17/08/2025

Diários do Exílio

I.
(27 de outubro de 1948)

Aqui os espinhos são tantos –
espinhos castanhos, espinhos amarelos,
ao longo de todo o dia, espinhos até no sono.

Ao saltarem o arame farpado, as noites
deixam para trás pequenas tiras da saia.

As palavras que outrora nos pareceram belas
perderam a cor, como o colete de um velho num baú,
como um pôr-do-sol embotado nas vidraças.

Aqui as pessoas caminham com as mãos nos bolsos
ou gesticulam por vezes como se afugentassem uma mosca
que pousa uma e outra vez no mesmo ponto
no rebordo do copo vazio ou dentro dele
um ponto tão indefinido e persistente
quanto sua recusa em reconhecê-lo.

Yannis Ritsos, em Diários do Exílio (tradução de José Luís Costa e Rui Miguel Ribeiro)

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