24/06/2026

A eleição diferente

O trrrim da campainha penetrou no sono, e acordei tendo à minha frente um motorista uniformizado, que dizia: “O dr. João está lá embaixo, à sua espera”. “Oh, o João é extraordinário, mas praque ele foi se incomodar”, e logo me senti vestido e diante de João, que tinha o seu melhor sorriso. “Vim buscá-lo porque o senhor é um preguiçoso, e está perdendo um belo espetáculo cívico.” O auto rodou, e passamos pela 1a seção da 5a zona eleitoral, que funcionava na praia. As moças votavam de biquíni, os rapazes de short, e cada um ganhava um sorvetinho italiano, ao assinar o livro de presença, que não era um livro, era uma grande barraca de cores festivas. De quando em quando, a mesa interrompia os trabalhos, para jogar peteca ou dar um mergulho.
Passamos depois por um cinema, onde funcionava outra seção. “Aqui votam os mais discretos, aqueles que levam ao extremo o sigilo do voto”, explicou-me João; e pressenti, no escuro, um movimento de mãos que recebiam e passavam cédulas, e vozes murmuradas, que eram as de chamada de eleitores, enquanto Gina Lollobrigida, na tela, colhia morangos do bosque e namorava o carabineiro.(1)
Saímos, e continuamos a apreciar o povo soberano. Havia uma seção no alto do Pão de Açúcar, e para inspecioná-la passamos a um helicóptero pousado no local do antigo Pavilhão Mourisco. Outra, nas matas da Tijuca. Passarinhos traziam no bico delicado o material da eleição, e, pelos caminhos perfumados de resinas e corolas silvestres, pares enlaçados os perseguiam aos gritinhos e risadinhas, como no canto IX dos Lusíadas. Quando um colibri se deixava pegar, as cédulas que ele transportava eram todas do candidato preferido pelo casal, e o casal preferia sempre os melhores nomes; mas era dificílimo escolher, porque todos os nomes eram ótimos. João explicou-me que os canalhas se haviam regenerado ou mudado para países distantes. Quanto aos mentirosos, pensavam mentir ainda, não reparando que uma transformação interior só lhes permitia falar verdade.
E aquela aglomeração maior, ali embaixo?” “É a seção do Banco do Brasil, não tinha reparado?”, respondeu-me João. Os eleitores brandiam cédulas do Tesouro, e iam depositá-las num guichê com a tabuleta “Recebedor”. O sempre bem informado João esclareceu que peculatários e estelionatários, aproveitando a ocasião, exerciam o direito de voto e restituíam o roubado; em seguida, recolhiam-se espontaneamente à cadeia, e, embora perdoados, teimavam em permanecer lá dentro, para purgação de suas faltas.
Vou lhe proporcionar um prazer especial”, continuou João; “voemos sobre a Academia de Letras.” O poeta Adelmar Tavares votava em verso alexandrino, que era logo declamado em coro pelos amigos: “Hamilton, senador, como a experiência manda, e, para vereador, Floresta de Miranda”. Manuel Bandeira observou que, lidos como hexassílabos, os versos ganhavam em ritmo e vivacidade. Alguns acadêmicos pediam cédulas de dom Pedro ii, mas um mesário lhes explicava que esse de há muito já era um eleito. Olegário Mariano chorava de emoção. E, aproveitando o ensejo, a Academia deliberava criar poltronas extranumerárias, que eram preenchidas ali no sufragante, com a participação de acadêmicos e adventícios, e foram eleitas quarenta mulheres e ninguém mais se entendeu daí por diante, e a eleição terminou no bar Vilarino, entre uísques.
Faltava-nos ver umas quinhentas seções, e João, sempre amável e eficiente, proporcionava-nos uma lancha, para espiar as eleições marítimas e submarinas; depois, andávamos a esmo pelas ruas, curiosos de ver onde votavam Cacilda Becker, Villa-Lobos, Zizinho, o general Rondon, Heitor dos Prazeres, Jayme Ovalle, Adalgisa Nery. Víamos, sorríamos, cumprimentávamos, e tudo era melhor; e tomávamos um teco-teco e íamos sobre o Brasil afora, e todo o Brasil votava como lhe parecia, dançando, cantando, confraternizando; e voávamos e voávamos sobre a paz e o amor universais. Há sonhos felizes.
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(1) Referência ao filme Pão, amor e fantasia (1953), do diretor italiano Luigi Comencini (1916-2007), com Gina Lollobrigida e Vittorio De Sica nos papéis principais.

Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira 

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