34. — Segue-me — disse Jesus. —
Eu sou o caminho que deves trilhar, a verdade em que deves crer, a
vida que deves esperar. Eu sou o caminho sem perigo; a verdade sem
erro e a vida sem morte.
Na terceira lua do mês de Rhegeb, do
ano de 1258, uma horda de tártaros e mongóis atacou a cidade de
Bagdá. Os assaltantes eram comandados por um príncipe mongol, neto
de Gêngis Khan.
O xeque Iezid (Alá o tenha em sua
glória!) morreu combatendo junto à ponte de Solimã; o califa
Al-Motacém entregou-se prisioneiro e foi degolado pelos mongóis(1).
A cidade foi saqueada e cruelmente
arrasada.
A gloriosa Bagdá, que durante
quinhentos anos fora um centro de ciências, letras e artes, ficou
reduzida a um montão de ruínas.
Felizmente não assisti a esse crime
que os bárbaros conquistadores praticaram contra a civilização.
Três anos antes, logo depois da morte do generoso príncipe Cluzir
Schá (Alá o tenha em sua paz!), segui para Constantinopla com
Beremiz e Telassim.
Devo dizer que Telassim, antes de seu
casamento, já era cristã, e ao cabo de poucos meses fez com que
Beremiz repudiasse a religião de Maomé e adotasse integralmente o
Evangelho de Jesus, o Salvador.
Beremiz fez questão de ser batizado
por um bispo que soubesse a Geometria de Euclides.
Todas as semanas vou visitá-lo. Chego
às vezes a invejar-lhe a felicidade em que vive em companhia dos
três filhinhos e da carinhosa esposa.
Ao ver Telassim, lembro-me das
palavras do poeta:
“Pela tua graça, mulher,
conquistaste todos os corações. Tu és a obra sem mácula, saída
das mãos do Criador.”
E mais:
“Esposa de pura origem, ó
perfumada! Sob as notas de tua voz as pedras levantam-se dançando e
vêm, em ordem, erguer um edifício harmonioso!(2)
Cantai, ó aves, as vossas cantigas
mais puras! Brilhai, ó Sol, com a vossa mais doce luz!
Deixai voar as vossas flechas, ó
Deus do Amor!
Mulher! É grande a tua felicidade:
bendito seja o teu amor(3)”
Não resta dúvida. De todos os
problemas, o que Beremiz melhor resolveu foi o da Vida e do Amor.
E aqui termino, sem fórmulas e sem
números, a história simples da vida do Homem que Calculava.
A verdadeira felicidade — segundo
afirma Beremiz — só pode existir à sombra da religião cristã.
Louvado seja Deus! Cheios estão o Céu
e a Terra da majestade de sua obra(4).
Notas:
(1) A conquista de Bagdá, pelas
hordas impiedosas de Houlagou, é descrita por vários historiadores.
A cidade foi cruelmente saqueada pelos bárbaros invasores. Tudo foi
arrasado e destruído: o fogo consumiu os grandes palácios e as mais
ricas mesquitas. O sangue dos mortos inundou as ruas e as praças. Os
mongóis atiraram ao Tigre todos os livros das grandes bibliotecas, e
os preciosos manuscritos, misturados na lama, formaram uma ponte
sobre a qual os conquistadores passavam a cavalo.
(2) Os versos citados são transcritos
das Mil e Uma Noites, tradução de Nair Lacerda e de Domingos
Carvalho da Silva.
(3) Cf. Tagore, A Alma das
Paisagens, pág. 260.
(4) Dos Salmos de Davi.
Malba Tahan, em O Homem que Calculava

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