II
Acordo do meu sonho. O Comandante me
surpreende com uma estranha proposta:
— Se essa missão o aborrece demais,
se você não se sentir muito em forma, posso…
— Ora, meu Comandante!
O Comandante sabe muito bem que tal
proposta é absurda. Mas, quando uma tripulação não volta, ele se
lembra da gravidade dos rostos na hora da partida. Interpreta essa
gravidade como sinal de um pressentimento. Culpa-se por tê-la
negligenciado.
O escrúpulo do Comandante me faz
pensar no Israel. Eu estava fumando antes de ontem, na janela da sala
de informações. Quando vi o Israel da minha janela, ele andava
rapidamente. Seu nariz estava vermelho. Um nariz grande, bem judeu e
bem vermelho. Fiquei bruscamente chocado com o nariz vermelho do
Israel.
Eu tinha por esse Israel, cujo nariz
estava observando, uma profunda amizade. Era um dos camaradas pilotos
mais corajosos do grupo. Um dos mais corajosos e um dos mais
modestos. Tinham-lhe falado tanto da prudência judia que ele devia
tomar sua coragem por prudência. É prudente ser vencedor.
Então, reparei no seu nariz grande e
vermelho, que brilhou apenas um instante, dada a rapidez dos passos
que levavam Israel e seu nariz. Sem querer zombar, voltei-me a
Gavoille:
— Por que ele está fazendo aquele
nariz?
— Foi a mãe dele quem o fez —
respondeu Gavoille.
Mas acrescentou:
— Estranha essa missão em baixa
altitude. — E saiu.
— Ah!
E, claro, eu me lembrei, à noite,
quando deixamos de esperar o retorno do Israel, daquele nariz que,
plantado num rosto totalmente impassível, exprimia, com uma espécie
de gênio próprio, a mais pesada das preocupações. Se eu
precisasse ter ordenado a partida do Israel, a imagem daquele nariz
me teria perseguido muito tempo, como uma recriminação. Israel,
decerto, nada respondera à ordem de partida, senão: “Positivo,
Comandante. Sim senhor, Comandante”. Israel, decerto, não tremera
um único músculo do rosto. Mas, devagar, insidiosa e
traiçoeiramente, seu nariz acendeu. Israel poderia contrair os
traços de seu rosto, mas não a cor de seu nariz. E seu nariz
abusara daquela cor para manifestar-se, por sua conta, no silêncio.
O nariz, à revelia de Israel, exprimira ao comandante sua forte
desaprovação.
Talvez seja por isso que o Comandante
não goste de mandar partir os que imagina estarem assolados de
pressentimentos. Os pressentimentos quase sempre enganam, mas dão às
ordens de guerra um tom de condenação. Alias é um chefe, não um
juiz.
Assim, outro dia, a respeito do
suboficial T.
Tanto quanto Israel era corajoso, T.
era acessível ao medo. É o único homem que conheci que
experimentou de fato o medo. Quando se dava a T. uma ordem de guerra,
provocava-se nele uma estranha ascensão de vertigem. Era alguma
coisa simples, inexorável e lenta. T. enrijecia lentamente dos pés
à cabeça. Seu rosto ficava como que lavado de qualquer expressão.
E seus olhos começavam a luzir.
Ao contrário do Israel, cujo nariz me
parecera tão aflito, aflito pela provável morte do Israel e ao
mesmo tempo muito irritado, T. não formava movimentos interiores.
Ele não reagia: ele entrava em mutação. Quando se terminava de
falar com T., descobria-se ter simplesmente acendido nele a angústia.
A angústia começava por expandir em seu rosto uma espécie de
claridade uniforme. T., desde então, ficava como que fora de
alcance. Sentia-se aumentar entre o universo e ele um deserto de
indiferença. Em lugar algum, jamais conheci, em ninguém no mundo,
essa forma de êxtase.
— Nunca deveria tê-lo deixado
partir naquele dia — dizia mais tarde o Comandante.
Naquele dia, quando o Comandante
anunciara a partida a T., ele não havia somente empalidecido, mas
também começara a sorrir. Simplesmente sorrir. Assim fazem, talvez,
os supliciados quando o carrasco, realmente, passa dos limites.
— Você não está bem. Vou
substituí-lo…
— Não, não Comandante. Já que é
a minha vez, é a minha vez.
E T., em continência diante do
Comandante, olhava para a frente, sem um movimento.
— Mas se você não se sente seguro
de si…
— É minha vez, Comandante, é minha
vez.
— Vejamos, T…
— Comandante…
O homem parecia um bloco. E Alias:
— Então o deixei partir.
O que se seguiu nunca teve explicação.
T., metralhador a bordo do aparelho, sofreu a tentativa de ataque por
parte de um caça inimigo. Mas as metralhadoras do caça tendo
travado, este deu meia-volta. O piloto e T. se falaram até quando
próximos do terreno da base, sem que o piloto notasse nada de
anormal. Mas a cinco minutos da chegada, não teve mais resposta.
E encontramos T. à noite, com o
crânio fraturado pela empenagem do avião. Ele saltara de paraquedas
em condições desastrosas, em plena velocidade, e isso sobre
território amigo, quando nenhum perigo o ameaçava mais. A passagem
do caça funcionara como um apelo irresistível.
* * *
— Vão se vestir — disse-nos o
Comandante —, e estejam no ar às cinco e meia.
— Até logo, Comandante.
O comandante responde com um gesto
vago. Superstição? Como meu cigarro está apagado e vasculho em vão
meus bolsos: Por que você nunca tem fósforos? Exatamente. E passo
pela porta, com esse adeus, perguntando-me: “Por que nunca tenho
fósforos?”.
— A missão o aborrece — observa
Dutertre. — Eu penso: “Ele não se lixa”. Mas não é em Alias
que estou pensando, fazendo essa tirada injusta. Estou chocado com
uma evidência que ninguém confessa: a vida do Espírito é
intermitente. A vida da Inteligência, somente esta, é permanente,
ou quase. Há poucas variações em minhas faculdades de análise.
Mas o Espírito não considera os objetos, considera o sentido que os
liga entre si. O rosto que é lido através deles. E o Espírito
passa da plena visão à cegueira absoluta. Quem ama sua morada,
chega a hora em que não vê ali nada além da junção de objetos
disparatados. Quem ama sua mulher, chega a hora em que só vê no
amor preocupações, contrariedades e obrigações. Quem apreciava
certa música, chega a hora em que ela nada lhe significa. Chega a
hora, como agora, em que não entendo mais meu país. Um país não é
a soma de terras, costumes, materiais, que minha inteligência sempre
consegue apreender. É um Ser. E chega a hora em que estou cego aos
Seres.
O comandante Alias passou a noite com
o general discutindo lógica pura. A lógica pura arruína a vida do
Espírito. Depois, ele se esgotou, na estrada, contra imensos
engarrafamentos. Depois, ele encontrou, chegando ao Grupo, cem
dificuldades materiais daquelas que nos roem pouco a pouco, como os
mil efeitos do desmoronamento incontrolável de uma montanha. Ele
enfim nos convocou para lançar-nos numa missão impossível. Somos
objetos da incoerência geral. Não somos, para ele, Saint-Exupéry
ou Dutertre, dotados de um modo particular de ver as coisas ou de não
ver, de pensar, andar, beber, sorrir. Somos pedaços de uma grande
construção cujo encaixe leva-se mais tempo, mais silêncio e mais
recuo para descobrir. Se fosse acometido de um tique, Alias só teria
observado o tique. Não expediria, a Arras, senão a imagem de um
tique. Na balbúrdia dos problemas que se apresentam, no imbróglio,
nós mesmos estamos divididos em pedaços. Essa voz. Aquele nariz.
Esse tique. E pedaços não comovem.
Não se trata aqui do Comandante
Alias, mas de todos os homens. Durante os preparativos de enterro,
amamos o morto, não estamos em contato com a morte. A morte é uma
coisa grande. É uma nova rede de relações com as ideias, os
objetos, os costumes do morto. Ela é um novo arranjo do mundo. Nada
mudou aparentemente, mas tudo mudou. As páginas do livro são as
mesmas, mas não o sentido do livro. Precisamos, para sentir a morte,
imaginar as horas em que temos necessidade do morto. Então, ele nos
faz falta. Imaginar as horas em que ele precisaria de nós. Mas ele
não precisa mais de nós. Imaginar a hora da visita amiga. E
descobri-la oca. É preciso ver a vida em perspectiva. Mas não há
perspectiva nem espaço no dia em que se enterra. O morto está ainda
em pedaços. O dia em que se enterra, nós nos dispersamos em
repisamentos, nas mãos de amigos verdadeiros ou falsos a apertar,
nas preocupações materiais. O morto morrerá só amanhã, no
silêncio. Mostrar-se-á para nós em sua plenitude, para ser
arrancado, em sua plenitude, da nossa substância. Então gritaremos
por aquele que se vai, e que não podemos reter.
Não gosto das gravuras de Épinal
sobre a guerra. O guerreiro rude aparece secando uma lágrima e
dissimulando sua emoção com suas tiradas violentas. É falso. O
guerreiro rude nada dissimula. Se solta uma tirada, é que está
pensando numa tirada.
A qualidade do homem não está em
questão. O comandante Alias é perfeitamente sensível. Se não
voltarmos, talvez ele sofra mais do que qualquer outro. Com a
condição de que se trate de nós e não de uma soma de detalhes
diversos. Com a condição de que essa reconstrução lhe seja
permitida pelo silêncio. Pois se, esta noite, o guardião que nos
persegue obrigar o Grupo a se mudar novamente, uma roda de caminhão
quebrada, numa avalanche de problemas, adiará nossa morte. E Alias
se esquecerá de sofrer por isso.
Assim eu, que parto em missão, não
penso em luta do Ocidente contra o nazismo. Penso em detalhes
imediatos. Imagino o absurdo de um sobrevoo sobre Arras a setecentos
metros. Na vacuidade das informações que desejam obter de nós. Na
lentidão de uniformizar-se como uma toalete para um carrasco. E
depois nas minhas luvas. Diabos, onde enfiei as luvas? Perdi minhas
luvas.
Não vejo mais a catedral que habito.
Estou me vestindo para o culto de um
deus morto.
Antoine de Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra

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