A peste
A gripe não brilha como a espada de
aço, mas não há índio que possa esquivar-se dela. Mais mortes
fazem o tétano e o tifo que mil cães de olhos de fogo e bocas de
espuma. A varíola ataca em segredo e o canhão com grande estrépito,
entre nuvens de faíscas e fumaça de enxofre, mas a varíola
aniquila mais índios que todos os canhões.
Os ventos da peste estão arrasando
estas comarcas. Quem é golpeado, é derrubado: devoram seu corpo,
comem seus olhos, fecham sua garganta. Tudo tem cheiro de podridão.
Enquanto isso, uma voz misteriosa
percorre o Peru. Anda pisando os calcanhares da peste e atravessa as
ladainhas dos moribundos, esta voz que sussurra, de ouvido em ouvido:
“Quem atirar o crucifixo para fora de casa, voltará da morte”.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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