Fotograma do Filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos
Fabiano meteu-se na vereda que ia
desembocar na lagoa seca, torrada, coberta de catingueiras e capões
de mato. Ia pesado, o aió cheio a tiracolo, muitos látegos e
chocalhos pendurados num braço. O facão batia nos tocos. Espiava o
chão como de costume, decifrando rastos. Conheceu os da égua ruça
e da cria, marcas de cascos grandes e pequenos. A égua ruça, com
certeza. Deixara pêlos brancos num tronco de angico. Urinara na
areia e o mijo desmanchara as pegadas, o que não aconteceria se se
tratasse de um cavalo.
Fabiano ia desprecatado, observando
esses sinais e outros que se cruzavam, de viventes menores. Corcunda,
parecia farejar o solo - e a catinga deserta animava-se, os bichos
que ali tinham passado voltavam, apareciam-lhe diante dos olhos
miúdos.
Seguiu a direção que a égua havia
tomado. Andara cerca de cem braças quando o cabresto de cabelo que
trazia no ombro se enganchou num pé de quipá. Desembaraçou o
cabresto, puxou o facão, pôs-se a cortar as quipás e as
palmatórias que interrompiam a passagem.
Tinha feito um estrago feio, a terra
se cobria de palmas espinhosas. Deteve-se percebendo rumor de
garranchos, voltou- se e deu de cara com o soldado amarelo que, um
ano antes, o levara a cadeia, onde ele aguentara uma surra e passara
a noite. Baixou a arma. Aquilo durou um segundo.
Menos: durou uma fração de segundo.
Se houvesse durado mais tempo, o amarelo teria caído esperneando na
poeira, com o quengo rachado. Como o impulso que moveu o braço de
Fabiano foi muito forte, o gesto que ele fez teria sido bastante para
um homicídio se outro impulso não lhe dirigisse o braço em sentido
contrário. A lâmina parou de chofre, junto à cabeça do intruso,
bem em cima do boné vermelho. A princípio o vaqueiro não
compreendeu nada. Viu apenas que estava ali um inimigo. De repente
notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade.
Sentiu um choque violento, deteve-se, o braço ficou irresoluto,
bambo, inclinando-se para um lado e para outro.
O soldado, magrinho, enfezadinho,
tremia. E Fabiano tinha vontade de levantar o facão de novo. Tinha
vontade, mas os músculos afrouxavam. Realmente não quisera matar um
cristão: procedera como quando, a montar brabo, evitava galhos e
espinhos. Ignorava os movimentos que fazia na sela. Alguma coisa o
empurrava para a direita ou para a esquerda. Era essa coisa que ia
partindo a cabeça do amarelo. Se ela tivesse demorado um minuto,
Fabiano seria um cabra valente. Não demorara. A certeza do perigo
surgira - e ele estava indeciso, de olho arregalado, respirando
com dificuldade, um espanto verdadeiro no rosto barbudo coberto de
suor, o cabo do facão mal seguro entre os dois dedos úmidos.
Tinha medo e repetia que estava em
perigo, mas isto lhe pareceu tão absurdo que se pôs a rir. Medo
daquilo? Nunca vira uma pessoa tremer assim. Cachorro. Ele não era
dunga na cidade? Não pisava os pés dos matutos, na feira?
Não botava gente na cadeia?
Sem-vergonha, mofino. Irritou-se. Porque seria que aquele safado
batia os dentes como um caititu? Não via que ele era incapaz de
vingar-se? Não via? Fechou a cara. A ideia do perigo ia-se sumindo.
Que perigo? Contra aquilo nem precisava facão, bastavam as unhas.
Agitando os chocalhos e os látegos, chegou a mão esquerda, grossa e
cabeluda, à cara do polícia, que recuou e se encostou a uma
catingueira. Se não fosse a catingueira, o infeliz teria caído.
Fabiano pregou nele os olhos ensanguentados, meteu o facão na
bainha. Podia matá-lo com as unhas. Lembrou-se da surra que levara e
da noite passada na cadeia. Sim senhor. Aquilo ganhava dinheiro para
maltratar as criaturas inofensivas. Estava certo? O rosto de Fabiano
contraía-se, medonho, mais feio que um focinho. Hem? Estava certo?
Bulir com as pessoas que não fazem mal a ninguém. Porque?
Sufocava-se, as rugas da testa aprofundavam-se, os pequenos olhos
azuis abriam-se demais, numa interrogação dolorosa.
O soldado encolhia-se, escondia-se por
detrás da árvore. E Fabiano cravava as unhas nas palmas calosas.
Desejava ficar cego outra vez. Impossível readquirir aquele instante
de inconsciência. Repetia que a arma era desnecessária, mas tinha a
certeza de que não conseguiria utilizá-la – e apenas queria
enganar-se. Durante um minuto a cólera que sentia por se considerar
impotente foi tão grande que recuperou a força e avançou para o
inimigo.
A raiva cessou, os dedos que feriam a
palma descerraram-se – e Fabiano estacou desajeitado, como um pato,
o corpo amolecido.
Grudando-se à catingueira, o soldado
apresentava apenas um braço, uma perna e um pedaço da cara, mas
esta banda de homem começava a crescer aos olhos do vaqueiro. E a
outra parte, a que estava escondida, devia ser maior. Fabiano tentou
afastar a ideia absurda: – Como a gente pensa coisas bestas!
Alguns minutos antes não pensava em
nada, mas agora suava frio e tinha lembranças insuportáveis. Era um
sujeito violento, de coração perto da goela. Não, era um cabra que
se arreliava algumas vezes – e quando isto acontecia, sempre se
dava mal. Naquela tarde, por exemplo, se não tivesse perdido a
paciência e xingado a mãe da autoridade, não teria dormido
na cadeia depois de aguentar zinco no lombo. Dois excomungados
tinham-lhe caído em cima, um ferro batera-lhe no peito, outro nas
costas, ele se arrastara tiritando como um frango molhado. Tudo
porque se esquentara e dissera uma palavra inconsideradamente. Falta
de criação. Tinha lá culpa? O sarapatel se formara, o cabo abrira
caminho entre os feirantes que se apertavam em redor: - “Toca pra
frente”. Depois surra e cadeia, por causa de uma tolice. Ele,
Fabiano, tinha sido provocado. Tinha ou não tinha? Salto de reiúna
em cima da alpercata. Impacientara-se e largara o palavrão. Natural,
xingar a mãe de uma pessoa não vale nada, porque todo o mundo vê
logo que a gente não tem a intenção de maltratar ninguém. Um
ditério sem importância. O amarelo devia saber isso. Não sabia.
Saíra-se com quatro pedras na mão, apitara. E Fabiano comera da
banda podre. – “Desafasta”.
Deu um passo para a catingueira. Se
ele gritasse agora “desafasta”, que faria o polícia? Não se
afastaria, ficaria colado ao pé de pau. Uma lazeira, a gente podia
xingar a mãe dele. Masentão... Fabiano estirava o beiço e rosnava.
Aquela coisa arriada e achacada metia as pessoas na cadeia, dava-lhes
surra. Não entendia. Se fosse uma criatura de saúde e muque, estava
certo. Enfim apanhar do governo não é desfeita, e Fabiano até
sentiria orgulho ao recordar-se da aventura. Mas aquilo... Soltou uns
grunhidos. Porque motivo o governo aproveitava gente assim? Só se
ele tinha receio de empregar tipos direitos. Aquela cambada só
servia para morder as pessoas inofensivas. Ele, Fabiano, seria tão
ruim se andasse fardado? Iria pisar os pés dos trabalhadores e dar
pancada neles? Não iria.
Aproximou-se lento, fez uma volta,
achou-se em frente do polícia, que embasbacou, apoiado ao tronco, a
pistola e o punhal inúteis. Esperou que ele se mexesse. Era uma
lazeira, certamente, mas vestia farda e não ia ficar assim, os olhos
arregalados, os beiços brancos, os dentes chocalhando como bilros.
Ia bater o pé, gritar, levantar a espinha, plantar-lhe o salto da
reiúna em cima da alpercata. Desejava que ele fizesse isso. A ideia
de ter sido insultado, preso, moído por uma criatura mofina era
insuportável. Mirava-se naquela covardia, via-se mais lastimoso e
miserável que o outro.
Baixou a cabeça, coçou os pêlos
ruivos do queixo. Se o soldado não puxasse o facão, não gritasse,
ele, Fabiano, seria um vivente muito desgraçado.
Devia sujeitar-se àquela tremura,
àquela amarelidão? Era um bicho resistente, calejado. Tinha nervo,
queria brigar, metera-se em espalhafatos e saíra de crista
levantada. Recordou-se de lutas antigas, em danças com fêmea e
cachaça. Uma vez, de lambedeira em punho, espalhara a negrada. Aí
Sinha Vitória começara a gostar dele. Sempre fora reimoso. Iria
esfriando com a idade? Quantos anos teria? Ignorava, mas certamente
envelhecia e fraquejava. Se possuísse espelhos, veria rugas e
cabelos brancos. Arruinado, um caco. Não sentira a transformação,
mas estava-se acabando.
O suor umedeceu-lhe as mãos duras.
Então? Suando com medo de uma peste que se escondia tremendo? Não
era uma infelicidade grande, a maior das infelicidades? Provavelmente
não se esquentaria nunca mais, passaria o resto da vida assim mole e
ronceiro. Como a gente muda! Era. Estava mudado. Outro indivíduo,
muito diferente do Fabiano que levantava poeira nas salas de dança.
Um Fabiano bom para aguentar facão no lombo e dormir na cadeira.
Virou a cara, enxergou o facão de
rasto. Aquilo nem era facão, não servia para nada. Ora não servia!
– Quem disse que não servia?
Era um facão verdadeiro, sim senhor,
movera-se como um raio cortando palmas de quipá. E estivera a pique
de rachar o quengo de um sem-vergonha. Agora dormia na bainha rota,
era um troço inútil, mas tinha sido uma arma. Se aquela coisa
tivesse durado mais um segundo, o polícia estaria morto. Imaginou-o
assim, caído, as pernas abertas, os bugalhos apavorados, um fio de
sangue empastando-lhe os cabelos, formando um riacho entre os seixos
da vereda. Muito bem! Ia arrastá-lo para dentro da catinga,
entregá-lo aos urubus. E não sentiria remorso. Dormiria com a
mulher, sossegado, na cama de varas. Depois gritaria aos meninos, que
precisavam criação. Era um homem, evidentemente.
Aprumou-se, fixou os olhos nos olhos
do polícia, que se desviaram. Um homem. Besteira pensar que ia ficar
murcho o resto da vida. Estava acabado? Não estava. Mas para que
suprimir aquele doente que bambeava e só queria ir para baixo?
Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira
e insultava os pobres! Não se inutilizava, não valia a pena
inutilizar-se. Guardava a sua força.
Vacilou e coçou a testa. Havia muitos
bichinhos assim ruins, havia um horror de bichinhos assim fracos e
ruins.
Afastou-se, inquieto. Vendo-o
acanalhado e ordeiro, o soldado ganhou coragem, avançou, pisou
firme, perguntou o caminho. E Fabiano tirou o chapéu de couro.
– Governo é governo.
Tirou o chapéu de couro, curvou-se e
ensinou o caminho ao soldado amarelo.
Graciliano Ramos, em Vidas
Secas

Nenhum comentário:
Postar um comentário