[…]
Não era na Rama-de-Ouro ― era na
Aroeirinha. Mas, por que era que ele falava no nome de Nhorinhá, com
tão cravável lembrança? Ao crer, que soubesse mais do que eu mesmo
o que eu produzia no coração, o encoberto e o esquecido. Nhorinhá
― flôrzinha amarela do chão, que diz: ― Eu sou bonita!...
E tudo neste mundo podia ser beleza, mas Diadorim escolhia era o
ódio. Por isso era que eu gostava dele em paz? No não: gostava por
destino, fosse do antigo do ser, donde vem a conta dos prazeres e
sofrimentos. Igual gostava de Nhorinhá ― a sem mesquinhice, para
todos formosa, de saia cor-de-limão, prostitutriz. Só que, de que
gostava de Nhorinhá, eu ainda não sabia, filha de Ana Duzuza. O
senhor estude: o buriti é das margens, ele cai seus cocos na vereda
― as águas levam ― em beiras, o coquinho as águas mesmas
replantam; daí o buritizal, de um lado e do outro se alinhando,
acompanhando, que nem que por um cálculo.
― ...Você se casa, Riobaldo, com a
moça da Santa Catarina. Vocês vão casar, sei de mim, se sei; ela é
bonita, reconheço, gentil moça paçã, peço a Deus que ela te
tenha sempre muito amor... Estou vendo vocês dois juntos, tão
juntos, prendido nos cabelos dela um botão de bogari. Ah, o que as
mulheres tanto se vestem: camisa de cassa branca, com muitas
rendas... A noiva, com o alvo véu de filó...
Diadorim mesmo repassava carinho
naquela fala. Melar mel de flôr. E me embebia ― o que estava me
ensinando a gostar da minha Otacília. Era? Agora falava devagarinho,
se sonsom, feito se imaginasse sempre, a si mesmo uma estória
recontasse. Altas borboletas num desvoejar. Comoe eu nem estivesse
ali ao pé. Ele falava de Otacília. Dela vivendo o razoável de cada
dia, no estar. Otacília penteando compridos cabelos e perfumando com
óleo de sete-amores, para que minhas mãos gostassem deles mais. E
Otacília tomando conta da casa, de nossos filhos, que decerto íamos
ter. Otacília no quarto, rezando ajoelhada diante de imagem, e já
aprontada para a noite, em camisola fina de ló. Otacília indo por
meu braço às festas da cidade, vaidosa de se feliz e de tudo, em
seu vestido novo de molmol. Ao tanto, deusdadamente ele discorresse.
De meu juízo eu perdi o que tinha sido o começo da nossa discussão,
agora só ficava ouvinte, descambava numa sonhice. Com o coração
que batia ligeiro como o de um passarinho pombo. Mas me lembro que no
desamparo repentino de Diadorim sucedia uma estranhez ― alguma
causa que ele até de si guardava, e que eu não podia inteligir. Uma
tristeza meiga, muito definitiva. No tempo, não apareci no meio
daquilo. Assim foi que foi. Até que vieram uns companheiros, com
João Concliz, Sidurino e João Vaqueiro, que ajuntaram lenhas e
armaram um fogo bem debaixo do paratudo. Ao relançar das labaredas,
e o refreixo das cores dando lá acima nos galhos e folhas, essas
trocavam tantos brilhos e rebrilhos, de dourado, vermelhos e
alaranjado às brasas, essas esplendências, com mais realce que
todas as pedras de Arassuaí, do Jequitinhonha e da Diamantina. Era
dia-de-anos daquela árvore? Ao quando bem anoiteceu, foi assim. A
gente só sabe bem aquilo que não entende.
O senhor veja! eu, de Diadorim, hoje
em dia, eu queria recordar muito mais coisas, que valessem, do
esquisito e do trivial; mas não posso. Coisas que se deitaram,
esqueci fora do rendimento. O que renovar e ter eu não consigo, modo
nenhum. Acho que é porque ele estava sempre tão perto demais de
mim, e eu gostava demais dele.
Na surgida manhã, saímos, para a
parte final da caminhada. Zé Bebelo, certa hora, me chamou. Inda que
avante, Zé Bebelo mesmo devia de estar curtindo más e piores! fio
que ele amargava a vitória que tinha inventado. Noção dos inimigos
nossos, que, seja lá por onde, puxavam posse de sua munição e de
suas montadas e cargas, socorridos de tudo quanto careciam. ― Um
Hermógenes quer tomar conta do sertão dos Gerais... ― eu
tirei liberdade para dizer. Mesmo mais indiretas disse; e isso me
realiviou, no dizer, pouco somente, que era só por picardia. Direto,
disso, Zé Bebelo não me respondeu; ele pensava as mil coisas. Em
tanto, nesses cálculos de meditação, ele ligeiro sobre-zumbia com
os beiços, e balangava às esquerdas-e-direitas as abas enfunadas do
chapéu; e às vezes assoprava sem ser por cansaço de marcha. O que
das ideias sobrava, era que ele referia: ― Ainda não entendo...
Ainda não entendo... Até agora, reconheço, ele tem tido uma
sorte... Sapo sem-colarinho, rei-gordo... Mas, deixa a gente ir e
vir, que os ovos e dúzias ele paga!... Do Hermógenes discursava ―
orçamento do Hermógenes. E, de ouvir que a sorte do Hermógenes
existia alta, isso me penou, tanto me certificava. Aí fiquei a
menos. Nem eu não queria arreliar Zé Bebelo. Mas, para mim, ele
estava muito errado: pelos passos e movimentos, porque gostava
prático da guerra, do que provava um muito forte prazer; e por isso
não tinha boa razão para um resultado final. Assim achei, espiando
o alto céu, que é com as nuvens e os urubús repartido. Deponho: de
que é que aquilo me adiantava? E chuvas dadas, derramadas. Aí, vai,
chegamos no Currais-do-Padre.
O lugar que não tinha curral nenhum,
nem padre: só o buritizal, com um morador. Mas o ao em redor, em
grandes pastos, era o capim melhor milagroso ― que o que deixava de
ser provisório rico era o meloso de muito óleo, a não ver uns fios
do santa-luzia azul, e do duro-do-brejo, nas baixadas, e, nos altos
com pedregal, o jasmim-da-serra. De lá vinham saindo renascidos,
engordados, os nossos cavalos, isto é, os que tinham sido de Medeiro
Vaz, e que agora herdávamos. Regozijei. Escolhi um, animal vistoso,
celheado, acastanhado murzelo, que bem me pareceu; e dei em erro,
porque ele era meio sendeiro e historiento. Daqui veio que o nome que
teve foi de Padrim Selorico. Mas o dono do sítio, que não sabia ler
nem escrever, assim mesmo possuía um livro, capeado em couro, que se
chamava o Senclér das Ilhas, e que pedi para deletrear nos
meus descansos. Foi o primeiro desses que encontrei, de romance,
porque antes eu só tinha conhecido livros de estudo. Nele achei
outras verdades, muito extraordinárias.
Além de que, tudo o que eu tivesse de
resolver, de minha vida, fui deixando para os seguintes. Dia de ser
de chuva, que madrugou tarde! boi nos cinzentos. E os pássaros de
passagem precisavam de gritar muito uns para os outros. Diadorim
moderava o falar comigo, e me ver, recolhido em certo vexame,
receoso; eu achei. Já disse ao senhor? ― dia a dia ele raiava, em
formosura. E chuva alta, que envinha, estava mandando urubú voar
para casa. Os cavalos pastavam com mais pressa. Nunca, em todos meus
tempos, eu vi inverno tamanho demorado. Era para espera. Mesmo assim,
Zé Bebelo pôs ordem de se ir. Porque estávamos quase todos
montados em pêlo, carecíamos de tocar para o Curral Caetano, onde
se tinha quantidade grande de arreios guardados. Depois, daí, para
buscar munição, na Virgem-Mãe. Prazo não se perdia. Aos caminhos
barrancosos, de sopega, feito torrão de açúcar preto se
derretendo, empapados. Aos barros fomos, como perdidas criaturas, de
se rir, se chorar. E ― mas o senhor sabe o que isso é? ― aqueles
nossos cavalos não tinham ferraduras.
Pra mais onde? Ah, aonde os altos
bons! o Chapadão do Urucúia, em que tanto boi berra. Mas nunca
chegamos nem na Virgem-Mãe. Afiguro, desde o começo desconfiei de
que estávamos em engano. Rumos que eu menos sabia, no viável. Como
a serra que vinha vindo, enquanto para ela eu ia indo, em tantos
dias: longe lá, de repente os olhos da gente percebem um fio de
tremor ― se vê é um risquinho preto, que com léguas andadas vira
cinzento e vira azul ― daí, depois, parede de morro se faz. No
arquear dali, foi que se pegou o primeiro caminho achado, para se
passar. Bem baixamos. Os rios estavam sujos, em espumas. Não havendo
a ajuda de Joaquim Beijú, que estava dando para dela se sentir
falta. Zé Bebelo, em assarapanto, até os dedos da mão dele não
deixavam de se perpassar, contando rosário nas tiras da rédea. Que
andávamos desconhecidos no errado. Disso, tarde se soube ― quem
que guiava tinha enredado nomes: em vez da Virgem-Mãe, creu de se
levar tudo para a Virgem-da-Laje, logo lugar outro, vereda muito
longe para o sul, no sítio que tem engenho-de-pilões. Mas já era
tarde.
Trovoou truz, dava vento. E chuvas que
minha língua lambeu. Nelas mais não falo. Mas, quando estiou o
tempo, de vez, não sei se foi melhor: porque bateu de começo a fim
dos Gerais um calor terrível. Aí, quem sofreu e não morreu, ainda
se lembra dele. Esses meses do ar como que estavam desencontrados.
Doenças e doenças! Nosso pessoal, montão deles, pegou a mazelar.
Mas isto eu refiro depois. O senhor já que me ouviu até aqui, vá
ouvindo. Porque está chegando hora d eu ter que lhe contar as coisas
muito estranhas.
[...]
Graciliano Ramos, em Grande Sertão: Veredas

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