Motor cars, handlebars, bicycles
for two
Broken-hearted jubilee
Parachutes, army boots, sleeping
bags for two
Sentimental jamboree
Buy, buy, says the sign in the shop
window
Why? Why? says the junk in the yard
Candlesticks, building bricks,
something old and new
Memories for you and me
Buy, buy, says the sign in the shop
window
Why? Why? says the junk in the yard
Wilfrid Brambell, o ator irlandês,
interpretou o personagem do meu avô “bem limpinho” no filme dos
Beatles A Hard Day’s Night. Ele também estrelava Steptoe
and Son, o famoso sitcom da BBC. O seriado enfocava os constantes
conflitos entre Albert Steptoe, muitas vezes chamado de “velhote
sujo”, e o filho dele, Harold, um personagem fadado a ter
aspirações sociais que aparentemente nunca vão se materializar.
Acho que todos nós estamos familiarizados com esse cenário!
Se me permitem usar uma expressão
antiquada, o ambiente de “Junk” foi influenciado pela loja de
“trecos e cacarecos”, o cenário principal de Steptoe and Son.
Essa loja, um misto de quinquilharias e ferro-velho, se tornou tão
familiar para o público britânico nas décadas de 1960 e 1970
quanto o rancho de Bonanza ou a mansão em The Beverly
Hillbillies.
O gatilho da canção, como de muitas
outras, foi uma sequência de acordes legais e, depois, a melodia.
Sei que pode soar estranho, mas o acorde inicial desta canção
realmente me faz pensar em um ferro-velho ou nos fundos de uma loja.
O tipo de atmosfera na qual, se eu estivesse escrevendo um romance,
eu gostaria de situar uma cena. Quem costuma fazer isso é o Dickens.
Os fundos de uma loja, um porão ou até mesmo a fundição
Rouncewell em A casa soturna. Aqui temos “Motor cars,
handlebars, bicycles for two”. Muita gente vai reconhecer que
“bicicletas para duas pessoas” é uma reciclagem da canção
“Daisy Bell (Bicycle Built for Two)”. Essa canção de
Harry Dacre, feita em 1892, tornou-se um grande sucesso com Nat King
Cole, em 1963.
Não que a reciclagem fosse um tópico
muito importante na década de 1960. Em parte, é porque a ideia de
obsolescência programada ainda não havia decolado. Naquela época,
se você comprasse um carro, ele precisava durar muito tempo. Poderia
até ser transmitido de geração em geração. Quando eu era menino,
você se apegava às coisas. Hoje eu tenho o instinto de me apegar às
coisas e, mais do que isso, espero que elas durem. Por isso, esta
canção serve de comentário sobre a sociedade de consumo. Esta é
uma coisa que você faz como compositor: comenta sobre a sociedade e
transmite uma opinião. Coloco opiniões em minhas canções – nem
sempre uma opinião que eu tenho, mas pode ser uma opinião que ouvi,
gostei ou que me interessa. Assim, a ideia de que as coisas vão
ficar inúteis depois que você comprar é um comentário sobre o
consumismo da sociedade. Ao que parece, foi só a partir da década
de 1960 que atravessamos a linha de ter necessidades para ter desejos
e então agir de acordo com esses desejos. De modo que esta canção
entra nesse contexto.
Mas é basicamente uma canção de
amor. De bicicletas para duas pessoas passamos a sacos de dormir para
duas pessoas (“sleeping bags for two”). E logo depois
temos o verso “Buy, buy, says the sign in the shop window”,
que soa como um amante dizendo “Bye-bye”, e então o
interlocutor indaga melancolicamente: Por quê, por quê? (“Why,
why?”). É como se a sucata no quintal (“the junk in the
Yard”) estivesse exigindo uma explicação para essa ânsia de
obter algo – ou alguém – novo.
Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

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