sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Cash



Não resta alternativa. Ou o mandamos para Jackson ou Gillespie nos processará judicialmente, pois ele soube, de alguma forma, que Darl tocou fogo no celeiro. Ignoro como soube, mas aí está. Vardaman viu-o atear o incêndio, mas jura não ter contado a ninguém, exceto Dewey Dell, e ela lhe disse para não contar a ninguém. Mas Gillespie soube. De qualquer forma, viria a desconfiar, mais cedo ou mais tarde. Talvez aquela mesma noite, só em observar o comportamento de Darl.
E, por isso, Pai disse: "Acho que não temos outro jeito", e Jewel disse: "Quer amarrá-lo agora?"
"Amarrá-lo?", disse Pai.
"Pegá-lo e amarrá-lo", disse Jewel.
"Diabo, quer que ele ponha fogo nas malditas mulas e na carroça?"
Mas não havia necessidade.
"Não é preciso", eu disse. "Podemos esperar até que ela esteja enterrada."
Um sujeito que vai passar o resto da vida trancafiado deve ter permissão para divertir-se um pouco antes de partir.
"Acho que devemos mandá-lo para lá", diz Pai. "Deus sabe que isto é uma provação para mim. Quando o azar começa, parece que não há meio de parar."
Às vezes eu me pergunto se alguém tem o direito de dizer se um homem está maluco ou não. Às vezes eu penso que nenhum de nós é inteiramente louco ou inteiramente são, até que a maioria nos identifica de uma ou de outra maneira. Não importa muito a maneira como um homem age, e sim a maneira como a maioria das pessoas olha-o enquanto ele age.
Porque Jewel é muito duro para com ele. Naturalmente, foi o negócio com o cavalo de Jewel que nos permitiu trazê la até aqui, e, até certo ponto, foi o valor do cavalo que Darl tentou queimar. Mas tenho pensado mais de uma vez, antes de cruzar o rio e depois, que teria sido uma bênção se Deus a tirasse de nossas mãos, de maneira simples e discreta; e pareceu-me que, quando Jewel se empenhou tanto em retirá-la do rio, contrariava, de certo modo, a vontade de Deus; então, quando Darl percebeu que um de nós, pelo visto, devia fazer alguma coisa, quase sou levado a crer que sua conduta ficou, em certo sentido, justificada. Reconheço, no entanto, que não há razão para incendiar o celeiro de alguém e pôr em perigo seu gado e ameaçar destruir sua propriedade. Aí é que se vê se um homem é de fato maluco. Nesses casos, ele não vê as coisas da mesma maneira que as outras pessoas. Reconheço que não se tem outra coisa a fazer com ele senão o que a maioria julga conveniente.
De certa forma, no entanto, é uma vergonha. As pessoas parecem afastar-se daquele velho e justo principio segundo o qual devemos bater os pregos e aparar os cantos com capricho, como se a encomenda fosse feita para nosso próprio uso e comodidade. É como se umas pessoas tivessem tábuas lisas e bonitas com que construir um tribunal, e outras não contassem senão com troncos próprios para levantar um galinheiro Mas sempre é melhor construir um galinheiro bem caprichado que um tribunal de justiça mal-acabado, embora ninguém se sentisse melhor ou pior pelo fato de serem construídas coisas caprichadas ou mal-acabadas.
Assim, subimos a rua, em direção à praça, e ele disse: "Melhor levarmos Cash ao médico, em primeiro lugar. Podemos deixá-lo e voltar depois para apanhá-lo."
É isto mesmo. É porque entre eu e ele a diferença de idade é pouca, enquanto passaram-se quase dez anos antes que Jewel e Dewey Dell e Vardaman começassem a aparecer. Eu me sinto bem com todos, é claro, mas não sei. E como sou o mais velho, e continuo pensando no que ele fez: não sei não.
Pai estava olhando para mim, depois para ele, mordendo os lábios.
"Vamos lá", eu disse. "Vamos ver isto primeiro."
"Ela gostaria de ver todos nós juntos", diz Pai.
"Primeiro, vamos levar Cash ao médico", disse Darl. "Ela pode esperar. Está esperando há nove dias."
"Vocês não sabem mesmo o que dizem", diz Pai. "A pessoa com quem passaram a juventude, com quem envelheceram e que envelheceu em vocês, vendo a velhice chegar e dizendo sempre que isso não tinha importância, e vocês sabendo que isto era verdade neste mundo duro, cheio de dores e provações. Vocês não sabem mesmo o que dizem."
"Temos ainda de abrir a cova", eu disse.
"Armstid e Gillespie disseram-lhe que mandasse uma mensagem antecipando isto", disse Darl. "Não quer ir ao médico agora. Cash?"
"Vamos continuar", eu disse. "A perna está melhor. Melhor fazer cada coisa em sua ocasião oportuna."
"Se a cova já estivesse aberta...", diz Pai. "Ainda por cima, esquecemos a pá."
"Sim", disse Darl. "Terei de ir a uma casa de ferragens. Precisamos comprar uma."
"Custará caro", diz Pai.
"Pretende negar-lhe isto?", diz Darl.
"Vá buscar a pá", disse Jewel. "Vamos, dê-lhe o dinheiro."
Mas Pai não parou. "Acho que podemos arranjar uma pá emprestada", disse. "Acho que deve haver cristãos por aqui."
Assim, Darl continuou calmo e nós continuamos a andar, com Jewel de cócoras na retaguarda, com os olhos na nuca de Darl. Parecia um desses bulldogs, um desses cães que não ladram nunca, encolhido contra a corda, olhando a coisa sobre a qual vai pular.
Ficou assim durante todo o tempo em que estivemos na frente da casa de Mrs. Bundren, ouvindo a música, olhando a nuca de Darl com aqueles seus olhos brancos e duros.
A música tocava dentro de casa. Era um dos tais gramofones. Tão natural como se uma banda entoasse a música.
"Quer ir agora ao Peabody?". perguntou Darl. "Eles podem ficar aqui e avisar Pai. Eu o levarei ao Peabody e virei apanhá-los."
"Não", eu disse. Melhor enterrá-la de uma vez, agora que estávamos quase em condições, apenas à espera que emprestassem uma pá a Pai. Ele tinha percorrido a rua até o lugar onde se ouvia música.
"Talvez tenham uma aqui", disse. Parou a carroça à porta de Mrs. Bundren. Era como se tivesse certeza. Às vezes eu penso que um trabalhador vê trabalho à sua frente, enquanto um preguiçoso só vê preguiça. Assim, ele parou ali, como se tivesse a certeza, diante daquela casinha nova de onde saia música. Esperamos, ouvindo a música. Acho que, pechinchando um pouco, teria comprado um ao Suratt por cinco dólares. Coisa confortadora é a música. "Talvez tenham uma aqui", diz Pai.
"Quer que Jewel vá?", pergunta Darl, "ou prefere eu?"
"Creio que irei eu mesmo", diz Pai. .Desceu e, entrando no caminho, rodeou a casa até os fundos. A música parou, em seguida recomeçou.
"Conseguiu", disse Darl.
"Sim", eu disse. Foi como se ele tivesse certeza, como se pudesse ver através das paredes e saber o que vai acontecer nos próximos dez minutos.
Só que foram mais de dez minutos. A música parou novamente, desta vez um bom pedaço, lá onde Pai e ela estavam conversando, nos fundos. Nós esperávamos na carroça.
"Deixe-me levar você ao Peabody", disse Darl.
"Não", eu disse. "Primeiro, vamos enterrá-la."
"Se ele voltar", disse Jewel. Começa a praguejar. Prepara-se para descer da carroça. "Vou ver o que se passa", disse.
Então vimos Pai de volta. Trazia duas pás e rodeava a casa. Colocou-as na carroça, subiu e continuamos. A música havia recomeçado, sem parar. Pai olhou para trás, para a casa. Parece que levantou um pouco a mão, acenando, e eu vi a cortina afastar-se um pouco, na janela, e a sombra do rosto da mulher.
A coisa mais curiosa, porém, foi a atitude de Dewey Dell. Surpreendeu-me. Compreendo bem que as pessoas o considerem estranho, e, por essa mesma razão, ninguém pode ficar ofendido. Era como se ele estivesse sempre em órbita, alheio às coisas, como a gente, e aborrecer-se com ele, por causa disso, seria o mesmo que aborrecer-se com uma poça de lama que respinga em nós quando pomos o pé dentro. E, no entanto, sempre tive a ideia de que ele e Dewey Dell guardavam um segredo qualquer. Se havia um de nós de quem ela gostava mesmo, essa pessoa era Darl. Mas quando, depois de abrir a cova, pôr o caixão dentro e cobri-la, saímos do cemitério e chegamos ao lugar onde os guardas esperavam, e quando eles avançaram e caíram sobre Darl e Darl deu um salto para trás, foi justamente Dewey Dell quem o agarrou, antes mesmo que Jewel pudesse segurá-lo. E então eu julguei saber como Gillespie descobriu quem lhe incendiou o celeiro.
Ela não havia dito uma palavra, nem mesmo o olhara, mas quando os guardas disseram-lhe o que pretendiam e que tinham vindo para levá-lo e ele saltou, então ela pulou sobre ele como um gato selvagem, de tal forma que um dos guardas teve de correr e segurá-la, e ela ferindo-o e arranhando-o com as unhas, como um gato selvagem, enquanto o outro e Pai e Jewel derrubavam Darl e o mantinham, de costas, contra o chão, a olhar para mim.
"Pensei que você me avisaria", ele disse. "Nunca pensei que você não me avisasse."
"Darl", eu disse.
Mas ele resistiu outra vez. Lutaram ele e Jewel e um dos guardas, enquanto o outro guarda segurava Dewey Dell e Vardaman gritava e Jewel dizia: "Matem-no. Matem o filho da puta."
Foi muito triste. Muito triste. É difícil alguém escapar de uma sujeira. Ele não pôde. Tentei dizer-lhe isto, mas ele se limitava a queixar-se: "Pensei que você me avisaria. Porque não é que eu...", ele disse, e então começou a rir. O outro guarda afastou Jewel dele e ele sentou-se no chão e continuou a rir.
Tentei dizer-lhe. Se ao menos pudesse mexer-me, ou me sentar. Mesmo assim, tentei explicar-lhe e ele parou de rir e me olhou.
"Quer que eu vá?", perguntou.
"Será melhor para você", eu disse. "Lá você ficará tranquilo, sem ter ninguém que o incomode e essa coisa toda. Será melhor para você, Darl", eu .disse.
"Melhor", ele disse. Começou a rir novamente. "Melhor", disse. Mal podia pronunciar a palavra, de tanto rir. Sentado no chão, ele nos observava, rindo perdidamente. Foi triste. Foi realmente muito triste. O diabo me leve se eu podia ver motivo de riso. Porque nada há que justifique a deliberada destruição do que um homem construiu com seu próprio suor e do fruto do seu suor, que guardou com carinho.
Mas não sei se alguém tem o direito de dizer se um homem está louco ou não está. É como se em cada homem houvesse uma personalidade à margem da sanidade ou da loucura, uma personalidade que observasse o são e o insano no homem com o mesmo horror e a mesma estupefação.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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