25/08/2026

Junk | Paul McCartney



Motor cars, handlebars, bicycles for two
Broken-hearted jubilee
Parachutes, army boots, sleeping bags for two
Sentimental jamboree

Buy, buy, says the sign in the shop window
Why? Why? says the junk in the yard

Candlesticks, building bricks, something old and new
Memories for you and me

Buy, buy, says the sign in the shop window
Why? Why? says the junk in the yard

Wilfrid Brambell, o ator irlandês, interpretou o personagem do meu avô “bem limpinho” no filme dos Beatles A Hard Day’s Night. Ele também estrelava Steptoe and Son, o famoso sitcom da BBC. O seriado enfocava os constantes conflitos entre Albert Steptoe, muitas vezes chamado de “velhote sujo”, e o filho dele, Harold, um personagem fadado a ter aspirações sociais que aparentemente nunca vão se materializar. Acho que todos nós estamos familiarizados com esse cenário!
Se me permitem usar uma expressão antiquada, o ambiente de “Junk” foi influenciado pela loja de “trecos e cacarecos”, o cenário principal de Steptoe and Son. Essa loja, um misto de quinquilharias e ferro-velho, se tornou tão familiar para o público britânico nas décadas de 1960 e 1970 quanto o rancho de Bonanza ou a mansão em The Beverly Hillbillies.
O gatilho da canção, como de muitas outras, foi uma sequência de acordes legais e, depois, a melodia. Sei que pode soar estranho, mas o acorde inicial desta canção realmente me faz pensar em um ferro-velho ou nos fundos de uma loja. O tipo de atmosfera na qual, se eu estivesse escrevendo um romance, eu gostaria de situar uma cena. Quem costuma fazer isso é o Dickens. Os fundos de uma loja, um porão ou até mesmo a fundição Rouncewell em A casa soturna. Aqui temos “Motor cars, handlebars, bicycles for two”. Muita gente vai reconhecer que “bicicletas para duas pessoas” é uma reciclagem da canção “Daisy Bell (Bicycle Built for Two)”. Essa canção de Harry Dacre, feita em 1892, tornou-se um grande sucesso com Nat King Cole, em 1963.
Não que a reciclagem fosse um tópico muito importante na década de 1960. Em parte, é porque a ideia de obsolescência programada ainda não havia decolado. Naquela época, se você comprasse um carro, ele precisava durar muito tempo. Poderia até ser transmitido de geração em geração. Quando eu era menino, você se apegava às coisas. Hoje eu tenho o instinto de me apegar às coisas e, mais do que isso, espero que elas durem. Por isso, esta canção serve de comentário sobre a sociedade de consumo. Esta é uma coisa que você faz como compositor: comenta sobre a sociedade e transmite uma opinião. Coloco opiniões em minhas canções – nem sempre uma opinião que eu tenho, mas pode ser uma opinião que ouvi, gostei ou que me interessa. Assim, a ideia de que as coisas vão ficar inúteis depois que você comprar é um comentário sobre o consumismo da sociedade. Ao que parece, foi só a partir da década de 1960 que atravessamos a linha de ter necessidades para ter desejos e então agir de acordo com esses desejos. De modo que esta canção entra nesse contexto.
Mas é basicamente uma canção de amor. De bicicletas para duas pessoas passamos a sacos de dormir para duas pessoas (“sleeping bags for two”). E logo depois temos o verso “Buy, buy, says the sign in the shop window”, que soa como um amante dizendo “Bye-bye”, e então o interlocutor indaga melancolicamente: Por quê, por quê? (“Why, why?”). É como se a sucata no quintal (“the junk in the Yard”) estivesse exigindo uma explicação para essa ânsia de obter algo – ou alguém – novo.

Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

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