Quando do meu casamento, já tinha perdido o hábito de rezar o “Pela vossa pura...”, a cada uma de três ave-marias. Rezava convicta de jamais deixar de fazê-lo. Pois deixei, um diabo soprou-me sobre ‘devoções menores’, por que não ia direto a Deus? Nossa Senhora, não, Olimpinha, você tem paladar forte, saúde para altos voos, deixe de comer açúcar. Desertei da mãe de Deus e fiquei órfã duas vezes. Quando nasceram meus filhos — que esta confissão me salve —, amamentei-os com gosto, cuidei muito da comida de todos, dei vermífugo, cálcio, vacinas, básica como um português de anedota. A alegria de quando ganhei a Singer dá a medida de meu projeto doméstico. Passava o dia na máquina, eu, de quem Martina vaticinava: quando casar, seu marido vai comer livro. Detestava me ver ‘passando folha’, queria me ver passando vassoura. Pois fui e sou boa dona de casa, dava e dou notícia de gasto de óleo e sabão. Abel nunca reclamou da minha comida, pelo contrário. Busquei minha meta, meus filhos terão bons dentes, comerão o pão com o suor do rosto, como meu pai e Abel, serão cristãos fervorosos e tementes a Deus, só muito velhinhos morrerão e irão para o céu, lá, sim, lugar de demasias. Por aqui nada de excessos, como está já está bom demais. O que dizia minha mãe, cumpri como sentença. Joinhas, brinquinhos de ouro, vestidinho rendado pras meninas me deixavam confusa, quase nua, exposta, fora da trilha batida pelas longínquas avós. Descobri tarde que Naomi adorava sandalinhas baratas das meninas da Emília, aos montes, de cada cor e moda que aparecia. Para ela e Bibia, botinhas fortes. Além de bonitas de verdade, duravam o triplo. Elegia a medula, o cerne, o perene, e de tal forma o fiz, que beirou o esqueleto minha parcimônia insana. Chamava supérfluo o que eram apenas doçuras, respiração mais leve, olhar despreocupado. Rotulei de preguiça o mel de merecidos ócios. Ó Deus, garantistes o perdão aos que não sabem o que fazem, a mim, portanto, perdão oferecido em vossa cruz, donde olhais para a jovem mulher que desprezava os sovinas, oprimida por leis interpretadas no medo. Desde mocinha ajudo moribundos a fechar os olhos. Você reza tão bonito, Olímpia, dá pra passar a noite com Vó Augusta? Piedosa, íntima de responsórios, da terrível beleza dos atos de contrição. Um ônibus tombou depois da ponte velha, todo mundo curioso, até se divertindo, e eu passando em um por um dos acidentados, concitando-os ao arrependimento, passando para cada um a senha da vida eterna. E era só susto. Logo bateram a poeira e nem um sanguinho, uma canela quebrada não se viu. Bom, mas um pouco frustrante.
Adélia Prado, in Quero minha mãe
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