07/09/2026

O Homem que Calculava — Capítulo 34


34. — Segue-me — disse Jesus. — Eu sou o caminho que deves trilhar, a verdade em que deves crer, a vida que deves esperar. Eu sou o caminho sem perigo; a verdade sem erro e a vida sem morte.

Na terceira lua do mês de Rhegeb, do ano de 1258, uma horda de tártaros e mongóis atacou a cidade de Bagdá. Os assaltantes eram comandados por um príncipe mongol, neto de Gêngis Khan.
O xeque Iezid (Alá o tenha em sua glória!) morreu combatendo junto à ponte de Solimã; o califa Al-Motacém entregou-se prisioneiro e foi degolado pelos mongóis(1).
A cidade foi saqueada e cruelmente arrasada.
A gloriosa Bagdá, que durante quinhentos anos fora um centro de ciências, letras e artes, ficou reduzida a um montão de ruínas.
Felizmente não assisti a esse crime que os bárbaros conquistadores praticaram contra a civilização. Três anos antes, logo depois da morte do generoso príncipe Cluzir Schá (Alá o tenha em sua paz!), segui para Constantinopla com Beremiz e Telassim.
Devo dizer que Telassim, antes de seu casamento, já era cristã, e ao cabo de poucos meses fez com que Beremiz repudiasse a religião de Maomé e adotasse integralmente o Evangelho de Jesus, o Salvador.
Beremiz fez questão de ser batizado por um bispo que soubesse a Geometria de Euclides.
Todas as semanas vou visitá-lo. Chego às vezes a invejar-lhe a felicidade em que vive em companhia dos três filhinhos e da carinhosa esposa.
Ao ver Telassim, lembro-me das palavras do poeta:

“Pela tua graça, mulher, conquistaste todos os corações. Tu és a obra sem mácula, saída das mãos do Criador.”

E mais:

“Esposa de pura origem, ó perfumada! Sob as notas de tua voz as pedras levantam-se dançando e vêm, em ordem, erguer um edifício harmonioso!(2)
Cantai, ó aves, as vossas cantigas mais puras! Brilhai, ó Sol, com a vossa mais doce luz!
Deixai voar as vossas flechas, ó Deus do Amor!
Mulher! É grande a tua felicidade: bendito seja o teu amor(3)”

Não resta dúvida. De todos os problemas, o que Beremiz melhor resolveu foi o da Vida e do Amor.
E aqui termino, sem fórmulas e sem números, a história simples da vida do Homem que Calculava.
A verdadeira felicidade — segundo afirma Beremiz — só pode existir à sombra da religião cristã.
Louvado seja Deus! Cheios estão o Céu e a Terra da majestade de sua obra(4).

Notas:
(1) A conquista de Bagdá, pelas hordas impiedosas de Houlagou, é descrita por vários historiadores. A cidade foi cruelmente saqueada pelos bárbaros invasores. Tudo foi arrasado e destruído: o fogo consumiu os grandes palácios e as mais ricas mesquitas. O sangue dos mortos inundou as ruas e as praças. Os mongóis atiraram ao Tigre todos os livros das grandes bibliotecas, e os preciosos manuscritos, misturados na lama, formaram uma ponte sobre a qual os conquistadores passavam a cavalo.
(2) Os versos citados são transcritos das Mil e Uma Noites, tradução de Nair Lacerda e de Domingos Carvalho da Silva.
(3) Cf. Tagore, A Alma das Paisagens, pág. 260.

(4) Dos Salmos de Davi.

Malba Tahan, em O Homem que Calculava

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