09/05/2019

Lugarzinho

Eu conheço UM lugarzinho...
Quantas vezes você já não ouviu esta frase? Dita por pessoas que conhecem todos os lugares óbvios que você também conhece mas conhecem um que você não pode conhecer, porque ninguém conhece, só elas? O curioso é que é sempre um lugarzinho, nunca é um lugar grande ou apenas um lugar. Há pessoas que ostentam lugarzinhos como outras ostentam riqueza. Especializam-se em lugarzinho, têm a volúpia do lugarzinho, só para poderem nos impressionar depois.
Nem sempre a frase é dita com a intenção de humilhar quem talvez tenha passado pelo lugarzinho — o barzinho, o restaurantezinho, o hotelzinho, a cidadezinha, às vezes até o paizinho — sem se dar conta.
— Vai dizer que você esteve em Luxemburgo e não visitou Luxemburguette, o único país do mundo que é só uma esquina?!
Pode haver o sincero desejo de compartilhar uma descoberta. Devo muitos prazeres a indicações de amigos de lugarzinhos que não estão nos guias e nos caminhos normalmente percorridos, como o restaurante L’Hangar, em Paris, impossível de ser localizado por acaso, já que fica num “impasse”, uma rua que não leva a lugar nenhum. O Hangar, segundo o informante, pertence ao filho da escritora Marguerite Duras, que (uma característica de quem conhece lugarzinhos é conhecer também as fofocas exclusivas dos lugarzinhos) não se dá com a mãe. Fica no “impasse” Berthaud, que sai da avenida Beaubourg, bem perto do Centre Pompidou, também chamado de o mausoléu do Robocop. Não importa o que você pedir como prato principal no Hangar, não deixe de pedir, como sobremesa, o demi-cuit, uma espécie de pudim de chocolate cujo segredo do sucesso é vir para a mesa segundos antes de ficar pronto. Coisas de lugarzinhos.
O melhor de conhecer lugarzinhos, no entanto, é poder dar inveja a quem não os conhece. Eu mesmo já descobri a minha cota de lugarzinhos e os ostento sem misericórdia. Vai dizer que você já andou pela região do Périgord, na França, e não foi a Collonge-la-rouge, uma cidadezinha medieval toda da mesma cor vermelha? Pobre de você. Quando for, coma omelettes com trufas negras no Relais Saint-Jacques de Compostelle, que tem este nome porque Collonge ficava na rota de peregrinação para Santiago de Compostella, no norte da Espanha. Se quiser, use o meu nome quando pedir as omelettes. Elas virão perfeitas. É verdade que se não usar o meu nome elas também estarão perfeitas, pois ninguém saberá de quem você está falando, mas que diabo.
Há casos em que o lugarzinho não é nada do que disseram. Casos em que houve mais ficção e desejo de arrasar você do que verdade na descrição do lugarzinho. Falaram do ambiente aconchegante e do garçom engraçado mas esqueceram de dizer que o bife tanto pode ser comido como usado para calçar a mesa. Ou então a sua experiência simplesmente não reproduz a experiência de quem indicou o lugarzinho, e naquele hotelzinho rústico tão elogiado e recomendado lhe botam num quarto já ocupado, por um rato, e depois ainda cobram a ocupação dupla. E existe o fato inescapável de que o mesmo lugar pode ser, para alguns, um autêntico lugarzinho, com todas as conotações de revelação e boas surpresas do termo, e para outros um lugarzinho no sentido de porcaria.
Uma versão: “Chegamos a esta cidadezinha maravilhosa que não está nem no mapa e em que nenhuma casa tinha menos de 400 anos e a Margarida perguntou para um amor de velhinho ‘dove é il vecê’ e ele não entendia, e chamou toda a família dele e ninguém entendia, depois juntou toda a cidade e ninguém entendia, até que veio o prefeito, que sabia inglês, e a Margarida perguntou ‘where is the vee cee?’ e o prefeito perguntou ‘What?’ e então a Margarida começou a fazer barulho de xixi, ‘ssshhh, ssshhh’ e o prefeito perguntou ‘What?’ de novo, só que baixinho, e aí nós caímos na risada, e a Margarida riu tanto que só continuou perguntando onde era o banheiro por farra, porque não precisava mais, foi tão simpático!”
Outra versão: “Chegamos a este lugar caindo aos pedaços, não sei por que eles gostam tanto de velharia, e imagina que ninguém sabia o que era WC, a Margarida apertada tendo que perguntar para um monte de ignorantes que não falavam língua nenhuma onde era, até que apareceu o manda-chuva, eles devem eleger o mais ignorante como prefeito, que só complicou mais as coisas e no fim não adiantava mais, coitada da Margarida. Mas o que se pode esperar de uma cidade que não está nem no mapa?”
Mortal, no entanto, é quando o lugarzinho é usado como arma numa competição de vaidades turísticas.
— Nós fomos jantar no Tour D’Argent e...
— Não me diga que vocês foram ao Tour D’Argent e não foram ao Petit Tour.
— O quê?
— O Petit Tour. Um lugarzinho que nós descobrimos. Fica do lado!
— Nunca ouvi falar.
— Eles não querem muita propaganda. Cabeça a minha. Devia ter avisado vocês...
— É bom?
— Está brincando? É onde os cozinheiros do Tour D’Argent vão comer, depois de enganarem os turistas.
Claro que o Petit Tour não existe. Pelo menos, não que eu saiba. Mas para quem usa o lugarzinho como arma, o efeito é mais importante do que a verdade.
A coisa às vezes chega ao exagero.
— O Louvre é espetacular, não é?
— É. Mas ao lado do Louvre tem UM museuzinho...
O que pode deixar o outro com a incômoda suspeita de que viu a Mona Lisa errada.
O lugarzinho tem que ser, antes de mais nada, desconhecido, ou só conhecido por uma minoria privilegiada, ou — para ser um lugarzinho ainda mais lugarzinho — só conhecido por uma minoria do lugar. Seu charme não pode ser intencional. Isto é, o lugarzinho não pode saber que tem charme, senão não é mais lugarzinho. E como os meteoritos, que só são detectados no céu quando se desintegram, os lugarzinhos só são descobertos pouco antes de deixarem de ser, pois a própria descoberta determina a perda das credenciais de lugarzinho. Se alguém o recomendou a você, e você, claro, não vai perder a oportunidade de também poder dizer “Eu conheço UM lugarzinho...” a outros, não demorará muito antes que o lugarzinho passe a ser frequentado só por pessoas atrás de lugarzinhos. Perderá toda a espontaneidade. Os preços aumentarão e é possível que o próprio lugar também aumente, perdendo o direito ao diminutivo. Se o encanto do lugarzinho era o menu escrito a giz num quadro-negro, e errado, na sua visita seguinte você descobrirá que eles estão errando a grafia dos pratos de propósito e em pouco tempo estarão vendendo pôsteres com “o nosso famoso menu mal escrito”. E é fácil prever o que acontecerá depois. Você dirá para alguém, convencido de que está abafando:
— Eu conheço UM lugarzinho...
E ouvirá:
— Não, não. Esse eu conheço. Não dá mais para ir lá. Agora, do lado dele tem UM lugarzinho…
Luís Fernando Veríssimo, in A mesa voadora

08/05/2019

Calvin e Haroldo


O palhaço e o erudito

Os palhaços são punidos pelo riso que provocam. A punição de Nietzsche foi o seu exílio da comunidade acadêmica. Roupas e jeitos de palhaço não combinam com os jeitos e as vestes acadêmicas dos eruditos. Um professor da universidade de Berlim, movido por bons sentimentos, escreveu-lhe dizendo que ele deveria tentar um estilo diferente, porque ninguém leria coisas como as que ele escrevia. Seus companheiros eram as crianças. Ele escreveu:
“Enquanto eu dormia um carneiro comeu as minhas vestes acadêmicas – comeu e disse: ‘Zaratustra não é mais um erudito’. Disse e solenemente se afastou com orgulho. Uma criança me contou. ‘Mudei-me da casa dos eruditos e bati a porta ao sair. Por muito tempo a minha alma assentou-se faminta à sua mesa. Não sou como eles, treinados a buscar o conhecimento como especialistas em rachar fios de cabelo ao meio. Amo a liberdade. Amo o ar sobre a terra fresca. É melhor dormir em meio às vacas que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades.’ Gosto de me deitar onde as crianças brincam, ao lado da parede caída, entre cardos e popoulas vermelhas. Para as crianças eu ainda sou um erudito, e também para os cardos e papoulas. Eles são inocentes até mesmo em sua malícia. Mas para o carneiro eu não mais sou um erudito; assim o meu destino o decreta – bendito seja! ”
“Sou muito quente, queimado pelos meus próprios pensamentos; frequentemente eles quase me deixam sem fôlego. Tenho, então, de ir para fora, longe de todos os quartos empoeirados. Mas eles se assentam frios na sombra fria: em tudo eles desejam ser meros espectadores e cuidam de não se assentar onde o sol queima o lugar por onde se anda. Como aqueles que ficam nas ruas e observam as pessoas que passam, eles também esperam e observam os pensamentos que outros pensaram. Se a gente os agarra com as mãos deles sai uma nuvem de poeira como a que sai dos sacos de farinha, involuntariamente; mas quem adivinharia que a poeira deles vem do grão e do deleite amarelo dos campos de verão? Quando eles posam como sábios, seus pequenos epigramas e verdades me congelam: a sua sabedoria frequentemente tem um cheiro como se ela viesse dos pântanos; na verdade, eu até ouvi rãs coaxando de dentro dela. Eles são habilidosos e têm dedos espertos; por que razão haveria minha simplicidade de desejar estar perto da sua multiplicidade? Os seus dedos entendem tudo o que seja tecer, tricotar e dar nós: é assim que eles tricotam as meias do espírito.”
Num lugar do Ecce Homo, Nietzsche escreveu uma frase latina como se fosse seu programa filosófico existencial: “Ridendo dicere severum”, rindo, dizer as coisas sérias…
Rubem Alves, in Do universo à jabuticaba

O calhambeque quebrou de novo

Quando a carne de porco e as batatas estavam prontas, as famílias sentaram-se ao redor da comida, no chão, e começaram a comer. Estavam silenciosos e olhavam para o fogo. Wilson, que acabava de arrancar uma fatia de carne com os dentes, suspirou de satisfação.
— É bom a gente comer carne de porco — disse.
— A gente tinha dois porcos — esclareceu o pai —, e achamos que era melhor a gente comer eles duma vez. Vender não adiantava; dava muito pouco dinheiro. Depois que a gente se acostumar com a viagem e a mãe puder fazer pão, bem, então vai ser bom mesmo; vamo poder admirar a paisagem sabendo que tem duas barricas de carne na bagagem. Faz quanto tempo que o senhor e sua mulher estão viajando?
Wilson limpou os dentes com a língua e palitou os resíduos.
— Nós não tivemos sorte — falou. — Já faz três semanas que estamos fora de casa.
— Meu Deus, e nós queremos estar na Califórnia dentro de dez dias!
Al interrompeu-o:
— Não sei, pai. Com esse carregamento pesado não vai ser fácil assim, talvez a gente nunca possa chegar até lá. Principalmente se tiver montanhas pela frente.
Silenciaram todos em volta da fogueira. Tinham a cabeça pendida para a frente e seus cabelos e suas testas brilhavam à luz vermelha. Em cima daquela pequena cúpula, cintilavam fracamente as estrelas do céu do verão. Sobre o colchão, afastada do fogo, a avó choramingava qual um cachorrinho. Todos os olhares convergiram para ela.
A mãe disse:
— Rosasharn, seja boazinha e vai se deitar com a avó. Ela precisa de alguém. Agora ela já sabe.
Rosa de Sharon levantou-se e foi para junto da avó. Deitou-se ao lado dela, no colchão, e o murmúrio abafado de ambas chegou até o grupo que rodeava a fogueira. Rosa de Sharon e a avó cochichavam.
Noah disse:
— É engraçado, o avô morreu e eu sinto a mesma coisa que antes. Não tou triste, nem nada.
— É a mesma coisa — disse Casy. — O avô e as terras de vocês eram a mesma coisa.
Al disse:
— É uma pena! Ele sempre dizia o que ia fazer quando pudesse ter tanta uva que desse pra amassar os cacho e escorrer o suco pela cara, e coisas assim.
Casy disse:
— Dizia isso de gozação, mas sem a intenção de fazer. O avô não morreu esta noite; já estava morto quando nós tiramos ele de casa.
— O senhor tem certeza disto? — perguntou o pai.
— Bem, não é bem isso. Ele naturalmente respirava — esclareceu Casy. — O que quero dizer é que ele já estava praticamente morto. Ele e as terras formavam um só e ele sabia disso.
— E o senhor sabia que ele ia morrer? — perguntou tio John.
— Sim — disse Casy —, eu sabia.
John encarou-o fixamente e o horror se lhe estampou nas faces.
— E o senhor não disse nada a ninguém?
— Para quê? — fez Casy.
— A gente... podia fazer alguma coisa.
— Fazer o quê?
— Não sei, mas...
— Não — disse Casy —, não se poderia fazer nada. O caminho de vocês já estava traçado, e o avô não poderia participar dele. Mas ele não sofreu nada. Só hoje de manhã, quando começou a movimentação toda. Ele ficou aqui, na terra que era a terra dele. Não teve forças para deixá-la.
Tio John suspirou profundamente.
Wilson disse:
— Nós tivemos que abandonar meu irmão Will. — As cabeças de todos voltaram-se para ele. — A gente tinha dezesseis hectares. Ele é mais velho que eu. Nenhum de nós sabia dirigir bem. Bom, nós resolvemos ir embora e vender tudo que possuíamos. Will comprou um carro e o vendedor o apresentou a um rapaz que ia ensinar ele a dirigir. Então, na tarde em que nós íamos partir, algum tempo antes da nossa saída, Will e tia Minnie ficaram praticando um pouco de direção. Will chegou numa curva e gritou: “Anda, moreno!”, como se fosse para um cavalo, recuou contra uma cerca e gritou de novo: “Aiô!” Pisou fundo no acelerador e despencou no fundo de um barranco. E aí, acabou-se. Ele não tinha mais nada para vender e ficou sem carro. Mas isso foi culpa dele mesmo. Ficou tão danado que nem quis vir conosco. Ficou lá xingando Deus e o mundo.
— E que é que ele vai fazer agora?
— Nem sei. Ele ficou tão aborrecido que nem pôde pensar no que ia fazer. E nós não pudemos esperar. Só tinhamos oitenta e cinco dólares. Não podíamos ficar e dividir o dinheiro; aliás já se foi o dinheiro quase todo na viagem. Só tínhamos viajado cento e cinquenta quilômetros quando quebrou uma coisa no diferencial e tivemos que pagar trinta dólares pelo conserto. Depois precisamos comprar um pneu e logo depois estourou uma vela de ignição, e a Sairy ficou doente. Tudo isto nos reteve por mais de dez dias. E agora esse calhambeque aí quebrou de novo e o dinheiro está nas últimas. Nem sei se chegaremos algum dia à Califórnia. Se ao menos eu entendesse de automóveis e pudesse consertar o carro!
Al perguntou com ar de importância:
— Que é que o carro tem, afinal?
— Bem, resolveu não andar mais. O motor pega e para logo em seguida. Depois pega outra vez e torna a parar depois de rodar um pedacinho à toa.
— Então ele pega só um minuto, mais ou menos?
— Sim, senhor. E não quer andar mais, posso botar quanta gasolina quiser no tanque. Está cada vez pior, e agora não anda nem pra trás nem pra frente.
Al se tornou compenetrado e senhor de si:
— Deve ser entupimento dos tubos de condução de gasolina. Vou ver se faço uma limpeza neles.
E também o pai estava muito orgulhoso dos conhecimentos de Al.
— Ele entende um bocado de automóveis — disse, satisfeito.
— Pois eu lhe ficaria muito agradecido — disse Wilson. — A gente tem a impressão de que é uma verdadeira criança por não saber lidar com este troço. Quando chegar à Califórnia, vou tratar logo de comprar um bom carro. Talvez esse não estrague tão depressa.
— Sim, se a gente conseguir chegar na Califórnia. Chegar até lá é que é a dificuldade — disse o pai.
John Steinbeck, in As vinhas da Ira

Quanto Tempo Demora Um Mês - Biquini Cavadão e Matheus & Kauan

Interlúdio

A noite se estende ao rés-do-chão como um lençol, que os cachorros puxam, do horizonte. Puxam, esticam, sem rasgar.
Porque a lua vai saltar.
E ficará pulando, ao centro, para cima, para baixo, para cima, para baixo, como Sancho Pança no capítulo XLV do Dom Quixote.
Mário Quintana, in Sapato florido

Agora é que são elas (trecho do capítulo 3)

1

Aqui, ainda dá pra ver o cigarro por acender em minha mão esquerda. Sou aquele mais magrinho ali no fundo da poltrona verde-musgo, com cara de hipopótamo abatido. Ao meu lado, o telefone nas mãos do mordomo (naquele tempo, a gente chamava garçons de mordomos: moravam em casa, nunca faziam cara feia e descendiam sempre de uma tradicional família de mordomos).
Da esquerda para a direita, inúmeros nomes ilustres.
Sentado no meio, o fotógrafo dirige a cena, sem se dar conta que a máquina estava fotografando sozinha.
Atrás, na parede, o relógio marca meia-noite e quinze.
Na foto, não saíram: o notável clitóris da Condessa Vronsky, as marcas de varíola do Coronel Hermógenes, boa parte das terras do Conglomerado União, representado no evento por seu vice-presidente, e o sorriso da cabeça de javali sobre a lareira está um pouco forçado, não passando, como se percebe, de uma reles contrafação do sorriso usado por Gary Cooper naquele filme de Howard Hawks, como é mesmo o nome, meu Deus, como a memória é solúvel em álcool!
E Norma? Cadê Norma? Sua ausência grita nesta foto como o mais agudo ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh que olhos humanos já ouviram.
A foto também não registra o cheiro de queimado que senti, desde o começo, mas, bem... Tem uma coisa sobre a qual eu não quero falar.

2

TUDO TINHA MUDADO. E uma angústia deste tamanho começou a tomar conta.
Um desassossego, que botou no chão, diante de mim, o ovo de uma pergunta: que é que esta festa está comemorando?
Quando me disseram para vir, só disseram, uma festa. E eu vim sem saber o que se celebra.
A ideia de uma festa sem objeto, uma festa que não comemora nada, me pareceu tão absurda quanto, sei lá, quanto a súbita visão de uma coisa em si. Ora, conforme o professor Propp, meu analista, as coisas em si só existem na imaginação. Ora, ora, não era o caso desta festa, coisa que todo mundo vai poder comprovar a seguir.
Casamento, não era. Faltava no ar aquele clima venéreo, venusiano, dos casamentos, onde todo mundo ficava olhando para os noivos, viajando nas sacanagens que eles logo vão estar praticando, todo mundo vê nas bochechas vermelhas da noiva o fogo da expectativa de dali a pouco estar levando um apaixonado caralho na buceta, no nervosismo do noivo, aquela pergunta clássica: por que é que esse bando de chatos não dá o fora logo pra eu poder comer esta mulher em paz? Não, não havia esse clima. Olhei para o alto, e girei o olhar. Não havia cupidos voando em volta da mesa.
Busquei outros sinais, sinais de qualquer um desses acontecimentos que vão da vida até a morte, batizados, bar mitzvah, noivados, bodas de prata, colação de grau, exéquias, velórios, guardamentos.
Nenhum sinal. Perguntei ao vestido das mulheres, a seus penteados renascentistas, e nada.
Não é do meu feitio suportar muito tempo coisas que eu não entendo. Esses lustres, esses candelabros, essa luz toda não me merecem. Minha integridade exigia uma medida enérgica, minha honra tinha que ser lavada em distância.
Levantei da poltrona verde-musgo e dourado.
Deixei para trás o gratuito cacarejar das damas presentes, e me encaminhei para a porta.
Saí da casa, e entrei no vento, caminhando em direção ao carro.
Tive que manobrar muito para me desvencilhar de todas aquelas máquinas caríssimas como seus donos e donas.
Lancei um olhar, não sei se de desprezo ou de despeito, para aquele imenso casarão iluminado no meio do mato, onde rolava uma festa que não me queria.
Peguei a estrada, e tomei a direção da cidade.
Quando consegui estabilizar minhas emoções e atingi aquele estado meio neutro, meio mecânico, que os carros exigem dos seus motoristas, algo entre o sono e a extrema vigília, nesse momento, a tempestade caiu. E veio com tudo.
Tive que parar à margem da estrada, esperando passar. Passar a chuva. Passar o tempo. Passar a maldita vontade de voltar.
Apanhei um cigarro. Mas cadê o isqueiro? Tinha certeza de ter deixado aqui a caixa de fósforos de papel daquele hotel.
Nada. Eu estava sem fogo. E tive que me resignar.
Foi principalmente esta falta de fogo que me fez lembrar Norma.
E só então me dei conta que não conseguia lembrar das feições do seu rosto, nem da cor dos cabelos. Nem saberia dizer se era jovem ou madura.
Dos outros convivas eu lembrava com nitidez, a memória, dizia o professor Propp, é a minha grande virtude, e, por isso, a fonte de todos os meus males.
Propp sempre me diz:
— Esquece, esquece mais. Esquecer faz bem.
Eu prometo me lembrar disso. E ele diz:
— Está vendo? Já está lembrando de novo.
Contra o bloco nítido daqueles convivas todos, dos quais eu lembrava cada detalhe, a figura de Norma se destacava como uma massa de amnésia. Devia estar muito distraído quando fiquei vidrado nela.
Não sabia quem era, mulher de quem, comida de quem, quem pagava seus luxos, a que casas, a que fortunas estava ligado seu destino.
Que será que fazia? Exercia a caridade? Atacava os viandantes à noite? Desenhava modas? Tocava a 7 a Sonata de Chopin no piano? Cavalgava aos domingos? Assistia filmes proibidos em seções privadas? Batia no marido? Açoitava os criados? Colecionava amantes? Frequentava igrejas, capelas, terreiros?
Todas essas perguntas empalideciam diante de uma: volto ou não volto? Dei meia-volta, e voltei para casa.
Paulo Leminski, in Agora é que são elas

07/05/2019

Meio-termo

Ah como tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor.

Como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto.

Como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto.

E o sentimento mais breve
rola no ar e descreve
a eterna cicatriz
mais uma vez
mais de uma vez
quase que eu fui feliz.

A barra do amor
é que ele é meio ermo
a barra da morte
é que ela não tem meio termo.
Cacaso

As Três Graças

As Três Graças (1638), de Peter Paul Rubens

Um doutor em estética do corpo, ao visitar o Museu do Prado, em Madri, achou que as Três Graças, na tela de Rubens, sofriam de celulite, mais acentuada na Graça do centro.
Procurou o diretor do museu e sugeriu-lhe que o quadro fosse submetido a tratamento especial, de modo a ajustar os nus femininos aos cânones de beleza e higidez que hoje cultuamos.
O diretor ouviu-o polidamente e respondeu que nada havia a fazer, pois as obras-primas do passado são intocáveis, salvo quando acidente ou atentado tornam imperativa a restauração. Além do mais, pode ser que no século XVII o que hoje chamamos de celulite fosse uma graça suplementar.
À noite, o esteta inconformado tentou penetrar no museu, foi impedido e preso. Interrogado, explicou que queria raptar o quadro e confiá-lo a famoso especialista em cirurgia plástica, pois o caso não era de restauração nem de regime alimentar. Seria a primeira vez em que uma obra de arte receberia tratamento médico especializado, feito o qual tornaria ao museu.
O homem foi mandado embora, com a advertência de que sua presença não seria mais tolerada em museus espanhóis. E aconselhado a frequentar assiduamente as praias, para se habituar às imperfeições do corpo humano, que formam a perfeição relativa.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

Um enterro e outros carnavais

Recordei outros carnavais quando fui ao enterro de d. Faride, mãe do meu amigo Osman Nasser. Quando eu tinha uns catorze ou quinze anos de idade, Osman beirava os trinta e era uma figura lendária na pacata Manaus dos anos 1960.
Pacata? Nem tanto. A cidade não era esse polvo cujos tentáculos rasgam a floresta e atravessam o rio Negro, mas sempre foi um porto cosmopolita, lugar de esplendor e decadência cíclicos, por onde passam aventureiros de todas as latitudes do Brasil e do mundo.
No fim daquela tarde triste — sol ralo filtrado por nuvens densas e escuras —, me lembrei dos bailes carnavalescos nos clubes e dos blocos de rua. Antes do primeiro grito de Carnaval, a folia começava na tarde em que centenas de pessoas iam recepcionar a Camélia no aeroporto de Ponta Pelada, onde a multidão cantava a marchinha Ô jardineira, por que estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu? e depois a caravana acompanhava a Camélia gigantesca até o Olympico Clube. Não sei se era permitido usar lança-perfume, mas a bisnaga de vidro transparente refrescava as noites carnavalescas, o éter se misturava ao suor dos corpos e ao sereno da madrugada.
Não éramos espectadores de desfiles de escolas de samba carioca; aliás, nem havia TV em Manaus: o Carnaval significava quatro dias maldormidos com suas noites em claro, entre as praças e os clubes. A Segunda-Feira Gorda, no Atlético Rio Negro Clube, era o auge da folia que terminava no Mercado Municipal Adolpho Lisboa, onde víamos ou acreditávamos ver peixes graúdos fantasiados e peixeiros mascarados. Havia também sereias roucas de tanto cantar, odaliscas quase nuas e descabeladas, princesas destronadas, foliões com roupa esfarrapada, mendigos que ganhavam um prato de mingau de banana ou jaraqui frito. Os foliões mais bêbados mergulhavam no rio Negro para mitigar a ressaca, outros discutiam com urubus na praia ou procuravam a namorada extraviada em algum momento do baile, quando ninguém era de ninguém e o Carnaval, um mistério alucinante.
Quantos homens choravam na praia, homens solitários e tristes, com o rosto manchado de confetes e o coração seco.
“Grande é o Senhor Deus”, cantam parentes e amigos no enterro, enquanto eu me lembro da noite natalina em que d. Faride distribuía presentes para convidados e penetras que iam festejar o Natal na casa dos Nasser.
Ali está a árvore coberta de pacotes coloridos; na sala, a mesa cresce com a chegada de acepipes, as luzes do pátio iluminam a fonte de pedra, cercada de crianças. O velho Nasser, sentado na cadeira de balanço, fuma um charuto com a pose de um perfeito patriarca. Ouço a voz de Oum Kalsoum no disco de 78 RPM, ouço uma gritaria alegre, vejo as nove irmãs de Osman dançar para o pai; depois elas lhe oferecem tâmaras e pistaches que tinham viajado do outro lado da Terra para aquele pequeno e difuso Oriente no centro de Manaus.
Agora as mulheres cantam loas ao Senhor, rezam o Pai-Nosso e eu desvio o olhar das mangueiras quietas que sombreiam o chão, mangueiras centenárias, as poucas que restaram na cidade. Parece que só os mortos têm direito à sombra, os vivos de Manaus penam sob o sol. Olho para o alto do mausoléu e vejo a estrela e lua crescente de metal, símbolos do islã: religião do velho Nasser. É um dos mausoléus muçulmanos no cemitério São João Batista, mas a mãe que desce ao fundo da terra era católica.
Reconheço rostos de amigos, foliões de outros tempos, e ali, entre dois túmulos, ajoelhado e de cabeça baixa, vejo o vendedor de frutas que, na minha juventude, carregava um pomar na cabeça.
A cantoria cessa na quietude do crepúsculo, e a vida, quando se olha para trás e para longe, parece um sonho. Abraço meu amigo órfão, que me cochicha um ditado árabe:
Uma mãe vale um mundo.
Daqui a pouco será Carnaval…
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

Mafalda


Um trato

Olhe! conto ao senhor. Se diz que, no bando de Antônio Dó, tinha um grado jagunço, bem remediado de posses ― Davidão era o nome dele. Vai, um dia, coisas dessas que às vezes acontecem, esse Davidão pegou a ter medo de morrer. Safado, pensou, propôs este trato a um outro, pobre dos mais pobres, chamado Faustino! o Davidão dava a ele dez contos de réis, mas, em lei de caborje ― invisível no sobrenatural ― chegasse primeiro o destino do Davidão morrer em combate, então era o Faustino quem morria, em vez dele. E o Faustino aceitou, recebeu, fechou. Parece que, com efeito, no poder de feitiço do contrato ele muito não acreditava. Então, pelo seguinte, deram um grande fogo, contra os soldados do Major Alcides do Amaral, sitiado forte em São Francisco. Combate quando findou, todos os dois estavam vivos, o Davidão e o Faustino. A de ver? Para nenhum deles não tinha chegado a hora-e-dia. escapos, alteração nenhuma não havendo; nem feridos eles não saíam... Que tal, o que o senhor acha? Pois, mire e veja! isto mesmo narrei a um rapaz de cidade grande, muito inteligente, vindo com outros num caminhão, para pescarem no Rio. Sabe o que o moço me disse? Que era assunto de valor, para se compor uma estória em livro. Mas que precisava de um final sustante, caprichado. O final que ele daí imaginou, foi um: que, um dia, o Faustino pegava também a ter medo, queria revogar o ajuste! Devolvia o dinheiro. Mas o Davidão não aceitava, não queria, por forma nenhuma. Do discutir, ferveram nisso, ferravam numa luta corporal. A fino, o Faustino se provia na faca, investia, os dois rolavam no chão, embolados. Mas, no confuso, por sua própria mão dele, a faca cravava no coração do Faustino, que falecia...
Apreciei demais essa continuação inventada. A quanta coisa limpa verdadeira uma pessoa de alta instrução não concebe! Aí podem encher este mundo de outros movimentos, sem os erros e volteios da vida em sua lerdeza de sarrafaçar. A vida disfarça? Por exemplo. Disse isso ao rapaz pescador, a quem sincero louvei. E ele me indagou qual tinha sido o fim, na verdade de realidade, de Davidão e Faustino. O fim? Quem sei. Soube somente só que o Davidão resolveu deixar a jagunçagem ― deu baixa do bando, e, com certas promessas, de ceder uns alqueires de terra, e outras vantagens de mais pagar, conseguiu do Faustino dar baixa também, e viesse morar perto dele, sempre. Mais deles, ignoro. No real da vida, as coisas acabam com menos formato, nem acabam. Melhor assim. Pelejar por exato, dá erro contra a gente. Não se queira. Viver é muito perigoso…
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas

O dia em que Ludo salvou Luanda

Na parede da sala de visitas estava pendurada uma aquarela representando um grupo de mucubais a dançar. Ludo conhecera o artista, Albano Neves e Sousa, um tipo brincalhão, divertido, velho amigo do cunhado. Ao princípio, odiou o quadro. Via nele um resumo de tudo o que a horrorizava em Angola: Selvagens celebrando algo – uma alegria, um augúrio feliz – que lhe era alheio. Depois, pouco a pouco, ao longo dos compridos meses de silêncio e de solidão, começou a ganhar afeto por aquelas figuras que se moviam, em redor de uma fogueira, como se a vida merecesse tanta elegância.
Queimou as mobílias, queimou milhares de livros, queimou todas as telas. Foi só quando se viu desesperada que retirou os mucubais da parede. Ia para arrancar o prego, apenas por uma questão de estética, porque lhe parecia mal ali, sem serventia, quando lhe ocorreu que talvez aquilo, aquele pedaço de metal, segurasse a parede. Talvez sustentasse todo o edifício. Quem sabe, arrancando o prego da parede, ruísse a cidade inteira.
Não arrancou o prego.
José Eduardo Agualusa, in Teoria Geral do Esquecimento

06/05/2019

Mart'Nália - Só Você Não Sabe

Lundu do escritor difícil

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.

Misturo tudo num saco,
Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!

Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!…
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh “xavié”
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!

Virtude de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês “singe”
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.
Mário de Andrade

Privatização

“Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence.”
Bertolt Brecht

O Realismo de Courbet

Os quebradores de pedras (1849), de Gustave Courbet

Cargos fictícios criados

A história da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis.
Era membro do Tribunal de Justiça e morreu aos quarenta e cinco anos. Filho de um oficial cuja carreira em Petersburgo em vários ministérios e departamentos era daquelas que conduzem as pessoas a postos dos quais, em razão de seu longo tempo de serviço e da posição alcançada, não podem ser demitidas – embora seja óbvio que não possuem o menor talento para qualquer tarefa útil –, pessoas para as quais cargos são especialmente criados, os quais, embora fictícios, pagam salários que nada têm de fictícios e dos quais eles continuam vivendo o resto da vida.
Era o caso do conselheiro particular Ilya Yefimovich Golovin, membro totalmente supérfluo de uma das tantas instituições também supérfluas.
Tinha três filhos, dos quais Ivan Ilitch era o segundo. O mais velho estava seguindo os passos do pai, só que em outro ministério, e já se aproximava daquele estágio no serviço público em que a inércia é recompensada com a estabilidade. O terceiro filho era um fracasso. Jogara fora todas as suas chances em vários postos e agora estava empregado no departamento de estradas. Seu pai, seus irmãos e principalmente as esposas destes não apenas não gostavam de encontrá-lo, como evitavam sequer lembrar de sua existência, a não ser quando forçados a isso. Sua irmã casara com o Barão Greff, um oficial de Petersburgo da mesma classe do sogro.
Leon Tolstói, in A morte de Ivan Ilitch

A noiva que esperava a trágica notícia

A noiva entrou na igreja. Os convidados se ergueram.
Todos queriam vê-la. A maioria que estava ali não acreditava que ela estivesse se casando. Todos a consideravam solteira. Irreparável. Não porque não tivesse encontrado partido.
Ao contrário, tivera muitos. Recusara todos.
Por que recusava? Perguntavam. Por quê?
O órgão tocava a Marcha nupcial. Ela caminhava de braços dados com o pai. Ou seria o padrasto? Não se sabia, apenas se comentava. Eles tinham chegado há anos e se instalado na casa de paredes rubras, estilo vila italiana. Enorme. Nunca contaram nada da vida. A ninguém. Seriam casados? Ele tão mais velho do que a considerada mãe. Carioca de olhar forte e atrevido. Irônica, unhas pintadas com cores brilhantes e o sotaque arrastado. Puxando no S sibilante.
O homem que levava a trágica notícia deixou sua casa.
Exatamente quando a noiva entrou na igreja e começou sua caminhada em direção ao altar. O homem que levava a trágica notícia sabia que não precisava esperar. Chegaria no momento exato. Fizera o trajeto muitas vezes. Cronometrara o percurso. Como os bandidos de filmes que planejam um grande golpe. Ele tinha visto muitas vezes o filme de Stanley Kubrick, O Grande Golpe. The killing.
Ela, com a cauda do vestido rastejando. Caminhava compassada, naquele estranho passo ritmado pela Marcha nupcial. Caminhava, conduzida pelo pai. Seria o pai? E a mãe, de que cor pintara as unhas nesse dia?
Não se podia ver as mãos da mulher que sorria. Enigmaticamente. Todos consideravam o sorriso dessa mulher um mistério. Sua vida, uma incógnita. Sabia-se apenas que gostava de dormir. Até tarde. Muito tarde. E que odiava barulho na casa, enquanto não despertasse.
O homem que levava a trágica notícia disparava pelas ruas.
Um pouco inseguro.
Teria calculado com precisão. O trajeto?
Algumas mulheres choravam. Discretamente. Não muito, o necessário em casamentos. A mãe, uma delas. Por que a mãe estaria chorando?
O homem que levava a trágica notícia estava parado. Num sinal.
Olhava o relógio.
O noivo desceu alguns degraus para receber, sua futura mulher, companheira para a vida e a morte. Na dor e na alegria. Ele tremia um pouco. Olhou para as mãos da sogra. De que cor ela teria pintado? As unhas.
E seria verdade aquilo que diziam? Ela teria posado nua. Para uma revista? Ficou a imaginá-la nua. Tinha coxas grossas e nenhuma celulite. Entrara, inadvertidamente, no quarto dela. Um dia. Ela, de combinação rosa. De cetim. Sua pele era lisa. Devia ser macia. Desejava a mãe ou a filha?
A Marcha nupcial ecoava na igreja iluminada. Decorada com flores e velas e tapetes. A noiva não desejara música moderna. Pedira Mahler, não foi possível. Por quê?
O homem que levava a trágica notícia acelerava. O carro.
Ansioso, desconfiado de si mesmo. Suponha que soubesse o mistério. Da vida da mulher que pintava as unhas, gostava de dormir, queria ter um filho e exibia um sorriso amplo. Escancarado, prometedor. Prometedor do quê?
Um guarda mandou que ele encostasse.
Ele se desesperou.
O guarda se aproximou.
Ele explicou: Preciso levar a trágica notícia. A um casamento. Qual? Perguntou o guarda. Mais curioso do que desconfiado. Achando que o homem estava mentindo. Ele contou.
O guarda sacudiu a cabeça.
Fora de si gritou: “Vamos logo, temos de ir. Te acompanho, abro caminho”. Tocaram pela avenida. Sem respeitar sinais. Quase atropelando pessoas descuidadas. Conduzindo velozmente. A trágica notícia.
O noivo e a noiva subiram para o altar. Contemplaram o padre. O padre olhou para a mãe, ou aquela que se supunha fosse a mãe. A mulher fez que sim com a cabeça. E se ele, noivo, tivesse posto? As mãos nas coxas delas. Naquele dia. A mãe repetiu o sim. Com a cabeça.
Por que teria feito sim? Dependia dela o quê? Qual o consentimento que o padre buscava? O pai não percebeu. Diziam que ele nunca percebia nada. Sua mulher era impenetrável, ambígua.
O carro parou na porta da igreja. O homem que levava a trágica notícia entrou. Correndo pela nave.
Pisando o mesmo tapete onde minutos antes a noiva tinha passado com o pai. A mãe, vendo o homem que trazia a trágica notícia chegar apressado, compreendeu. Será que ela o conhecia? Percebeu também que talvez pudesse. Comprar agora aquela casinha com que sonhava tanto, cercada por jardins.
O homem chegou ao noivo, cochichou. O noivo empalideceu. Desmaiou. Correram os homens e um médico (“Há um médico nesta igreja?” Havia).
O homem da trágica notícia cochichou. Ao ouvido do padre. Que empalideceu e se retirou. Para a sacristia. Irritado, surpreso, temendo a Deus, tirou os paramentos. Mandou que apagassem luzes. E velas. Retirassem as flores e jogassem. No meio da praça. Mandou que todos se retirassem. O órgão emudecesse. Sua igreja jamais passara por tal situação.
O homem que trouxera a trágica notícia abraçou a mãe. E por que abraçava? Quem era ela?
E olhou-a nos olhos.
E ela soube. Sorriu e cuspiu sobre o noivo.
A noiva, paralisada. Ficou. Sozinha no escuro da igreja.
Deus também tinha abandonado. O sacrário.
Ignácio de Loyola Brandão, in Cadeiras proibidas