sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

1601 – Valladolid

Quevedo

Há vinte anos que a Espanha reina sobre Portugal e todas as suas comarcas, de modo que pode um espanhol passear pelo mundo sem pisar terra estrangeira.
Mas a Espanha é a nação mais cara da Europa: produz cada vez menos coisas e cada vez mais moedas. Dos trinta e cinco milhões de escudos nascidos há seis anos, não sobra nem sombra. Não são alentadores os dados que acaba de publicar aqui dom Martín González de Cellorigo em seu Memorial da política necessária: por obra do azar e da herança, cada espanhol que trabalha mantém outros trinta. Para os rentistas, trabalhar é pecado. Os fidalgos têm por campo de batalha as alcovas; e crescem na Espanha menos árvores que frades e mendigos.
Rumo a Gênova marcham as galeras carregadas com a prata da América. Nem o aroma deixam na Espanha os metais que chegam do México e do Peru. Tal parece, que a façanha das conquistas tivesse sido cumprida pelos mercadores e banqueiros alemães, genoveses, franceses e flamengos.
Vive em Valladolid um rapaz manco e míope, puro de sangue e com espada e língua de muito fio. Pela noite, enquanto o pajem arranca-lhe as botas, medita versos rimados. Na manhã seguinte deslizam as serpentes por baixo dos portões do palácio real.
Com a cabeça afundada no travesseiro, o jovem Francisco de Quevedo y Villegas pensa em quem do covarde faz guerreiro e amolece o juiz mais severo; e amaldiçoando este ofício de poeta ergue-se na cama, esfrega os olhos, aproxima a lamparina e de um impulso tira de dentro de si os versos que não o deixam dormir. Falam os versos de dom Dinheiro, que

nasce nas Índias honrado,
onde o mundo o acompanha,
e vem morrer na Espanha,
e é em Gênova enterrado.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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