segunda-feira, 6 de junho de 2022

– Há-de morder – Deus permita que ele morda


 As nuvens por cima de terra erguiam-se agora como serranias, e a costa era apenas uma longa linha verde com os montes azuis-cinzentos por detrás. A água era agora de um azul-escuro, tão escuro que era quase púrpura. Ao olhar para o interior das águas via o vermelho peneirar do plâncton nas águas sombrias e a estranha luz que o sol fazia. Observava as linhas, para vê-las sumir-se da vista pela água abaixo, e sentia-se feliz por ver tanto plâncton, o que significava peixe. A estranha luz do sol nas águas, com o sol já mais alto, queria dizer bom tempo, e o mesmo dizia a forma das nuvens sobre a terra. Mas o pássaro estava quase a perder-se ao longe, e nada aparecia à superfície das águas senão alguns sargaços amarelos e queimados do sol, e a purpurínea, pomposa, iridescente, gelatinosa vela de um argonauta flutuando junto do barco. Deitou-se de lado e depois endireitou-se. E flutuava consoladamente como uma bolha, com os seus longos e mortais filamentos cor de púrpura vogando um metro atrás na água.
Agua mala – disse o homem. – P...
De onde se inclinava ligeiramente contra os remos, olhou para dentro da água e viu os pequeninos peixes, que eram coloridos como os filamentos do argonauta e nadavam entre estes e sob a pequena sombra que o balão fazia indo à deriva.
Eram imunes ao veneno. Mas os homens não o eram, e quando alguns filamentos vinham na linha e nela ficavam, frágeis e purpuríneos, enquanto o velho lidava um peixe, aparecer-lhe-iam borbulhas e inflamações nos braços e nas mãos, daquelas que as plantas venenosas podem causar. Mas estes venenos da agua mala são rápidos e ferem como uma chicotada.
As bolhas iridescentes eram belas. Mas eram a coisa mais falsa do mar, e o velho gostava de ver as grandes tartarugas marinhas comerem-nas. As tartarugas, mal as viam, aproximavam-se pela frente, fechavam os olhos para ficarem completamente carapaçadas, e comiam-nas com filamentos e tudo. O velho gostava de ver as tartarugas comerem-nas, e gostava de as pisar na praia após um temporal e de ouvi-las estalar quando as calcava com as plantas calejadas dos seus pés.
Gostava das tartarugas verdes e das bico de falcão com a sua elegância, a sua ligeireza, a sua grande coragem, e sentia um amigável desprezo pelas feias e estúpidas caretas, de armadura amarela, estranhas na cópula, e comendo consoladamente e de olhos fechados os argonautas.
Não nutria misticismo acerca das tartarugas, embora tivesse andado muitos anos na pesca delas. Faziam-lhe pena todas, mesmo as maiores, tão grandes como o esquife e pesando uma tonelada. A maior parte das pessoas é impiedosa para com as tartarugas, porque o coração delas bate horas e horas, depois de arrancado e esquartejado. “Mas, pensava o velho, também o meu coração é assim, e como os delas são os meus pés e as minhas mãos”. E comia os brancos ovos para que lhe dessem força. Comia-os em Maio para, em Setembro e Outubro, ter força para o peixe graúdo.
Bebia também um copo de óleo de fígado de tubarão, todos os dias, no armazém onde muitos dos pescadores guardavam a palamenta. Havia-o lá para aqueles que o quisessem. A maior parte deles detestava-lhe o sabor. Mas não era pior do que levantar-se um homem à hora a que eles se levantavam, e fazia muito bem aos resfriamentos e gripes, e era bom para os olhos.
O velho ergueu o olhar, e viu que o pássaro continuava a adejar.


Deu com peixe – disse em voz alta. Nenhum peixe-voador rasgava a superfície, e não havia redemoinhos de peixe miúdo. Mas, enquanto observava, um atum saltou no ar, volteou e caiu de cabeça na água. Brilhou como prata ao sol, e logo após ter voltado às águas, outro e outro saltaram, e por todos os lados pulavam, fazendo ferver a água e espinoteando em longos saltos atrás do peixe de isca. Cercavam-no e levavam-no.
Se não vão muito depressa, apanho-me no meio deles”, pensou o velho, e observava o cardume branqueando de espuma as águas e o pássaro já mergulhando em pleno peixe miúdo que o pânico forçava a vir à superfície.
O pássaro é uma bela ajuda – disse o velho. Nesse momento, a linha da popa retesou-se-lhe debaixo do pé, sob o qual segurava uma volta dela, e largou os remos e sentiu o peso do tremente esforço de um pequeno atum, ao segurar firmemente a linha e começar a puxá-la. O tremor aumentava à medida que ia puxando, e distinguia bem os lombos azuis do peixe na água e o dourado dos flancos, antes de o atirar por sobre a borda para dentro do barco. O animal ficou à popa, ao sol, maciço e em forma de bala, com os olhos grandes e sem inteligência muito arregalados, enquanto ia gastando a vida contra o tabuado do barco, em rápidas e trêmulas pancadas da cauda ágil e elegante. O velho, por bondade, deu-lhe uma pancada na cabeça, e com um pontapé atirou-lhe com o corpo ainda palpitante para a sombra da popa.
Albacora... – disse alto. – Dá uma bela isca. Pesa para aí uns cinco quilos.
Não se recordava já de quando começara a falar em voz alta, se andava só. Nos bons tempos, andando sozinho, cantava, e cantara às vezes de noite, quando ficava só, de quarto ao leme, nos veleiros ou na pesca da tartaruga. Provavelmente, principiara a falar sozinho em voz alta, quando o rapaz deixara de o acompanhar.
Mas não se lembrava. Quando ele e o rapaz pescavam juntos, em geral falavam só quando era necessário. Falavam de noite, ou quando iam levados pelo temporal, se havia mau tempo. Era considerado uma virtude não falar inutilmente no mar, e o velho sempre assim considerara e respeitava o uso. Mas agora pensava em voz alta muitas vezes, desde que não vinha com ele quem quer que pudesse aborrecer-se.
Se os outros me ouvissem falar alto, haviam de julgar que eu estava doido – disse. – Mas, como não estou doido, não me ralo. E os ricos têm nos barcos rádios que lhes falam e lhes dão as notícias do “baseball”.
Não é altura de pensar no baseball. É tempo de pensar numa só coisa. Aquela para que nasci. Podia andar um dos grandes à volta deste cardume. O que eu apanhei dos que estão a comer foi um tresmalhado. Mas vão entretidos e depressa.
Tudo o que hoje me aparece à superfície vai depressa e para nordeste. Será da hora? Ou algum sinal do tempo que eu não conheça?”
Já não via a verdura da costa e apenas os topes das montanhas azuis que pareciam brancas como se tivessem neve, e as nuvens sobre elas, como altas montanhas nevadas. O mar estava muito escuro, e a luz irisava-se nas águas. O sol alto anulava as miríades de pontos do plâncton, e só aos grandes prismas profundos na água azul agora ele via com as linhas descendo na água que tinha uma milha de profundidade.
Os atuns, como os pescadores chamavam a todos os peixes da espécie “tuna”, que só distinguiam pelos nomes próprios quando vinham vendê-los ou trocá-los por iscas, os atuns haviam-se sumido. O sol estava quente, e o velho sentia-o no cachaço, como sentia o suor correr-lhe pelas costas abaixo, ao remar.
Podia ir à deriva, pensou, e dormir e dar uma volta de linha num dedo de um pé, que me acordava. Mas hoje faz oitenta e cinco dias, e devo pescar como deve ser.”
Nesse preciso instante, observando as linhas, viu uma das canas verdes dobrar-se subitamente.
Sim – disse. – Sim – e embarcou os remos sem tocar no barco. Estendeu a mão para a linha, e segurou-a delicadamente entre o polegar e o indicador da mão direita. Não sentiu tensão nem peso, e segurava muito ao de leve a linha.
Novamente veio. Desta vez, um puxão a tentear, nem firme, nem pesado, e o velho sabia exatamente o que era. A cem braças, um peixe graúdo estava a comer as sardinhas que cobriam a ponta e o corpo do anzol onde o anzol feito à mão se projetava da cabeça da pequena “tuna”.
O velho segurava delicadamente a linha, e cuidadosamente, com a mão esquerda, soltou-a da cana. Podia assim deixá-la correr entre os dedos, sem que o peixe sentisse qualquer oposição.
Este das profundas, é mês de estar no bom tamanho, pensou. Come-as, peixe. Come-as. Faze favor de as comer. Como estão frescas, e tu a seiscentos pés, nas trevas, nessa água fria. Dá outra volta no escuro e volta a comer nelas”.
Sentiu o ligeiro e delicado puxão, e depois um puxão mais forte, quando a cabeça da sardinha teria custado mais a arrancar do anzol. Depois, mais nada.


Anda – disse alto o velho. – Dá uma volta. Cheira-as. Pois não são boas? Come nelas, que ainda há a tuna. Tesa e fresca e saborosa. Não te acanhes, peixe. Come.
Esperou com a linha entre o polegar e o dedo, observando-a e às outras linhas, porque o peixe podia ascender ou afundar-se mais nas águas. Houve então o mesmo delicado toque.
Há-de morder – disse o velho, em voz alta. – Deus permita que ele morda.
Não mordera, todavia. Fora-se embora, e o velho nada sentia.
Não pode ter ido. Deus sabe que não pode. Está a dar uma volta. Talvez já tenha engolido um anzol, e ainda se lembre um pouco.
Sentiu de novo o suave puxão, e ficou feliz.
Tinha dado a sua volta. Há-de cair.
Sentir o puxão ligeiro era uma felicidade, e de repente sentiu algo incrivelmente pesado. Era o peso do peixe, e deu linha, linha, linha, recorrendo às duas pilhas de reserva.
Enquanto ela descia, deslizando levemente entre os dedos do velho, ainda sentia o grande peso, embora a pressão do polegar e do dedo fosse quase imperceptível.
Que peixe! Tem-na de esguelha na boca e vai-se com ela.
Há-de dar uma volta e engoli-la. Não dizia isto, por saber que, se se diz uma coisa boa, pode ela não acontecer. É que ele sabia que grande peixe aquele era, e imaginava-o afastando-se na treva, com a “tuna” atravessada na boca.
Nesse momento sentiu que ele parava, mas o peso mantinha-se. O peso aumentou; e largou mais linha. Apertou por instantes o polegar e o dedo, e o peso aumentava e ia para baixo.
Caiu. Deixá-lo comer à vontade.
Permitiu que a linha deslizasse entre os dedos, enquanto com a mão esquerda prendia a ponta das duas pilhas de reserva às reservas da outra linha. Estava preparado. Tinha agora três tambores de quarenta braças, além do que ia desenrolando-se.
Come mais um bocadinho. Come à vontade.
Come, de maneira que o bico do anzol se te espete no coração e te mate, pensou. Vem para cima sossegado, que eu meto-te o arpão. Muito bem. Já acabaste? Estiveste à mesa o tempo que quiseste?”

Ernest Hemingway, in O Velho e o Mar

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