À
volta do machimbombo Muidinga quase já não reconhece nada. A
paisagem prossegue suas infatigáveis mudanças. Será que a terra,
ela sozinha, deambula em errâncias? De uma coisa Muidinga está
certo: não é o arruinado autocarro que se desloca. Outra certeza
ele tem: nem sempre a estrada se movimenta. Apenas de cada vez que
ele lê os cadernos de Kindzu. No dia seguinte à leitura, seus olhos
desembocam em outras visões.
Muidinga
já não reclama para passear pelas cercanias. Apenas Tuahir deseja
sair, se espraiar pelos matos. Seu pretexto é a água: é preciso ir
buscá-la, armazenar uma boa porção. Aconteceu nessa manhã mais
cedo que o habitual:
— Vamos!
— Eu
fico, tio.
— Nem
pense. Aqui ninguém fica. Se não quer me acompanhar então siga
noutra direcção. Mas aqui é que não fica.
Valia
a pena discutir? Muidinga se resigna, pois, a ir sozinho pelos
carreiros dos bichos. Tuahir segue em oposta direcção. Por onde
seguia o moço os capins se infindavam, num moçambique de verdes. Os
olhos de Muidinga se meninam a ver as árvores. Em redor, já nada
faz recordar a savana empobrecida. Agora a floresta floresce. Os
caminhitos com a guerra se desabituaram de servir. E os capins
ganharam confianças, cobrindo tudo. De repente, as árvores se
suspendem em clareira. Um campo se abre, de cultivos pobres: milho,
meixoeira, pouca mapira.
Muidinga
pára a olhar. Ali estava, mesmo que indigente, uma extensão da
vontade humana. Fica por instantes a inspirar aquele perfume da terra
lavrada até que escuta vozes, vindas do fundo da paisagem. Eram
mulheres que se aproximavam, cantando. Traziam ramos nas mãos e com
eles iam batendo no chão. Da terra se levantavam nuvens e talvez
fosse a poeira que não as deixava ver o miúdo. À frente, vem uma
velha, corcunda, esbafurada. Muidinga grita para que seja notado. Há
um alvoroço. Elas primeiro se alarmam, depois fazem uma roda,
bichanando. Muidinga vai chegando perto, curioso. Súbito, elas
correm para ele. O moço fica parado. Uma voz dentro o avisa:
— Foge,
Muidinga!
Mas
ele nem dá entendimento. Fugir de um grupo de tão avançadas
senhoras? As velhas já estavam junto, cercando-lhe. Gritam em língua
que ele desconhece, parecem dedicar-lhe azedos insultos.
A
mais velha se acerca e, com insuspeita força, lhe bate na cara.
Muidinga fica dominando fervuras, entre receio e rancor. O seu medo
estava preparado para as demais situações mas não para enfrentar
tão idosa e feminina violência. Uma por uma, todas as outras dão
um passo em frente e lhe atiram pancadarias. Lhe batem com paus,
ramos secos, lhe atiravam areia, pedras, torrões.
— Porquê
me batem, mães?
Mas
elas não entendem a sua língua. E desse desencontro se enchameia
mais a zanga daquela gente. Braços e pernas se cruzam na azáfama de
lhe golpejar, gritos e risos se enroscam na fúria de lhe ofender. O
miúdo se humilha, olhos prestes a se aguarem, indefeso como bicho
fora da toca.
— Não
me batam mais, por favor!
Então,
a mais velha se coloca de pernas abertas sobre seu corpo derrubado e,
num puxão, se desfaz da capulana. Aparecem as usadas carnes,
enrugadas até aos ossos, os seios pendentes como sacos mortos. Ela
grita, se lambe a si mesma, em inesperadas volúpias. Sobe a mão por
entre as pernas e se deixa cair sobre o rapaz. E se desata a esfregar
de encontro ao prostrado Muidinga, mais ciosa que ansiosa. As outras
acompanham xiculunguelando, palmando. Uma por uma, todas restantes
vão tirando as roupas, trapos e sacos com que se cobriam. Estão
nuas, dançando frenéticas à sua volta. A mais idosa dá mais
avanço a seus intentos, puxando as íntimas partes do rapaz,
abraçada como se lhe quisesse arrancar a alma. Muidinga nem se quer
inteirar da sucedência: estava a ser violentado, em flagrante abuso.
A primeira se sacia, abusa e lambuza. Depois, as outras se seguem,
num amontanhado de corpos, gorduras e pernas.
O
pobre moço nem sabe se perdeu o consenso ou se o mundo rodou mais
rápido que as mulheres endoidadas. Sabe apenas que está saindo de
um escuro e as luzes pirilampejam, abrindo soluços no céu. No
recorte da visão está Tuahir, lhe puxando para uma sombra.
— O
que aconteceu?, pergunta Muidinga.
Tuahir
sorri. E lhe explica com modos paternos. O que aconteceu foi que
aquelas mulheres estavam em sagrada cerimónia, afastando os
gafanhotos que assaltaram as plantações. Elas estavam a enxotá-los,
a esconjurar a maldição. A chegada de um intruso quebrou os
mandamentos da tradição. Nenhum homem pode assistir a esta
cerimónia. Nenhum, nunca.
— É
que esses não são gafanhotos próprios. São gafanhotos de alguém.
Tuahir
fala apontando os campos onde cardumes de gafanhotos, em nuventanias,
mastigavam o mundo. Aquele escasso verde desaparece dentada por
dentada.
— Vamos
para o machimbombo.
Muidinga
se deixa levar nos braços do velho. Lhe sabe bem aquele abandono, as
marcas dos brutais apertos lhe parecem nem existir. E é assim dorido
que Tuahir o deixa tombar no banco do velho machimbombo. O miúdo
geme enquanto o velho lhe aquece um chá.
— Vá,
beba. Fique forte que é para, mais logo, atacar aqueles caderninhos
que você sabe.
— Mas,
tio. Nem sei se vou conseguir.
— Consegue.
Leia como o velho Siqueleto, um olho aberto de cada turno.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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