmas(5) rigorosamente iguais!
Peço perdão, ó Rei generoso — contraveio Beremiz —, mas a vossa ordem as costureiras não a acataram com o devido cuidado. Verifico que a mahzma de Iclímia tem, na barra, 312 franjas, ao passo que na mahzma de Tabessã só cheguei a contar 309 franjas. Essa diferença de 3 no número total das franjas é suficiente para evitar qualquer confusão entre as duas irmãs gêmeas!
Ao ouvir tais palavras o califa bateu palmas, fez parar imediatamente o bailado, e determinou que um haquim(6) fosse contar, uma por uma, todas as franjas que apareciam nos saiotes das bailarinas.
O resultado veio confirmar o cálculo de Beremiz. A formosa Iclímia tinha, no vestido, 312 franjas e Tabessã, apenas 309!
Mac Allah! — exclamou o califa. — O xeque Iezid, apesar de poeta, não exagerou. Esse calculista Beremiz é, realmente, prodigioso! Contou todas as franjas dos saiotes enquanto as bailarinas volteavam rapidamente sobre o tablado. Isso parece incrível! Por Alá!
A inveja quando se apodera de um homem abre em sua alma caminho a todos os sentimentos desprezíveis e torpes.
Havia na corte de Al-Motacém um vizir chamado Nahum Ibn-Nahum, tipo invejoso e mau. Vendo crescer perante o califa o prestígio de Beremiz, como onda de pó erguida pelo simum, aguilhoado pelo despeito deliberou embaraçar o meu talentoso amigo e colocá-lo em situação ridícula e falsa. Assim foi que se aproximou do rei e disse-lhe destilando as palavras:
Acabo de observar, ó Emir dos Crentes, que o calculista persa, nosso hóspede desta tarde, é exímio na contagem de elementos ou figuras de uma coleção. Contou as quinhentas e tantas palavras escritas na parede do salão, citou dois números amigos, falou da diferença (64 que é cubo e quadrado) e acabou por contar, uma por uma, as franjas dos saiotes das lindas bailarinas.
Mal servidos ficaríamos nós se os nossos matemáticos se dispusessem a cuidar de coisas tão pueris, sem utilidade prática de espécie alguma. Realmente! Que nos adianta saber se há, nos versos que nos enlevam, 220 ou 284 palavras e se esses números são amigos ou não? A preocupação de quantos admiram um poeta não é contar as letras dos versos ou calcular o número de palavras pretas ou vermelhas de um poema. Tampouco nos interessa saber se no vestido desta bela e graciosa bailarina há 312, 309 ou 1.000 franjas. Tudo isso é ridículo e de mui escasso interesse para os homens de sentimentos que cultivam a Beleza e a Arte.
O engenho humano, amparado pela ciência, deve consagrar-se à resolução dos grandes problemas da Vida. Os sábios — inspirados por Alá, o Exaltado — não ergueram o deslumbrante edifício da Matemática para que essa nobre ciência viesse ter a aplicação que lhe quer atribuir o calculista persa. Parece-me, pois, um crime reduzir a ciência de um Euclides, de um Arquimedes ou de um maravilhoso Omar Khayya-m (Alá o tenha em sua glória!) a essa mísera situação de avaliadora numérica de coisas e seres. Interessa-nos, pois, ver esse calculista aplicar as teorias (que diz possuir) na solução de problemas de serventia real, isto é, problemas que se relacionem com as necessidades e os reclamos da vida corrente!
Há um pequeno engano de vossa parte, senhor vizir — acudiu prontamente Beremiz —, e eu teria grande honra em esclarecer esse insignificante equívoco se o generoso califa, nosso amo e senhor, me concedesse permissão para dirigir-lhe mais longamente a palavra, neste divã!
Não deixa de parecer, até certo ponto, judiciosa — replicou o rei — a censura feita pelo vizir Nahum-Ibn-Nahum. Um esclarecimento sobre o caso torna-se indispensável. Fala, pois! Tua palavra poderá orientar a opinião dos que aqui se acham!
Fez-se no divã real profundo silêncio.
O calculista assim falou:
Os doutores e ulemás, ó Rei dos Árabes, não ignoram que a Matemática surgiu com o despertar da alma humana; mas não surgiu com fins utilitários. Foi a ânsia de resolver o mistério do Universo, diante do qual o homem é simples grão de areia, que lhe deu o primeiro impulso. Seu verdadeiro desenvolvimento resultou, antes de tudo, do esforço em penetrar e compreender o Infinito. E ainda hoje, depois de havermos passado séculos a tentar, em vão, afastar o espesso velário, ainda hoje é a busca do Infinito que nos leva para diante. O progresso material dos homens depende das pesquisas abstratas ou científicas do presente, e será aos homens de ciência que trabalham para fins puramente científicos, sem nenhum intuito de aplicação de suas doutrinas, que a humanidade ficará devedora em tempos futuros(7).
Beremiz fez uma pequena pausa, e logo prosseguiu, com um sorriso fino e espiritual:
Quando o matemático efetua seus cálculos, ou procura novas relações entre os números, não busca a verdade para fins utilitários. Cultivar a ciência pela utilidade prática, imediata, é desvirtuar a alma da própria ciência!
A teoria estudada hoje, e que nos parece inútil, terá aplicações no futuro? Quem poderá esclarecer esse enigma na sua projeção através dos séculos? Quem poderá, da equação do presente, resolver a grande incógnita dos tempos vindouros? Só Alá sabe a verdade! É bem possível que as investigações teóricas de hoje forneçam, dentro de mil ou dois mil anos, recursos preciosos para a prática.
É preciso, ainda, não esquecer que a Matemática, além do objetivo de resolver problemas, calcular áreas e medir volumes, tem finalidades muito mais elevadas.
Por ter alto valor no desenvolvimento da inteligência e do raciocínio, é a Matemática um dos caminhos mais seguros por onde podemos levar o homem a sentir o poder do pensamento, a mágica do espírito.
A Matemática é, enfim, uma das verdades eternas e, como tal, produz a elevação do espírito — a mesma elevação que sentimos ao contemplar os grandes espetáculos da Natureza, através dos quais sentimos a presença de Deus, Eterno e Onipotente! Há, pois, ó ilustre vizir Nahum Ibn-Nahum, como já disse, um pequeno erro de vossa parte. Conto os versos de um poema, calculo a altura de uma estrela, avalio o número de franjas, meço a área de um país, ou a força de uma torrente — aplico, enfim, fórmulas algébricas e princípios geométricos — sem me preocupar com os louros que possa tirar de meus cálculos e estudos! Sem o sonho e a fantasia a ciência se abastarda. É ciência morta! Uassalã!
As palavras eloquentes de Beremiz impressionaram profundamente os nobres e ulemás que rodeavam o trono. O rei aproximou-se do calculista, ergueu-lhe a mão direita e exclamou com decidida autoridade:
A teoria do cientista sonhador venceu e vencerá sempre o imediatismo grosseiro do ambicioso sem ideal filosófico! Kelimet-Oullah(8)!
Ao ouvir tal sentença, ditada pela justiça e pela razão, o rancoroso Nahum Ibn-Nahum inclinou-se, dirigiu um salã ao rei, e sem dizer palavra retirou-se cabisbaixo do divã das audiências.
Muita razão tinha o poeta ao escrever:

Deixa voar bem alto a Fantasia:
Sem ilusões a vida que seria?”(9)

NOTAS
(1) Escravas de origem espanhola. Em geral eram cristãs.
(2) Adjamis significa “jovens de outras terras”. Iclímia é o nome atribuído à filha mais velha de Eva. Segundo a tradição árabe, ela é mais moça do que Caim. Tabessã quer dizer pequenina.
(3) Título dado, exclusivamente, aos descendentes de Maomé.
(4) Rabindranath Tagore, poeta indiano.
(5) Espécie de saiote que usam as bailarinas.
(6) Médico a quem o rei confia a saúde de suas esposas.
(7) Já Condorcet observa: “O marinheiro a quem a exata determinação da longitude preserva do naufrágio deve a vida a uma teoria concebida, vinte séculos mais cedo, por homens de gênio que tinham em vista meras especulações geométricas.”
(8) Palavra de Deus.
(9) Esses versos são do grande poeta lírico espanhol Ramon de Campoamor (1817-1901), em tradução de Alípio de Figueiredo.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

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