[…]
Não
nas artes que produzia, mas no armar de falar assim ― ele era
razoável. Se riu, qual. Riu? Eu sendo água, me bebeu; eu sendo
capim, me pisou; e me ressoprou, eu sendo cinza. Ah, não! Então, eu
estava ali, em chão, em a-cú acôo de acuado?! Um rór de meu
sangue me esquentou as caras, o redor dos ouvidos, cachoeira, que
cantava pancada. Eu apertei o pé na alpercata, espremi as tábuas do
assoalho. Desconheci antes e depois ― uma decisão firme me
transtornava. E eu vi, fiquei sabendo: me queimassem em fogo, eu dava
muitas labaredas muito altas! Ah, dava. O senhor acha que menos acho?
Mais digo. Mais fiz. Antes veja, o que eu pensei ― o que seguinte
ia ser, e ficou formado um decreto de pedra pensada: que, na hora de
os soldados sobrechegarem, eu parava perto de Zé Bebelo; e que, ele
fizesse feição de trair, eu abocava nele o rifle, efetuava. Matava,
só uma vez. E, daí... Daí eu tomava o comandamento, o
competentemente ― eu mesmo! ― e represava a chefia, e forçando
os companheiros para a impossível salvação. Aquilo por amor do
rijo leal eu fazia, era capaz; pelo certo que a vida deve de ser.
Mesmo não gostando de ser chefe, descrendo do enfado de
responsabilidades. Mas fazia. Aí, pego a faca-punhal e o facão
grande... ― tornei a pensar. Até chegar a hora, eu não ia falar
disso com pessoa nenhuma, nem com Diadorim. Mas fazia, procedia. E eu
mesmo senti, a verdade duma coisa, forte, com a alegria que me
supriu: ― eu era Riobaldo, Riobaldo, Riobaldo! A quase que gritei
aquele este nome, meu coração alto gritou. Arre então, quando eu
experimentei os gumes dos meus dentes, e terminei de escrever o
derradeiro bilhete, eu estive todo tranquilizado e um só, e
insensato resolvido tanto, que mesmo acho que aquele, na minha vida,
foi o ponto e ponto e ponto. E entreguei o escrito a Zé Bebelo ―
minha mão não espargiu nenhum tremor. O que regeu em mim foi uma
coragem precisada, um desprezo de dizer; o que disse:
― O
senhor, chefe, o senhor é amigo dos soldados do Governo...
E
eu ri, ah, riso de escárneo, direitinho; ri, para me constar, assim,
que de homem ou de chefe nenhum eu não tinha medo. E ele se sustou,
fez espantos.
Ele
disse! ― Tenho amigo nenhum, e soldado não tem amigo-.
Eu
disse! ― Estou ouvindo.
Ele
disse! ― Eu tenho é a Lei. E soldado tem é a lei...
Eu
disse! ― Então, estão juntos.
Ele
disse! ― Mas agora minha lei e a deles são às diversas! uma
contra a outra...
Eu
disse! ― Pois nós, a gente, pobres jagunços, não temos nada
disso, a coisa nenhuma...
Ele
disse! ― Minha lei, sabe qual é que é, Tatarana? E a sorte dos
homens valentes que estou comandando...
Eu
disse! ― E. Mas se o senhor se reengraçar com os soldados, o
Governo lhe repraz e lhe premêia. O senhor é da política. Pois não
é? O gente ― deputado...
Ah,
e feio ri; porque estava com vontade. Aí pensei que ele fosse logo
querer o a gente se matar. A sorte do dia, eu cotucava. Mas ruim não
foi. Zé Bebelo só encurtou o cenho, no carregoso. Fechou a boca,
pensou bem.
Ele
disse! ― Escuta, Riobaldo, Tatarana! você por amigo eu tenho, e te
aprecêio, porque vislumbrei tua boa marca. Agora, se eu achasse o
presumido, com certeza, de que você está desconcordando de minha
lealdade, por malícias, ou de que você quer me aconselhar
canalhagem separada, velhaca, para vantagem minha e sua... Se eu
soubesse disso, certo, olhe...
Eu
disse! ― Chefe, morte de homem é uma só...
Eu
tossi.
Ele
tossiu.
Diodôlfo,
correndo vindo, disse! ― O Jósio está morrendo, com um tiro no
pescoço, lá dele...
Alaripe
entrou, disse! ― Eles estão querendo pôr mãos e pés no
chiqueiro e na tulha. Se assanham!
Eu
disse! ― Dê as ordens, Chefe!
Eu
disse gerido; eu não disse copiável.
Sei
que Zé Bebelo sorriu, aliviado.
Zé
Bebelo botou a mão no meu ombro; era o da banda do braço que doía.
― A vamos, a vamos, com macacos e bananas! A cá, na sala-de-janta,
meu filho... ― ele instou. A janela. Agachei, e escorei meu rifle,
arma capital. Agora, era obrar. E aqueles sujeitos estavam loucos?
Cabeça
de um se bolou, redondante, feito um coco, por cima da palha de
burití que cobria uma casa de vaqueiro. Adesfechei! e vi arrebentar
em pedaços o casco daquilo. Daí, a dôr me doeu no ferimento do
braço, mordi meus beiços por essa causa. Mas cacei. Outro afundei
logo, cujo varei os peitos, com outra bala certeira, duas balas. Ave,
que afoitos! Ao tanto eu gemia, e apontava. Eles, em um e um, caíam,
aceitavam o poder da morte que eu mandava. Fiz conta! uns seis, sei,
até a hora do almoço ― meia-dúzia. Essas coisas, não gosto de
relatar, não são para que eu alembre; não se deve, de. Ao senhor,
só, agora, sim! é de declaração, é até ao desamargado dos
sonhos... Que eu ali, jajão. Conheço quando homem só disfarça,
quando se encolhe somente ferido, ou mas quando retomba mesmo por
desmanchado. Mortes diferentes, mortes iguais. Pena, se tive? Vá se
ter dó de cangussú, dever finezas a escorpião! Pena de errar
algum, eu ter podia; ah, mas não errava. Deixa que deixavam só uns
dois dedos de corpo em descoberto lateral ― e minha bala se
comportava. Como aquele meu braço me doendo, ai dôr dôía, de
arrancado, parecendo que um fogo desenraizava tudo, dos ocos,
respondia até na barriga. A cada que eu dava um tiro, forcejava
minha careta, chorejava. Ria, despois. ― Aperta esta minha parte de
natureza, com um cabresto, com um pano, companheiro! ― eu
supliquei. Alaripe, servente, rasgou uma colcha de cama, me passou
dobras daquelas tiras, arrochadas. Também, doesse que doesse, que me
importava? ― arrasos em redor de mim. Trastanto, derrubei mais um,
mais vizinho. Os outros uns. Esse, urubú já bicou. Esse ia pulando
em lanço, para um canto da cerca, esse repulou no ar, esse deu um
grito soltado. Menos, veja e mire, eu catasse de querer espécies de
homens, para alvejar, feito se por cabeça ganhasse prêmio de
conto-de-réis. Mas mais, de muitos, a vida salvei: pelo medo que de
mim tomavam, para não avançar nos lugares ― pelos tirázios.
Ainda demos um tiroteio varredor, ainda batemos. Aí, eles desistiram
para trás, desandavam. Assim pararam, o balançar da guerra parou,
até para o almoço, em boa hora. E então conto o do que ri, que se
riu: uma borboleta vistosa veio voando, antes entrada janelas a
dentro, quando junto com as balas, que o couro de boi levantavam;
assim repicava o espairar, o vóo de reverências, não achasse o que
achasse ― e era uma borboleta dessas de cor azul-esverdeada, afora
as pintas, e de asas de andor. ― Ara, viva, maria boa-sorte! ― o
Jiribibe gritou. Alto ela entendesse. Ela era quase a paz.
A
comida para mim, ali mesmo me trouxeram, todos em minha pontaria
punham prezado valor. O imaginar o senhor não pode, como foi que eu
achei gosto naquela comida, às ganas, que era: de feijão,
carne-seca, arroz, maria-gomes e angú. Ao que bebi água, muita,
bebi restilo. O café que chupo. E Zé Bebelo, revindo, me gabou: ―
Tu é tudo, Riobaldo Tatarana! Cobra voadeira... Antes Zé Bebelo me
ofereceu mais restilo, o tanto também bebeu, às saúdes. Seria só
por desconto de um começo de remorso, por me temer em consciências?
A gente sabe mais, de um homem, é o que ele esconde. ― Ah! o Urutú
Branco! assim é que você devia de se chamar... E amigos somos.
A ver, um dia, a gente vai entrar, juntos, no triunfal, na forte
cidade de Januária... ― aprontado ele falou. Ao que resposta não
dei. Amigo? Eu, ali, do lado de Zé Bebelo; mas Zé Bebelo não
estava do lado de ninguém. Zé Bebelo ― cortador de caminhos.
Amigo? Eu era, sim senhor. Aquele homem me sabia, entendia meu
sentimento. A ser! que entendia meu sentimento, mas só até uma
parte ― não entendia o depois-do-fim, o confrontante. Assemelhado
a ele, pensei. Pensei! eu visse que traindo ele estivesse, ele
morria. Morria da mão de um amigo. Jurei, calado. E, desde, naquela
hora, a minha ideia se avançou por lá, na grande cidade de
Januária, onde eu queria comparecer, mas sem glórias de guerra
nenhuma, nem acompanhamentos. Alembrado de que no hotel e nas casas
de família, na Januária, se usa toalha pequena de se enxugar os
pés; e se conversa bem. Desejei foi conhecer o pessoal sensato, eu
no meio, uns em seus pagáveis trabalhos, outros em descanso
comedido, o povo morador. A passeata das bonitas moças morenas, tão
socialmente, alguma delas com os cabelos mais pretos rebrilhados,
cheirando a óleo de umbuzeiro, uma flôr airada enfeitando o
espírito daqueles cabelos certos. A Januária eu ia, mais Diadorim,
ver o vapor chegar com apito, a gente esperando toda no porto. Ali, o
tempo, a rapaziada suava, cuidando nos alambiques, como perfeito se
faz. Assim essas cachaças ― a vinte-e-seis cheirosa ― tomando
gosto e cor queimada, nas grandes dornas de umburana.
Ao
menos, daí desajoelhei e vim para a alpendrada, avistar o que se
passava com Diadorim; e eu estipulava meu direito de reverter por
onde que eu quisesse, porque meu rifle certeiro era que tinha
defendido de tomação o chiqueiro e a tulha, nos assaltos, e então
até a Casa. Diadorim guerreava, a seu comprazer, sem deszelar, sem
querer ser estorvado. Datado que Deus, que me livrou, livrava também
meu amigo de todo comezinho perigo. As raivas, naquela varanda,
vinham e caíam, demasiadas, vi. Tiros altos, revoantes: eram os
bandos de balas. Assunto de um homem que estava deitado mal,
atravessado, pensei que assim em pouco descanso. ― Vamos levar para
a capela... ― Zé Bebelo mandou. Assunto que era o Acrísio, morto
no meio; tórto. Devia de ter se passado sem tribulação. Agora não
caçavam uma vela, para em provisão dele se acender? ― Quem tem um
rosário? Mas, no sobrevento, o Cavalcânti se exclamou:
― A
que estão matando os cavalos!...
Arre
e era. Aí lá cheio o curralão, com a boa animalada nossa, os
pobres dos cavalos ali presos, tão sadios todos, que não tinham
culpa de nada; e eles, cães aqueles, sem temor de Deus nem justiça
de coração, se viravam para judiar e estragar, o rasgável da alma
da gente ― no vivo dos cavalos, a tórto e direito, fazendo fogo!
Ânsias, ver aquilo. Alt-e-baixos ― entendendo, sem saber, que era
o destapar do demónio ― os cavalos desesperaram em roda,
sacolejados esgalopeando, uns saltavam erguidos em chaça, as mãos
cascantes, se deitando uns nos outros, retombados no enrolar dum
rolo, que reboldeou, batendo com uma porção de cabeças no ar, os
pescoços, e as crinas sacudidas esticadas, espinhosas: eles eram só
umas curvas retorcidas! Consoante o agarre do rincho fino e curtinho,
de raiva ― rinchado; e o relincho de medo ― curto também, o
grave e rouco, como urro de onça, soprado das ventas todas abertas.
Curro que giraram, trompando nas cercas, escouceantes, no esparrame,
no desembêsto ― naquilo tudo a gente viu um não haver de dóidas
asas. Tiravam poeira de qualquer pedra! Iam caindo, achatavam no
chão, abrindo as mãos, só os queixos ou os topetes para cima, numa
tremura. Iam caindo, quase todos, e todos; agora, os de tardar no
morrer, rinchavam de dôr ― o que era um gemido alto, roncado, de
uns como se estivessem quase falando, de outros zunido estrito nos
dentes, ou saído com custo, aquele rincho não respirava, o bicho
largando as forças, vinha de apertos, de sufocados.
― Os
mais malditos! Os desgraçados!
O
Fafafa chorava. João Vaqueiro chorava. Como a gente toda tirava
lágrimas. Não se podia ter mão naquela malvadez, não havia
remédio. A tala, eles, os hermógenes, matavam conforme queriam, a
matança, por arruinar. Atiravam até no gado, alheio, nos bois e
vacas, tão mansos, que, desde o começo, tinham querido vir por se
proteger mais perto da casa. Onde se via, os animais iam amontoando,
mal morridos, os nossos cavalos! Agora começávamos a tremer. Onde
olhar e ouvir a coisa inventada mais triste, e terrível ― por no
escasso do tempo não caber. A cerca era alta, eles não tiveram
fuga. Só um, um cavalão claro, que era o de Mão-de-Lixa e se
chamava Safirento. Se aprumou, nas alças, ficou suspenso, cochilasse
debruçado na régua ― que nem que sendo pesado em balança, um
ponto ― as nádegas ancas mostrava para cá, grossas carnes; depois
tombou para fora, se afundou para lá, nem a gente podia ver como
terminava. A pura maldade! A gente jurava vinganças. E, aí, não se
divulgava mais cavalo correndo, todos tinham sido distribuídos
derrubados!
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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