Já meio adormecido, eu ouvia uma voz
que vinha da rua. Voz de menino. “Olha os pastéis, de carne e de
queijo...” . Sozinho na rua vazia ele vendia pastéis que sua mãe
fizera. Para quem, se nas ruas não havia ninguém? Era como nas
estórias: havia sempre um bom menino perdido. Ele me fazia lembrar o
menino da mata. Imaginava-me no seu lugar, anunciando pastéis a um
mundo adormecido. E toda noite acontecia o mesmo, ele passava com o
mesmo anúncio triste: “Olha os pastéis, de carne e de queijo...”
. A voz triste daquele menino me marcou. Continuo a ouvi-la.
Rubem Alves, em O velho que acordou menino
Nenhum comentário:
Postar um comentário