O trrrim da campainha penetrou no
sono, e acordei tendo à minha frente um motorista uniformizado, que
dizia: “O dr. João está lá embaixo, à sua espera”. “Oh, o
João é extraordinário, mas praque ele foi se incomodar”, e logo
me senti vestido e diante de João, que tinha o seu melhor sorriso.
“Vim buscá-lo porque o senhor é um preguiçoso, e está perdendo
um belo espetáculo cívico.” O auto rodou, e passamos pela 1a
seção da 5a zona eleitoral, que funcionava na praia. As moças
votavam de biquíni, os rapazes de short, e cada um ganhava um
sorvetinho italiano, ao assinar o livro de presença, que não era um
livro, era uma grande barraca de cores festivas. De quando em quando,
a mesa interrompia os trabalhos, para jogar peteca ou dar um
mergulho.
Passamos depois por um cinema, onde
funcionava outra seção. “Aqui votam os mais discretos, aqueles
que levam ao extremo o sigilo do voto”, explicou-me João; e
pressenti, no escuro, um movimento de mãos que recebiam e passavam
cédulas, e vozes murmuradas, que eram as de chamada de eleitores,
enquanto Gina Lollobrigida, na tela, colhia morangos do bosque e
namorava o carabineiro.(1)
Saímos, e continuamos a apreciar o
povo soberano. Havia uma seção no alto do Pão de Açúcar, e para
inspecioná-la passamos a um helicóptero pousado no local do antigo
Pavilhão Mourisco. Outra, nas matas da Tijuca. Passarinhos traziam
no bico delicado o material da eleição, e, pelos caminhos
perfumados de resinas e corolas silvestres, pares enlaçados os
perseguiam aos gritinhos e risadinhas, como no canto IX dos Lusíadas.
Quando um colibri se deixava pegar, as cédulas que ele transportava
eram todas do candidato preferido pelo casal, e o casal preferia
sempre os melhores nomes; mas era dificílimo escolher, porque todos
os nomes eram ótimos. João explicou-me que os canalhas se haviam
regenerado ou mudado para países distantes. Quanto aos mentirosos,
pensavam mentir ainda, não reparando que uma transformação
interior só lhes permitia falar verdade.
“E aquela aglomeração maior, ali
embaixo?” “É a seção do Banco do Brasil, não tinha
reparado?”, respondeu-me João. Os eleitores brandiam cédulas do
Tesouro, e iam depositá-las num guichê com a tabuleta “Recebedor”.
O sempre bem informado João esclareceu que peculatários e
estelionatários, aproveitando a ocasião, exerciam o direito de voto
e restituíam o roubado; em seguida, recolhiam-se espontaneamente à
cadeia, e, embora perdoados, teimavam em permanecer lá dentro, para
purgação de suas faltas.
“Vou lhe proporcionar um prazer
especial”, continuou João; “voemos sobre a Academia de Letras.”
O poeta Adelmar Tavares votava em verso alexandrino, que era logo
declamado em coro pelos amigos: “Hamilton, senador, como a
experiência manda, e, para vereador, Floresta de Miranda”. Manuel
Bandeira observou que, lidos como hexassílabos, os versos ganhavam
em ritmo e vivacidade. Alguns acadêmicos pediam cédulas de dom
Pedro ii, mas um mesário lhes explicava que esse de há muito já
era um eleito. Olegário Mariano chorava de emoção. E, aproveitando
o ensejo, a Academia deliberava criar poltronas extranumerárias, que
eram preenchidas ali no sufragante, com a participação de
acadêmicos e adventícios, e foram eleitas quarenta mulheres e
ninguém mais se entendeu daí por diante, e a eleição terminou no
bar Vilarino, entre uísques.
Faltava-nos ver umas quinhentas
seções, e João, sempre amável e eficiente, proporcionava-nos uma
lancha, para espiar as eleições marítimas e submarinas; depois,
andávamos a esmo pelas ruas, curiosos de ver onde votavam Cacilda
Becker, Villa-Lobos, Zizinho, o general Rondon, Heitor dos Prazeres,
Jayme Ovalle, Adalgisa Nery. Víamos, sorríamos, cumprimentávamos,
e tudo era melhor; e tomávamos um teco-teco e íamos sobre o Brasil
afora, e todo o Brasil votava como lhe parecia, dançando, cantando,
confraternizando; e voávamos e voávamos sobre a paz e o amor
universais. Há sonhos felizes.
-------------------------------
(1) Referência ao filme Pão, amor
e fantasia (1953), do diretor italiano Luigi Comencini
(1916-2007), com Gina Lollobrigida e Vittorio De Sica nos papéis
principais.
Carlos Drummond de Andrade, em Fala, Amendoeira
Nenhum comentário:
Postar um comentário