57.
E, hoje, pensando no que tem sido a
minha vida, sinto-me qualquer bicho vivo, transportado num cesto de
encurvar o braço, entre duas estações suburbanas. A imagem é
estúpida, porém a vida que define é mais estúpida ainda do que
ela. Esses cestos costumam ter duas tampas, com meias ovais, que se
levantam um pouco num ou outro dos extremos curvos se o bicho
estrebucha. Mas o braço de quem transporta, apoiado um pouco ao
longo dos dobramentos centrais, não deixa coisa tão débil erguer
frustemente mais do que as extremidades inúteis, como asas de
borboleta que enfraquecem.
Esqueci-me que falava de mim com a
descrição do cesto. Vejo-o nitidamente, e ao braço gordo e branco
queimado da criada que o transporta. Não consigo ver a criada para
além do braço e a sua penugem. Não consigo sentir-me bem senão —
de repente — uma grande frescura daqueles varais brancos e nastros
de com que se tecem os cestos e onde estrebucho, bicho, entre duas
paragens que sinto. Entre elas repouso no que parece ser um banco e
falam lá fora do meu cesto. Durmo porque sossego, até que me ergam
de novo na paragem.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Nenhum comentário:
Postar um comentário