05/07/2026

Factótum — 17



17

Trabalhei tempo suficiente para juntar dinheiro e comprar uma passagem para longe daquele lugar, mais uns dólares para poder me estabelecer. Pedi demissão, peguei um mapa dos Estados Unidos e dei uma boa olhada. Decidi ir para Nova York.
Coloquei cinco garrafinhas de uísque na minha mala e peguei o ônibus. Sempre que alguém sentava do meu lado e começava a falar, eu pegava uma garrafa e tomava um longo gole. Enfim, cheguei.
A rodoviária de Nova York ficava perto da Times Square. Andei pela rua com minha mala velha. Estava anoitecendo. As pessoas saíam das estações do metrô como um enxame. Tipo insetos, sem rosto e enlouquecidos, se apressavam na minha direção, contra mim e por todos os lados, de forma intensa. Se empurravam e faziam sons horríveis.
Me encostei no batente de uma entrada e terminei a última garrafinha de uísque.
Aí segui andando, sendo empurrado, acotovelado, até que vi um letreiro anunciando quartos vagos na Third Avenue. A responsável era uma senhora judia idosa.
Eu preciso de um quarto — disse a ela.
Você precisa de um bom terno, meu rapaz.
Estou liso.
Eu tenho um, quase de graça. Meu marido tem uma alfaiataria do outro lado da rua. Venha comigo.
Paguei pelo quarto e coloquei a mala no andar de cima. Atravessei a rua com a senhora.
Herman, mostre o terno ao rapaz.
Ah, é um terno bonito. — Herman o trouxe; era azul-escuro, um pouco gasto.
Parece pequeno.
Não, não, vai ficar bom.
Ele saiu de trás do balcão com o terno.
Pegue, experimente. — Herman me ajudou a vestir o paletó. — Viu só? Serviu… Quer experimentar a calça? — Segurou a calça na minha frente, da cintura até os pés.
Parece bom.
Dez dólares.
Estou liso.
Sete.
Dei os sete dólares ao Herman e levei o meu terno para o quarto. Saí atrás de uma garrafa de vinho. Quando voltei, tranquei a porta, tirei a roupa e me preparei para a primeira noite de sono decente depois de um bom tempo.
Fui para a cama, abri a garrafa, dobrei o travesseiro nas costas, respirei fundo e fiquei sentado no escuro, olhando pela janela. Era a primeira vez que eu estava sozinho em cinco dias. Eu era um cara que me dava bem na solidão; sem isso eu era como outro qualquer sem comida ou água. Cada dia sem solidão me enfraquecia. Eu não tinha orgulho da minha solidão, mas era dependente dela. A escuridão do quarto era como luz do sol para mim. Tomei um gole do vinho.
De repente o quarto se iluminou. Ouvi um estrondo metálico. O metrô elevado passava na frente da minha janela. Um dos trens parou ali. Olhei para uma fileira de rostos nova iorquinos que me encaravam. O trem ficou um pouco ali, depois partiu. Escureceu. Então o quarto se iluminou de novo. Outra vez, olhei para os rostos. Parecia uma visão do inferno se repetindo de forma infinita. Cada carga de gente era mais feia, demente e terrível do que a anterior. Outro gole.
Seguiu assim: escuro, depois claro; claro, depois escuro. Terminei o vinho e fui comprar mais. Voltei, tirei a roupa e fui para a cama. A chegada e partida dos rostos continuava; senti que aquilo era como uma visão. Estava recebendo a visita de centenas de demônios que nem o Diabo queria. Mais outro gole.
Aí resolvi levantar e tirei o terno novo do armário. Ao tentar me enfiar no paletó, percebi que estava apertado; parecia menor que o do alfaiate. De repente, ouvi um som de rasgo. O paletó abriu por completo nas costas. Tirei o que havia restado dele. Pelo menos ainda tinha as calças. Enfiei as pernas. Em vez de zíper na frente, a calça tinha botões; enquanto eu tentava fechá-los, a costura abriu no traseiro. Passei a mão por trás, e senti a cueca.

Charles Bukowski, em Factótum

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