15/09/2025

O Apanhador no Campo de Centeio


19

Quem mora em Nova York sabe que o Bar Wicker funciona no Hotel Seton, um hotel metido a grã-fino. Eu costumava ir muito lá, mas agora parei de ir. Fui deixando aos pouquinhos. É um desses lugares considerados muito sofisticados e tudo, e tinha cretinos aos montes. Havia duas belezocas francesas, Tina e Janine, que tocavam piano e cantavam umas três vezes por noite. Uma delas tocava piano – mal pra burro – e a outra cantava, e a maioria das canções ou eram um bocado indecentes ou eram em francês. A que cantava, a tal de Janine, cochichava sempre na droga do microfone antes de começar a cantar:
Agorra vamos lhes oferrecerr uma pequena amostrra do jeitinho frrancês. É a histórria de uma frrancesinha que vem parra uma cidade grrande, assim como Nova York, e se apaixona porr um rapazinho de Brronklyn. Esperramos que vocês aprreciem.
Aí, quando ela acabava de cochichar e de ser engraçadinha pra diabo, cantava uma canção boba, meio em inglês e meio em francês, e deixava completamente alucinados todos os cretinos que lotavam a casa. Se a gente ficasse um pouco por lá e ouvisse todos os cretinos aplaudindo e tudo, tinha que acabar odiando todo mundo que existe na terra, juro que tinha. O barman também era uma besta. Um esnobe tremendo. Só falava com a gente se fosse um cara importante pra burro, ou uma celebridade, ou coisa parecida. E se a gente fosse um cara importante ou uma celebridade ou coisa parecida, aí ele era ainda mais nojento. Ia até onde a gente estava e dizia, com um daqueles sorrisos encantadores, como se ele fosse um cara fabuloso, para os conhecidos dele: "Então! Como vão as coisas em Connecticut?" ou então "Como vai a Flórida?". Era um lugar horrível, fora de brincadeira. Aos pouquinhos fui deixando de ir lá completamente.
Cheguei lá muito cedo, me sentei no bar - estava entupido de gente – e tomei uns dois uísques enquanto esperava o Luce. Fiquei em pé na hora de pedir os uísques, para eles verem meu tamanho e tudo, e não pensarem que eu era menor de idade. Aí fiquei espiando os cretinos. Um cara perto de mim estava dando a maior cantada na garota que estava com ele, dizendo que ela tinha mãos aristocráticas. Me esbaldei. Do outro lado do bar, só tinha veado. Até que não eram muito afrescalhados – quer dizer, não usavam os cabelos muito compridos nem nada – mas estava na cara que eram veados. Até que afinal o Luce apareceu.
O Luce velho de guerra. Que sujeito! Foi indicado para ser o meu conselheiro no Whooton. Mas a única coisa que fez o tempo todo, foi fazer conferências sobre sexo, altas horas da noite, quando uma turma grande se reunia no quarto dele. Entendia um bocado de sexo, principalmente de tarados e esse negócio todo. Estava sempre contando a estória de uns camaradas perturbados que tinham casos com ovelhas, e outros que andam com calcinhas de mulher costuradas no forro dos chapéus e tudo. E veados, e lésbicas. O safado do Luce conhecia todos os veados e lésbicas em atividade no território dos Estados Unidos. Bastava a gente dizer um nome – qualquer nome – e o Luce dizia se era veado ou não. Às vezes era difícil acreditar nas pessoas que ele dizia que eram veados e mulher macho e tudo, artistas de cinema e coisas assim. Alguns caras que ele dizia que eram veados eram até casados, pomba. A gente dizia para ele: "Quer dizer que o Joe Blow é veado? O Joe Blow? Aquele cara grandalhão e machão, que faz sempre o papel de gangster e de cowboy?" E o Luce respondia: "Lógico". Ele vivia falando "Lógico". Dizia que não tinha a menor importância o fato dum cara ser casado ou não, e que a metade dos sujeitos casados, no mundo inteiro, eram veados sem saber. Dizia que a gente podia virar fresco da noite pro dia, se tivesse as características e tudo. Deixava a gente apavorado. Eu ficava esperando virar veado ou coisa parecida. O engraçado no Luce é que eu achava ele próprio meio afrescalhado.
Por exemplo, vivia dizendo: "Experimenta desse tamanho", e mexia com a gente quando encontrava no corredor. E, toda vez que íamos ao banheiro, ele sempre deixava a droga da porta aberta e ficava conversando, enquanto a gente escovava os dentes ou coisa que o valha. Esse tipo de negócio é meio aveadado. É mesmo. Conheci uma porção de veados de verdade, nos colégios e tudo, e eles estão sempre fazendo uns troços assim, e é por isso que sempre tive minhas dúvidas sobre o Luce. Mas era um cara um bocado inteligente. Era mesmo.
Ele nunca dizia "Como vai" ou coisa parecida quando encontrava com a gente. A primeira coisa que ele disse, assim que se sentou, foi que só podia ficar uns dois minutos. Disse que tinha um encontro. Aí pediu um martini seco. Mandou o barman fazer o troço bem seco mesmo, e sem azeitona.
Êi, tenho um veado pra você – falei. – Lá no fim do bar. Não olha agora. Guardei ele pra você.
Muito engraçadinho – ele disse. – O mesmo Caulfield de sempre. Quando é que você vai crescer, hem?
Eu o chateava pra burro. Chateava mesmo. Mas ele me divertia. Era um desses camaradas que me divertem um bocado.
Como vai tua vida sexual? – perguntei. Ele detestava que a gente perguntasse uns troços assim.
Calma – ele falou. – Puxa, senta bonitinho e fica calmo.
Estou calmo – respondi. – Como vai a Columbia? Tá gostando de lá?
Lógico que gosto. Se não gostasse não teria ido estudar lá – respondeu. De vez em quando ele também sabia ser chato.
Em quê que você vai se especializar? Tarados?
Eu estava só fazendo hora.
E você, está tentando o quê? Ser engraçado – Não. Estou só brincando – respondi. – Escuta aqui, Luce. Você é um desses caras intelectuais. Preciso de seu conselho. Estou numa atrapalhada...
Escute, Caulfield – ele falou, e parecia mais um gemido. – Se você quer se sentar aqui para uns drinques quieto e tranquilo, e uma conversa quieta e tran...
Está bem. Está bem – falei. – Calminha.
Estava na cara que ele não queria discutir nada sério comigo. É isso que me chateia nesses caras intelectuais. Não querem nunca discutir troços sérios, a não ser quando eles estão com vontade. Por isso, puxei uma conversa sobre assuntos gerais.
Sem brincadeira, como vai a tua vida sexual? - perguntei. - Você ainda continua com aquele broto dos tempos do Whooton? Aquela com uma tremenda...
Puxa vida, lógico que não.
Por quê? Quê que houve com ela?
Não tenho a menor ideia. Já que você pergunta, pelo que sei, nessas alturas ela deve ser a Puta de New Hampshire.
Não fica nada bem você falar um troço desses. Se ela foi bastante legal para te deixar tirar casquinha dela quando queria, você pelo menos não devia falar assim dela.
Ora, faça-me o favor! Será que vamos ter uma típica conversa à la Caulfield? Quero saber, agorinha mesmo.
Não – respondi. – Mas, de qualquer modo, não fica nada bem. Se ela foi bastante legal e boazinha a ponto de deixar você...
Será que nós vamos ter de manter esse abominável tipo de conversa?
Não falei nada. Fiquei com medo que ele se levantasse e fosse embora se eu não calasse a boca. Em vez de falar, pedi mais um uísque. Estava com vontade de tomar um pileque homérico.
Com quem você está andando agora? Se é que você quer me contar...
Não é ninguém que você conheça.
Sei, mas quem é? Talvez eu conheça.
Uma pequena que mora no Village. Escultora, já que você precisa saber.
É mesmo? Sério? Quantos anos ela tem?
Ah, pelo amor de Deus, nunca perguntei isso a ela.
Mas que idade você calcula?
Acho que pelos trinta e muitos.
Trinta e muitos? É mesmo? E você tá gostando? Gosta de mulher dessa idade?
Fiz essa pergunta porque ele entendia mesmo um bocado de sexo. Era um dos poucos sujeitos que eu conheço que entende pra valer do troço. Ele perdeu a virgindade quando tinha só quatorze anos, em Nantucket. Verdade mesmo.
Gosto de pessoas maduras, se é isso que você quer saber. Lógico.
Gosta mesmo? Por quê? No duro, são melhores para esse troço de sexo e tudo?
Escuta. Vamos deixar uma coisa bem clara. Me recuso a responder qualquer pergunta do tipo Caulfield. Que droga, quando é que você vai crescer?
Fiquei algum tempo calado. Deixei o assunto um pouco de lado. Aí o Luce pediu outro martini e mandou o barman preparar ainda mais seco.
Escuta, há quanto tempo você anda com essa pequena, a escultora? – perguntei. Estava mesmo interessado. – Você já conhecia ela quando estava no Whooton?
Era difícil. Ela chegou aos Estados Unidos há alguns meses apenas.
É mesmo? De onde é que ela é?
Acontece que ela é de Xangai.
Sério? Ela é chinesa? No duro, mesmo?
Lógico.
Não brinca. Você gosta disso? Dela ser chinesa?
Claro.
Por quê? Gostaria de saber... Gostaria mesmo.
Já que você pergunta, acontece simplesmente que eu acho filosofia oriental mais satisfatória do que a ocidental.
Acha mesmo? O quê que você quer dizer com filosofia? Sexo e tudo? Você acha que é melhor na China? É isso que você quer dizer?
Não necessariamente na China, pôxa. Eu disse oriental. Será que precisamos mesmo continuar com essa conversa inútil?
Escuta, tou falando sério – eu disse. – Sem brincadeira. Por quê que é melhor no Oriente?
Olha, o negócio é muito complicado para se entrar nele assim de repente – respondeu. – Acontece simplesmente que eles consideram o sexo como uma experiência ao mesmo tempo física e espiritual. Se você pensa que eu...
Eu também! Eu também considero o sexo como uma... como-é-mesmo?... uma experiência ao mesmo tempo física e espiritual. Considero mesmo. Mas depende da droga da pessoa com quem eu estou fazendo o troço. Se é com alguém que nem...
Fala mais baixo, por favor, Caulfield. Se você não consegue falar baixo, vamos mudar de...
Tá bem, mas escuta – falei. Eu estava ficando excitado e estava mesmo falando um pouco alto. Às vezes falo um pouco alto quando fico excitado. – Mas o que estou querendo dizer é o seguinte, sei que deve ser físico e espiritual, e artístico e tudo. Mas o negócio é que a gente não pode fazer o troço com todo mundo – toda garota com quem a gente se esfrega e tudo – e conseguir esse resultado. Você consegue?
Vamos mudar de assunto – ele disse. – Você se importa?
Está bem, mas escuta. Pega por exemplo o teu caso com essa pequena chinesa. O quê que é tão bom entre vocês dois?
Chega, já falei.
Concordo que estava começando a me intrometer muito na vida dele. Mas isso era uma das coisas irritantes no Luce. Quando estávamos no Whooton, ele exigia uma descrição dos troços mais íntimos que tinham acontecido com a gente, mas, se a gente começava a fazer perguntas sobre ele, aí ficava aborrecido. Esses camaradas intelectuais não gostam de ter uma conversa intelectual com ninguém, a não ser que estejam controlando a coisa toda. Querem sempre que a gente se cale quando eles se calam, e volte para o quarto quando eles voltam para os quartos deles. No Whooton, o Luce ficava uma fera - a gente via logo que ficava - quando ele acabava mais uma de suas conferências sobre sexo para um bando de caras no quarto dele, e nós ainda resolvíamos esticar o papo mais um pouco. Quer dizer, eu e alguns colegas. No quarto de outra pessoa. O Luce ficava tinindo de raiva. Queria que todo mundo voltasse para seus próprios quartos e calasse a boca depois que ele acabava de deitar falação. Ele tinha era medo de que alguém dissesse alguma coisa mais inteligente do que ele. Ele me divertia um bocado.
Acho que vou para a China. Minha vida sexual é uma porcaria – falei.
Naturalmente. Sua mente é imatura.
É. É mesmo. Sei que é – falei. – Sabe qual é o problema comigo? Não consigo nunca ficar excitado – excitado mesmo – com uma garota de quem eu não goste muito. Você entende, tenho que gostar dela um bocado. Se não gosto, perco a droga do desejo por ela e tudo. Puxa, isso arrasa com a minha vida sexual. Minha vida sexual é um nojo.
Naturalmente que é, ora essa. Da última vez que estivemos juntos eu te disse o que é que você precisa.
Aquele troço de ir a um psicanalista e tudo? – perguntei. Era isso que ele tinha dito que eu precisava. O pai dele era psicanalista.
O problema é teu, essa é boa. Não tenho nada a ver com o que você vai fazer da tua vida.
Fiquei sem dizer nada durante algum tempo. Estava pensando.
Suponhamos que eu fosse falar com o teu pai e ele me psicanalisasse e tudo. Como é que ia ser? Quer dizer, o que é que ele ia fazer comigo?
Não ia fazer nada com você. Apenas ia falar com você, e você ia falar com ele. Uma coisa é certa, ele ia te ajudar a reconhecer teus padrões mentais.
Reconhecer o quê?
Teus padrões mentais. A mente humana funciona... Escuta. Não vou te dar nenhum curso de psicanálise elementar. Se você está interessado, telefona para ele e marca uma consulta. Se não está, não telefona. Francamente, a mim pouco me importa.
Pus a mão no ombro dele. Puxa, ele me divertia.
Você é um sacana um bocado simpático – falei. – Você sabe disso?
Ele estava olhando o relógio.
Tenho que me arrancar – ele disse, e se levantou. – Foi um prazer te encontrar.
Chamou o barman e pediu a conta.
Escuta – perguntei antes dele ir embora – teu pai já te psicanalisou?
A mim? Por que é que você quer saber?
Por nada. Só pra saber. Ele já fez psicanálise em você?
Psicanálise, propriamente, não. Ele me ajudou a me ajustar, até certo ponto, mas não foi preciso uma psicanálise completa. Por quê que você perguntou isso?
Por nada. Estava só pensando.
Tá bom. Te cuida – ele disse.
Deixou a gorjeta e tudo, e já ia saindo.
Toma mais um drinque – falei. – Faz favor. Estou me sentindo sozinho pra diabo. Sem brincadeira.
Mas ele disse que não podia ficar. Disse que estava atrasado e foi embora.
O safado do Luce. Pra falar a verdade, ele me enchia o saco, mas tinha realmente um bom vocabulário. Quando estávamos no Whooton, o Luce era o sujeito que tinha o maior vocabulário. Foi o primeiro colocado num teste que houve.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

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