A Gesse, minha mulher e minha amiga
E aos operários que ergueram a
casa
“onde antes só havia chão”.
Muito obrigado
Aí está, Amiga, a casa
Pronta, a porta aberta, a mesa
Posta: uma casa feita
De canções cantadas por todo o
Brasil
(Com abatimento pra estudantes). Aí
está ela
Amada, projetada sobre o oceano, e
cujo silêncio
É perturbado apenas pelo marulho
constante
Das ondas que espadanam rendas brancas
Nas negras rochas de Itapuã: “a
pedra que ronca”
Segundo a língua geral. Jamison Pedra
E Sílvio Robatto, os amigos
arquitetos
Ambos baianos de boa cepa, fizeram
Um belo trabalho, com as duas torres
laterais em hexágono
(Uma das quais é o teu solário) e os
dois telhados superpostos
Em rampa suave, apontando o mar. Uma
casa branca e brique
Com elementos azuis e nenhum
bric-à-brac: alvenaria
Telhas coloniais, madeira, couro e
vime só eles capazes
De resistir ao salitre que o vento
atira feroz
Contra os metais. Uma casa
De amplas varandas de lajota e muitas
redes
Para o teu entregar-se à doce brisa
atlântica
Que te enreda os cabelos: 400 m2 de
área construída
Bastantes, creio, para o teu gesto e a
tua dança
(E o teu invariável banzo das
segundas-feiras).
Elisinho Lisboa, o engenheiro, deu-lhe
Um perfeito acabamento, e Francisco, o
mestre-de-obras
E Jonas, o carpinteiro, foram seus
mais fiéis operários, comandando
Os alvanéis com grande zelo e
competência.
Uma casa Baiana, feita por baianos,
para abrigar
Tua baianice máxima, sonhada
Desde os idos cariocas, assim
A cavaleiro do mar e espraiada entre
coqueiros
Que à noite parecem entregar-se a
estranhas liturgias.
Construída em três níveis, tudo
nela
É madeira de lei, desde
As grandes vigas e barrotes que
sustentam o telhado em telha-vã do térreo e da varanda
E o destemeroso lance que sobe sem
corrimão
Ao pequeno jirau abalaustrado onde se
acha a mesa de comer:
E do qual partem também a bela escada
em degraus vazados
Que leva ao piso superior e os belos
vitrais
Com que mestre Calasans Neto pacificou
os interiores em íntimos tons crepusculares até o soalho de cima
(tirante os forros de vinhático)
Tudo é puro pau-d’arco
Que se faz cada dia mais fidalgo à
medida que sucessivas mãos de cera
Lhe vão dando lustro e espelho. Sim,
Amiga
Aqui nada pode o vento sul
Contra a densa integridade desses
átomos
E o salitre diverte-se apenas em
corroer velhos objetos
De ferro ou de latão: a antiga
máquina de costura
Que às vezes faz de bar, a grande
âncora carcomida
Que fixa a casa em seu jardim,
curiosos lustres, leves lamparinas
Compradas ao sabor de nossas viagens
Sobretudo a Ouro Preto; o mesmo vento
sul
Que tampouco permite que a paisagem de
coqueiros
(E outras poucas árvores, e plantas
resistentes ao sal e ao sol, e demais ventos)
Seja alterada pela mão do homem
Com arranjos vegetais, flores gentis e
outras pequenas
Frescuras da natureza.
No andar de cima, como no térreo,
todo
Aberto sobre as águas e as dunas de
Itapuã em amplas janelas
De vidro temperado, os quartos de
dormir
Convidam a fazer nada: e nada há de
ser feito, Amada, nesta casa
Contra o instinto. Aqui há de ser
sempre
Calções de banho, tangas e bermudas
Sandálias, pés descalços
Corpos cheirando a mar
De amigas e de amigos
Sorrisos claros, bocas satisfeitas
E a brisa sub-reptícia
Fazendo festa em úmidas axilas
Penetrando entre nádegas e seios.
Aqui, Amiga
Plantarei o meu sonho e a minha morte.
E no pequeno
Escritório que dá vista pro Farol
pintado em branco e ocre
Sentado à velha mesa espessa e
corrugada
Como eu, pela vida e pelo tempo
Os olhos pousados nos horizontes azuis
do mar-oceano
Conferente diário de auroras e
poentes indizíveis
De beleza e amplidão, eu seguirei
tentando
Descobrir como salvar o mundo, como
Justificar o homem, como romper os
pórticos da Poesia
Como tonitruar a Palavra
Capaz de sacudir o trono dos tiranos
E fazê-los rolar como antigas
estátuas depredadas pelas escadarias
Dos palácios: como estar sempre
Grávido de amor e de canções. E
vendo ao alvorecer
Os pescadores caminhando sobre o mar
com seus pés de jangada
Acenar-lhes meus votos de bom dia, bom
peixe
E bom regresso. E vinda a noite
Ir tomando de leve o meu porrinho
De modo a disfarçar essa grande
tristeza de saber
Que nada vai poder ser
Na minha vez e minha hora: saber que
cada gesto meu
Perde-se num infinito de gestos que já
eram
Apenas passado o seu instante; e por
vezes
Chorar afagando a cabeça de Meu, o
nosso amado terrier
E o dorso elástico de nossos gatos
siameses
Que vêm solidarizar-se, abanando o
rabo ou se roçando em minhas pernas
Como quem diz: “— Aguenta a barra
Amigo, a coisa é essa… O negócio é
amar muito
Com essa fidelidade que em nós,
caninos, é intrínseca
E em nós, felinos, voluntária,
dependendo, é claro
De bom trato e muita festa…”. E
ficar pensando
Que atrás de cada aurora se esconde
A face ansiosa da Vida e de cada
crepúsculo
A máscara irônica da Morte, ambas à
espreita
Ambas querendo cumprir a qualquer
custo
Os seus fatais desígnios. E depois
desses tolos pensamentos
E de induzir o sono em velhos filmes
de televisão, ir deitar-me
Com o sentimento da fragilidade, da
precariedade
Da inutilidade de tudo… até que uma
nova manhã
Me diga: Não! E então
Retomar o cotidiano, olhando o mar
Sem vê-lo, tentando adivinhar as
horas
Pela chegada e partida dos jatos,
antecipando
A alegria de ir visitar Auta Rosa e
Calasans, aí pelo meio-dia
Em sua casa da rua da Amoreira, e
mergulhar
Nas águas mornas de Itapuã, com
direito
A uma cerveja na barraca de Pombo ou
uma batida
Na de Galo; e de quando em quando,
desafiando o diabetes
Um Campari-soda no Língua de Prata,
acompanhado de lambretas
Pernas de siri ou camarões fritos no
azeite.
Sim, Amada, aí tens a tua casa
Feita de praia e mar e sol e ventos
E grandes céus azuis e dunas brancas
E imensos coqueirais e muito sonho
E muita solidão. Tu a decoraste
Com o melhor do teu gosto, tua graça
Tua altivez e tuas artimanhas
De índia. Aí está ela. Toma-a
É tua casa, simples e concreta
Tua, só tua, imensamente tua
Para que nela vivas sempre nua
Com teu céu, com teu mar, com tua lua
E o teu triste e amantíssimo Poeta.
Itapuã, 19/10/1974
Vinicius de Moraes, em Poemas esparsos
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