Depois de Euzinha já nenhuma
esperança me restava. Eu voltava a Matimati sem Quintino. Perdida
estava a amizade. Voltava sem trazer Gaspar. Perdido estava o amor.
Farida não aceitaria a minha falta de promessa. E ela se afastaria
de mim, partiria para inalcançável longe.
Subi a escura rua da vila em direcção
à casa de Assane. Antoninho me recebeu às arrecuas como se visse um
fantasma fora do prazo. Tinha os braços envoltos em ligaduras.
Assane chegou à porta se arrastando na cadeira e, virando-se para o
ajudante, perguntou:
— Já lhe deu a novidade?
— Que se passa? Que aconteceu com
Farida?
Assane se moveu em minha direcção.
Subiu-se na cadeira, esforçado para me dar um conforto, seu braço
me laçando o ombro.
— Não vale a pena você voltar
lá.
— Não vale a pena?
— Farida já não te espera.
— Como: vieram-lhe buscar?
— De certa maneira...
— Como de certa maneira?
— Se acalma, Kindzu. Lhe vamos
contar.
Se passara de maneira confusa. Por
ordem de Assane, Antoninho se metera numa canoa e se dirigira ao
barco naufragado. Quando encontrou Farida ele se exclamou. A mulher
estava uma rodilha, só quase se lhe viam os olhos. O enviado se
chegou com modos sossegados e se apresentou em sua função de
amizade. Farida quis saber novidades de Kindzu. Disse que a demora já
era demasiada. A procura do filho não iria resultar. A terra é
imensa, a guerra é maior ainda.
— Nunca lhe hão-de encontrar!
Então, com determinação, ela disse:
não posso adiar mais. Vês aquele farol, apontou ela por
entre o poente. Tenho que fazer com que aquele farol funcione.
Antoninho se dispôs a ajudar. Ela anunciou: iria lá acender aquelas
luzes, reparar a escuridão. Aquelas luzes haveriam de guiar navios
que a viriam tirar dali. O outro ficaria no navio naufragado vigiando
se alguém chegava. Farida partiu na embarcação de Antoninho. Ele
ainda a viu chegar ao pequeno ilhéu e entrar no farol. Ficou lá um
tempo, saiu, voltou a entrar, carregando uns velhos bidões. De
repente, a torre se sacudiu em imensa explosão. Labaredas escaparam
como sôfregas línguas do edifício. Toda a ilha ficou ardendo.
— Não é possível, Farida não
morreu! Eu vou lá a esse farol, amanhã mesmo...
— Não vale a pena, Antoninho
confirmou.
— Não confio neste sacana. Se
calhar foi ele mesmo quem tramou a morte dela...
Virei costas e me retirei, brusco,
corredor afora. Dentro do quarto de Surendra fiquei em espanto. Não
chorava. Mas um tremendo cansaço me sufocava o peito. Assane entrou
no quarto, suas rodas chiaram no escuro.
— Kindzu, você foi injusto com
esse miúdo.
— Com Antoninho? Eu lhe conheço
muito bem.
— Mas, desta vez, se enganou. Eu
posso testemunhar quanto o moço sofreu.
Assane me garantia. Antoninho tinha
ido, em outro pequeno bote, tentar ajudar a mulher que eu amava.
Entrara no incêndio com desprezo de sua própria vida. Seus braços
arderam como tochas, quase os perdera para sempre.
— Antoninho, agora, lhe respeita.
Acredite, Kindzu.
A tristeza me enchia tanto que eu
deitei de parte a desconfiança. Admiti ter errado. Sem convicção
pedi a Assane que me desculpasse perante Antoninho.
— Assane, eu preciso sair daqui.
— Calha bem, meu amigo. Amanhã
mesmo sai o primeiro machimbombo de nossa empresa.
Fingi nem reparar. Nossa empresa?
Então, o negócio já se expandira? Afinal, em guerra se pode
prosperar mais rápido que em normais tempos de paz. Levantei outra,
mais leve, dúvida:
— Já se pode circular na
estrada?
— Não temos certeza. Vamos
tentar.
— Está certo. Amanhã eu embarco
nesse machimbombo. Me deixe agora, estou de mais cansado.
Eu queria ficar absolutamente só.
Sentia na versão de Assane um sabor de falso. O paralítico estava
agora unido com o administrador, lhe prestaria serviço apenas para
encomendar simpatias. A morte de Farida seria um desses serviços.
Antoninho seria um perfeito servente.
Durante toda a noite dormi um sonho,
com sabores de autêntico. Enquanto adormecia mil perguntas me
continuavam a agitar. E se não tivessem assassinado Farida, através
da mão suja de Antoninho? Se o moço se tivesse realmente arriscado
para a salvar? Nunca mais eu saberia o certo. No dia seguinte eu
estaria de retorno à minha aldeia. Há quanto tempo eu tinha saído?
O que acontecera, entretanto, a minha mãe, grávida de um impossível
filho? E Junhito: será que cocoricava ainda pelos prados?
Agora era como se esses fantasmas
trabalhassem em minha cabeça para me transmitirem seus segredos,
revelações de um outro mundo. Vou relatar o último sonho a ver se
me livro do peso de terríveis lembranças. Não quero que tais
pensamentos me regressem. Preciso dormir, totalmente dormir, me
emigrar deste corpo cheio de esperas e sofrências. Preciso descansar
de suspeitas, esfriar meu desejo de vingança. Amanhã apanho o
autocarro para regressar a minha aldeia. Não quero lembrar nada, nem
Farida, nem Carolinda, nem Quintino, nem ninguém. O que queria mesmo
era ir mar adentro, como Assma, empurrado num barquinho sem destino.
Ou fazer como minha mãe me ensinou: ser a mais delicada sombra. É
isso que desejo: me apagar, perder voz, desexistir. Ainda bem que
escrevi, passo por passo, esta minha viagem. Assim escritas estas
lembranças ficam presas no papel, bem longe de mim. Este é o último
caderno. Depois, arrumo tudo na mala que me deu Surendra. No final,
Surendra é o único de quem eu aceito companhia. O indiano mais sua
nação sonhada: o oceano sem nenhum fim.
Me falta, pois, trazer o que essa
noite viajou em minha cabeça. Me falta soltar o último peso que me
impede ser sombra. Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava
descendo um vale molhado de tanta de luz, cheio de manhã. Aquela
parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua
própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais
pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam
incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de
pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de
centenas. Foram-me enchendo o sono. À frente seguia o feiticeiro da
minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos
poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele
dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima
decisão de criar um outro dia.
— É aqui mesmo!, disse.
Escolhia o caminho parecendo procurar
o centro de uma invisível paisagem. Atrás dele se arrastava a
multidão, rastejando como se suas vidas se alimentassem das pegadas
de seu guia. O feiticeiro subiu a um morro de muchém e contemplou a
planície. Ajeitou o chapéu feito de penas e enroscou melhor a
sarapilheira como se aquele calor lhe esfriasse os ossos. Então,
levantando o seu cajado sentenciou:
— Que morram as estradas, se
apaguem os caminhos e desabem as pontes!
Depois, começou o discurso, desfiando
palavras lentas, rasgando a voz de encontro ao vento:
— Chorais pelos dias de hoje?
Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso
que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o
presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis
vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz.
Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos
convertêsteis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta
guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país
de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos
tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos
pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Será
mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos
e esses patrões se servirão de vossos irmãos para vos dar castigo.
Ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão
as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. E aqueles que vos
deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete
da vossa própria destruição. E até os miseráveis serão donos do
vosso medo pois vivereis no reino da brutalidade. Terão que esperar
que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos
haverá medo da justiça. A terra se revolverá e os enterrados
assomarão à superfície para virem buscar as orelhas que lhes foram
decepadas. Outros procurarão seus narizes no vómito das hienas e
escavarão nas lixeiras para resgatarem seus antigos órgãos. E
há-de vir um vento que arrastará os astros pelos céus e a noite se
tornará pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas
cabeças. As areias se voltearão em remoinhos furiosos pelos ares e
os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm
nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas,
secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres
mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco
imenso tornará a terra oca e desventrada. No final, porém, restará
uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutará uma voz
longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E
surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da
primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz
profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dará a
força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres
sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o
ingénuo entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos
capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos
morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em
que esta guerra nos converteu.
O feiticeiro se calou, extenuado. A
sarapilheira estava ensopada de suor. Voltando a levantar o cajado
sobre a cabeça ele ainda voltou a falar. Mas se pronunciou em
palavras de nenhuma língua. As gentes seguiam o restante discurso à
cata de alguma compreensão. Então, o nganga se calou, ergueu uma
cabaça e verteu um líquido sobre os ombros. Depois, desceu o morro
e fez pingar a cabaça sobre cada um dos presentes. Então se deu o
mais extraordinário dos fenómenos e todos os presentes tombaram no
chão, agitando-se em espasmos e berros, e se seguiu uma orgia de
convulsões, babas e espumas e, um por um, todos foram perdendo as
humanas dimensões. Penugens e escamas, garras e bicos, caudas e
cristas se espalharam pelos corpos e todo aquele plenário de gente
se transfigurou em bicharada. A fala foi a última coisa a ser
convertida e, durante um tempo, se escutaram espantos e gritos
humanos proferidos pelas mais irracionais bestas. Aos poucos, porém,
também o verbo se perdeu e a bicharada, em desordem, se espalhou
pelos matos.
Tombado de joelhos perante tais
visões, eu olhei as próprias mãos para me confirmar humano.
Retirei as vestes e apalpei minhas velhas formas. Com cautela,
tossiquei para me certificar da voz. A medo fui emitindo palavras
simples, depois frases sem nexo. Não havia dúvida: eu me mantinha
completamente gente, habitando o corpo que sempre fora o meu.
Então, por entre as brumas do
sonhado, vi um galo se aproximando. Era Junhito, quase eu ia jurar.
Porque no inverso dos outros, ele se humanizava, lhe caíam penas,
cristas e esporões. Me olhou ainda semibicho. Seus olhos me pediam
qualquer coisa, nem eu adivinhava. Que ajuda lhe podia dar, eu,
simples sonhador? O que sucedeu, seguidamente, foi que surgiram o
colono Romão Pinto junto com o administrador Estêvão, Shetani,
Assane, Antoninho e milicianos. Vinham armados e se dirigiram para
Junhito, com ganas de lhe depenar o pescoço. Cercaram o manito,
dizendo:
— Teu pai tinha razão: sempre te
viemos buscar.
Então, Junhito me chamou. Eu me
olhei, sem confiança. Mas o que em mim vi foi de dar surpresa, mesmo
em sonho: porque em meus braços se exibiam lenços e enfeites.
Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um
naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam
o meu irmão se extinguiram num fechar de olhos. Mas Junhito ainda
lutava para se desbichar, desembaraçar-se da condenação. Me veio à
ideia que ele precisava de um pouco de infância e cantei os embalos
de nossa mãe, sua última ponte com a família. Enquanto eu cantava
ele se foi vertendo todo gente, completamente Junhito. A seu lado,
como se chamada por meu canto, minha mãe apareceu segurando uma
criança em seu colo. Lhes chamei mas eles nem me pareciam ouvir.
Junhito colocou a mão aberta sobre o peito e depois fechou as duas
mãos em concha. Me agradecia. Acenei uma despedida e ele, segurando
minha mãe pelo braço, desapareceu nas infinitas folhagens.
Eu sentia que a noite chegava ao fim.
Qualquer coisa me dizia que me devia apressar antes que aquele sonho
se extinguisse. Porque me surgiam agora alucinadas visões de uma
estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma muito estranha picada:
não estava imóvel, esperando a viagem dos homens. Ela se deslocava,
seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me descaminhou. O destino
o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui sendo levado
sem conta nem tempo. Até que meu coração se apertou em sombrio
sobressalto. Me surgiu um machimbombo queimado. Estava derreado numa
berma, a dianteira espalmada de encontro a uma árvore. De repente, a
cabeça me estala em surdo baque. Parecia que o mundo inteiro
rebentava, fios de sangue se desalinhavam num fundo de luz muitíssimo
branca. Vacilo, vencido por súbito desfalecimento. Me apetece
deitar, me anichar na terra morna. Deixo cair ali a mala onde trago
os cadernos. Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de
meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da
estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos
estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com
sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito
sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse
por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um
vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se
espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão
convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se
vão transformando em páginas de terra.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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