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Quadrante que assim viemos, por esses
lugares, que o nome não se soubesse. Até, até. A estrada de todos
os cotovelos. Sertão, ― se diz ―, o senhor querendo procurar,
nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera,
o sertão vem. Mas, aonde lá, era o sertão churro, o próprio,
mesmo. Ia fazendo receios, perfazendo indagação. Descemos por umas
grotas, no meio de serras de parte-vento e suas mães árvores. O
pongo de um ribeirão, o boqueirão de um rio. O Abaeté não era; se
bem fosse que parecia: largo rio Abaeté, no escalavrado, beiras
amarelas. Aquele rio fazia uma grande volta, acolá, clareado, com a
vista de uns coqueiros. Ali era um lugar longe e bonito, como que me
acenava. Mas não endireitamos para ele, porque o rumo determinado
era outro, torando desviado muito, consoante. E mais maninhava. Topar
um vivente é que era mesmo grande raridade. Um homenzinho distante,
roçando, lenhando, ou uma mulherzinha fiando a estriga na roca ou
tecendo em seu tear de pau, na porta de uma choça, de burití toda.
Outro homem quis me vender uma arara mansa, que a qual falava toda
palavra que tem á. Outra velha, que estava fumando o pito de barro.
Mas ela enrolou a cara no chale, não se ajuizaram os olhos dela. E o
gado mesmo vasqueava! só por pouco acaso um boi ou vaca, de solidão,
bicho passeado sem dono. Veado, sim, vi muitos! tinha vez que
pulavam, num sonhoso, correndo, de corta campo, tanto tantos ― uns
dois, uns três, uns vinte, em grupos ― mateiros e campeiros.
Faltava era o sossego em todo silêncio, faltava rastro de fala
humana. Aquilo perturbava, me sombreava. Já depois, com andada de
três dias, não se percebeu mais ninguém. Isso foi até onde o
morro quebrou. Nós estávamos em fundos fundos.
Isto é, nos arrampadouros. Tinha uma
estrada, aí na subida dela houvesse coisas. Uns galhos de árvores
colocados ― ramalhos e jaribaras ― forma de sinal! para não se
passar. Mas esse aviso havia de ser particular, para o uso de outros,
não para o nosso destino. Não respeitamos, de jeito nenhum. Fomos
indo. No entrar numa guapira, se redobrou o achado daquelas ramas
verdes, que não obedecemos. Eu vinha adiante, com o Acauã e o
Nelson, instruindo o caminho. Já estávamos pelas rédeas, para
outra subida de ladeira! mas aí escutamos o latir de cachorros. E
enxergamos um homem ― no alto da virada ― uns homens. Esses
estavam com espingardas.
Os quantos homens, de estranhoso
aspecto, que agitavam manejos para voltarmos de donde estávamos. Por
certo não sabiam quem a gente era; e pensavam que três cavaleiros
menos valessem. Mas, entendendo que do caminho não desgarrávamos,
começaram a ficar estramontados. Um eu vi, que dava ordens! um
roceiro brabo, arrastando as calças e as esporas. Mas os outros,
chusmote deles, eram só molambos de miséria, quase que não
possuíam o respeito de roupas de vestir. Um, aos menos trapos! nem
bem só o esporte de uma tanga esfarrapada, e, em lugar de camisa, a
ver a espécie de colete, de couro de jaguacacaca. Eram uns dez a
quinze. Não consegui sentido no que eles ameaçavam, e vi que
estavam aperrando as armas. Queriam cobrar portagem? Andavam
arrumando alguma jerimbamba? Não convinha avançar assim por cima
deles, logo, mas também dar recuada podia ser uma vergonha.
Esbarramos, neles quase encostados. Íamos esperar o resto do
pessoal. E eles, ali confrontes, não explicavam razão nenhuma. Só
um disse!
― Pode não... Pode não...
E renuía com a cabeça, o
banglafumém, mesmo quando falava, com uma voz de qualidade diversa,
costumada daquela terra de lugar; e os outros renuindo também! ―
Ah, pode não... Pode não... ― com o vozeio soturno.
Nos tempos antigos, devia de ter sido
assim.
Gente tão em célebres, conforme eu
nunca tinha divulgado nem ouvido dizer, na vida. O das esporas foi se
amontar num jumento ― esse era o único animal-de-sela que ali
tinham. Acho que montou para oferecer à gente maior vulto de
respeito; tocava batendo palma de mão na anca do jegue, veio vindo,
para primeiro se presenciar. Olhei para todos. Um tinha a barba muito
preta, e aqueles seus olhos permeando. Um, mesmo em dia de horas tão
calorosas, ele estava trajado com uma baeta vermelha, comprida, acho
que por falta de outra vestimenta prestável. Ver a ver o sacerdote!
― Ih! Essa gente tem piôlho e muquiranas... ― o Nélson disse,
contrabaixo. Todos estavam com alguma garantia: que eram lazarinas,
bocudas baludas, garruchas e bacamartes, escopetas e trabucão ―
peças de armas de outras idades. Quase que cada um era escuro de
feições, curtidos muito, mas um escuro com sarro ravo, amarelos de
tanto comer só pôlpa de buriti, e fio que estavam bêbados, de
beber tanta saêta. Um, zambo, troncudo, segurava somente um
calabôca, mas devia de ser de braço terrível, no manobrar aquele
cacete. O quanto feioso, de dar pena, constado chato o fôrmo do
nariz, estragada a boca grande demais, em três. Outro, que tinha uma
fôice encabada muito comprido, e um porongo pendurado a tiracol por
uma embira, cochichava com os restantes uma séria falação: a qual
uma espécie de pajelança. Artes vezes ele guinchava, feito o
demónio gemedeiro. Esse, que por nome de Constantino acudia. Todos
eles, com seus saquinhos chumbeiros e surrões, e polvorinhos de
corno, e armamento tão desgraçado, mesmo assim não tomavam
bastante receio de nossos rifles. Para o nosso juízo, eles eram
dôidos. Como é que, desvalimento de gente assim, podiam escolher
ofício de salteador? Ah, mas não eram. Que o que acontecia era de
serem só esses homens reperdidos sem salvação naquele recanto
lontão de mundo, groteiros dum sertão, os catrumanos daquelas
brenhas. O Acauã que explicou, o Acauã sabia deles. Que viviam
tapados de Deus, assim nos ocos. Nem não saíam dos solapos, segundo
refleti, dando cria feito bichos, em socavas. Mas por ali deviam de
ter suas casas e suas mulheres, seus meninos pequenos. Cafuas
levantadas nas burgueias, em dobras de serra ou no chão das
baixadas, beira de brejo; às vezes formando mesmo arruados. Aí
plantavam suas rocinhas, às vezes não tinham gordura nem sal.
Tanteei pena deles, grande pena. Como era que podiam parecer homens
de exata valentia? Eles mesmos faziam preparo da pólvora de que
tinham uso, ralando salitre das lapas, manipulando em panelas. Que
era uma pólvora preta, fedorenta, que estrondava com espalhafato,
enchendo os lugares de fumaceira. E às vezes essa pólvora bruta
fazia as armas rebentarem, queimando e matando o atirador. Como era
que eles podiam brigar? Conforme podiam viver?
E enfim os companheiros apontaram em
vinda, e subiram a primeira ladeira, aquele tropeado de guerreiros,
em tão grande número numeroso. Quase eu queria me rir, do susto
então dos catrumanos. Mas foi não, porque eles não se aluíram do
ponto onde estavam, só que olhavam para o chão, calados, acho que
porque essa é a forma de declararem seus espantos. O do jegue,
Teofrásio, que era quem capitaneava, deu alguma intimação para o
da fôice, esse que o Dos-Anjos se chamava, era o falador; e que foi
quem veio adiante, saudar Zé Bebelo e render explicação!
― Ossenhor utúrje, mestre, a gente
vinhemos, no graminhá... Ossenhor utúrje...
Ossos e queixos; e aquela voz que o
homem guardava nos baixos peitos, era tôo que nem de se responder em
ladainha dos santos, encomendação de mortos, responsório.
― Ossenhor utúrje, mestre... Não
temos costume... Não temos costume... Que estamos resguardando essas
estradas... De não vir ninguém daquela banda! povo do Sucruiú, que
estão com a doença, que pega em todos... Ossenhor é grande chefe,
dando sua placença. Ossenhor éVossensenhoria? Peste de bexiga
preta... Mas povoado da gente é o Pubo ― que traslada do brejão,
ossenhor com os seus passaram perto de lá, valor distante
meia-légua... As mulheres ficaram, cuidando, cuidando... A gente
vinhemos, no graminhá. Faz três dias... Cercar os caminhos. O povo
do Sucruiú ― estão dizendo ―! nem não estão enterrando mais
os defuntos deles... Pode querer vir algum, com recado, trazendo a
doença, e esta é a razão... Veio um, querendo pedir auxílios,
relatar bobagens, essas mogúncias e brogúncias. Mas teve de voltar,
devéras retornou, não demos passagem. Estão com a maldição, a
urros. Castigo de Deus Jesus! Povo do Sucruiú, gente dura de rúim...
Ossenhor utúrje, mestre: convém desemendar deste lado, não passar
no Sucruiú, respraz... Bexiga da preta!...
E aquele homem o Dos-Anjos tinha
largado a fôice no chão, botou o pé em riba; e abria os braços,
depois ficou de mãos postas, acho que estava produzindo algum
feitiço, com os olhos todos fechados. Ele era magro, magro, da vista
da gente não se ter. Os outros deles, devagarosamente tinham vindo
se chegando também. Zé Bebelo, seguro que por não se rir sem
caridade, armou rosto reverso, aquele semblante serioso; e eles
desconfiaram. Porque um, que era velhusco e estava com o
chapéu-de-palha corroído nas todas beiras, apareceu com um dinheiro
na palma da mão, oferecendo a Zé Bebelo, como em paga por
perdoamento. A que era um dobrão de prata, antigo do Imperador,
desses de novecentos-e-sessenta réis em cunho, mas que na Januária
por ele dão dois mil-réis, ainda com senhoriagem de valer até os
dez, na capital. Mas Zé Bebelo, com alta cortesia, rejeitou aquele
dado dinheiro, e o catrumano velho não bem entendeu, pelo que
permaneceu um tempo, com ele ofertado na mão. Assim os outros não
entrediziam palavras, que só arregalados espiavam, para Zé Bebelo e
para a moeda, olhavam como se estivessem prestando conta de suas
fortes invejas. O jeito de estremecer, deles, às vezes, era todo,
era de banda; mas aquilo sendo da natureza constante do corpo, e não
temor ― pois, quando pegavam receio, iam ficando era mais escuros,
e respiravam com roncado rumor, quietos ali. Que aqueles homens, eu
pensei: que nem mansas feras; isto é, que no comum tinham medo
pessoal de tudo neste mundo.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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