50.
Espaçado, um vaga-lume vai
sucedendo-se a si mesmo. Em torno, obscuro, o campo é uma grande
falta de ruído que cheira quase bem. A paz de tudo dói e pesa. Um
tédio informe afoga-me.
Poucas vezes vou ao campo, quase
nenhumas ali passo um dia, ou de um dia para outro. Mas hoje, que
este amigo, em cuja casa estou, me não deixou não aceitar o seu
convite, vim para aqui cheio de constrangimento — como um tímido
para uma festa grande —, cheguei aqui com alegria, gostei do ar e da
paisagem ampla, almocei e jantei bem, e agora, noite funda, no meu
quarto sem luz o lugar vago enche-me de angústia.
A janela do quarto onde dormirei deita
para o campo aberto, para um campo indefinido, que é todos os
campos, para a grande noite vagamente constelada onde uma aragem que
se não ouve se sente. Sentado à janela, contemplo com os sentidos
esta coisa nenhuma da vida universal que está lá fora. A hora
harmoniza-se numa sensação inquieta, desde a invisibilidade visível
de tudo até à madeira vagamente rugosa de ter estalado a tinta
velha do parapeito branquejante, onde está estendidamente apoiada de
lado a minha mão esquerda.
Quantas vezes, contudo, não anseio
visualmente por esta paz de onde quase fugiria agora, se fosse fácil
ou decente! Quantas vezes julgo crer — lá em baixo, entre as ruas
estreitas de casas altas — que a paz, a prosa, o definitivo
estariam antes aqui, entre as coisas naturais, que ali onde o pano de
mesa da civilização faz esquecer o pinho já pintado em que
assenta! E, agora, aqui, sentindo-me saudável, cansado a bem, estou
intranquilo, estou preso, estou saudoso.
Não sei se é a mim que acontece, se
a todos os que a civilização fez nascer segunda vez. Mas parece-me
que para mim, ou para os que sentem como eu, o artificial passou a
ser o natural, e é o natural que é estranho. Não digo bem: o
artificial não passou a ser o natural; o natural passou a ser
diferente. Dispenso e detesto veículos, dispenso e detesto os
produtos da ciência — telefones, telégrafos — que tornam a vida
fácil, ou os subprodutos da fantasia — gramofonógrafos, recetores
hertzianos — que, aos a quem divertem, a tornam divertida.
Nada disso me interessa, nada disso
desejo. Mas amo o Tejo porque há uma cidade grande à beira dele.
Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar de rua da Baixa. Nada o
campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da
cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de São Pedro de
Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido
variadíssimo de Lisboa.
A beleza de um corpo nu só a sentem
as raças vestidas. O pudor vale sobretudo para a sensualidade como o
obstáculo para a energia.
A artificialidade é a maneira de
gozar a naturalidade. O que gozei destes campos vastos, gozei-o
porque aqui não vivo. Não sente a liberdade quem nunca viveu
constrangido.
A civilização é uma educação de
natureza. O artificial é o caminho para uma apreciação do natural.
O que é preciso, porém, é que nunca
tomemos o artificial por natural.
É na harmonia entre o natural e o
artificial que consiste a naturalidade da alma humana superior.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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