15/07/2025

― A que estão matando os cavalos!...


[…]

Não nas artes que produzia, mas no armar de falar assim ― ele era razoável. Se riu, qual. Riu? Eu sendo água, me bebeu; eu sendo capim, me pisou; e me ressoprou, eu sendo cinza. Ah, não! Então, eu estava ali, em chão, em a-cú acôo de acuado?! Um rór de meu sangue me esquentou as caras, o redor dos ouvidos, cachoeira, que cantava pancada. Eu apertei o pé na alpercata, espremi as tábuas do assoalho. Desconheci antes e depois ― uma decisão firme me transtornava. E eu vi, fiquei sabendo: me queimassem em fogo, eu dava muitas labaredas muito altas! Ah, dava. O senhor acha que menos acho? Mais digo. Mais fiz. Antes veja, o que eu pensei ― o que seguinte ia ser, e ficou formado um decreto de pedra pensada: que, na hora de os soldados sobrechegarem, eu parava perto de Zé Bebelo; e que, ele fizesse feição de trair, eu abocava nele o rifle, efetuava. Matava, só uma vez. E, daí... Daí eu tomava o comandamento, o competentemente ― eu mesmo! ― e represava a chefia, e forçando os companheiros para a impossível salvação. Aquilo por amor do rijo leal eu fazia, era capaz; pelo certo que a vida deve de ser. Mesmo não gostando de ser chefe, descrendo do enfado de responsabilidades. Mas fazia. Aí, pego a faca-punhal e o facão grande... ― tornei a pensar. Até chegar a hora, eu não ia falar disso com pessoa nenhuma, nem com Diadorim. Mas fazia, procedia. E eu mesmo senti, a verdade duma coisa, forte, com a alegria que me supriu: ― eu era Riobaldo, Riobaldo, Riobaldo! A quase que gritei aquele este nome, meu coração alto gritou. Arre então, quando eu experimentei os gumes dos meus dentes, e terminei de escrever o derradeiro bilhete, eu estive todo tranquilizado e um só, e insensato resolvido tanto, que mesmo acho que aquele, na minha vida, foi o ponto e ponto e ponto. E entreguei o escrito a Zé Bebelo ― minha mão não espargiu nenhum tremor. O que regeu em mim foi uma coragem precisada, um desprezo de dizer; o que disse:
O senhor, chefe, o senhor é amigo dos soldados do Governo...
E eu ri, ah, riso de escárneo, direitinho; ri, para me constar, assim, que de homem ou de chefe nenhum eu não tinha medo. E ele se sustou, fez espantos.
Ele disse! ― Tenho amigo nenhum, e soldado não tem amigo-.
Eu disse! ― Estou ouvindo.
Ele disse! ― Eu tenho é a Lei. E soldado tem é a lei...
Eu disse! ― Então, estão juntos.
Ele disse! ― Mas agora minha lei e a deles são às diversas! uma contra a outra...
Eu disse! ― Pois nós, a gente, pobres jagunços, não temos nada disso, a coisa nenhuma...
Ele disse! ― Minha lei, sabe qual é que é, Tatarana? E a sorte dos homens valentes que estou comandando...
Eu disse! ― E. Mas se o senhor se reengraçar com os soldados, o Governo lhe repraz e lhe premêia. O senhor é da política. Pois não é? O gente ― deputado...
Ah, e feio ri; porque estava com vontade. Aí pensei que ele fosse logo querer o a gente se matar. A sorte do dia, eu cotucava. Mas ruim não foi. Zé Bebelo só encurtou o cenho, no carregoso. Fechou a boca, pensou bem.
Ele disse! ― Escuta, Riobaldo, Tatarana! você por amigo eu tenho, e te aprecêio, porque vislumbrei tua boa marca. Agora, se eu achasse o presumido, com certeza, de que você está desconcordando de minha lealdade, por malícias, ou de que você quer me aconselhar canalhagem separada, velhaca, para vantagem minha e sua... Se eu soubesse disso, certo, olhe...
Eu disse! ― Chefe, morte de homem é uma só...
Eu tossi.
Ele tossiu.
Diodôlfo, correndo vindo, disse! ― O Jósio está morrendo, com um tiro no pescoço, lá dele...
Alaripe entrou, disse! ― Eles estão querendo pôr mãos e pés no chiqueiro e na tulha. Se assanham!
Eu disse! ― Dê as ordens, Chefe!
Eu disse gerido; eu não disse copiável.
Sei que Zé Bebelo sorriu, aliviado.
Zé Bebelo botou a mão no meu ombro; era o da banda do braço que doía. ― A vamos, a vamos, com macacos e bananas! A cá, na sala-de-janta, meu filho... ― ele instou. A janela. Agachei, e escorei meu rifle, arma capital. Agora, era obrar. E aqueles sujeitos estavam loucos?
Cabeça de um se bolou, redondante, feito um coco, por cima da palha de burití que cobria uma casa de vaqueiro. Adesfechei! e vi arrebentar em pedaços o casco daquilo. Daí, a dôr me doeu no ferimento do braço, mordi meus beiços por essa causa. Mas cacei. Outro afundei logo, cujo varei os peitos, com outra bala certeira, duas balas. Ave, que afoitos! Ao tanto eu gemia, e apontava. Eles, em um e um, caíam, aceitavam o poder da morte que eu mandava. Fiz conta! uns seis, sei, até a hora do almoço ― meia-dúzia. Essas coisas, não gosto de relatar, não são para que eu alembre; não se deve, de. Ao senhor, só, agora, sim! é de declaração, é até ao desamargado dos sonhos... Que eu ali, jajão. Conheço quando homem só disfarça, quando se encolhe somente ferido, ou mas quando retomba mesmo por desmanchado. Mortes diferentes, mortes iguais. Pena, se tive? Vá se ter dó de cangussú, dever finezas a escorpião! Pena de errar algum, eu ter podia; ah, mas não errava. Deixa que deixavam só uns dois dedos de corpo em descoberto lateral ― e minha bala se comportava. Como aquele meu braço me doendo, ai dôr dôía, de arrancado, parecendo que um fogo desenraizava tudo, dos ocos, respondia até na barriga. A cada que eu dava um tiro, forcejava minha careta, chorejava. Ria, despois. ― Aperta esta minha parte de natureza, com um cabresto, com um pano, companheiro! ― eu supliquei. Alaripe, servente, rasgou uma colcha de cama, me passou dobras daquelas tiras, arrochadas. Também, doesse que doesse, que me importava? ― arrasos em redor de mim. Trastanto, derrubei mais um, mais vizinho. Os outros uns. Esse, urubú já bicou. Esse ia pulando em lanço, para um canto da cerca, esse repulou no ar, esse deu um grito soltado. Menos, veja e mire, eu catasse de querer espécies de homens, para alvejar, feito se por cabeça ganhasse prêmio de conto-de-réis. Mas mais, de muitos, a vida salvei: pelo medo que de mim tomavam, para não avançar nos lugares ― pelos tirázios. Ainda demos um tiroteio varredor, ainda batemos. Aí, eles desistiram para trás, desandavam. Assim pararam, o balançar da guerra parou, até para o almoço, em boa hora. E então conto o do que ri, que se riu: uma borboleta vistosa veio voando, antes entrada janelas a dentro, quando junto com as balas, que o couro de boi levantavam; assim repicava o espairar, o vóo de reverências, não achasse o que achasse ― e era uma borboleta dessas de cor azul-esverdeada, afora as pintas, e de asas de andor. ― Ara, viva, maria boa-sorte! ― o Jiribibe gritou. Alto ela entendesse. Ela era quase a paz.
A comida para mim, ali mesmo me trouxeram, todos em minha pontaria punham prezado valor. O imaginar o senhor não pode, como foi que eu achei gosto naquela comida, às ganas, que era: de feijão, carne-seca, arroz, maria-gomes e angú. Ao que bebi água, muita, bebi restilo. O café que chupo. E Zé Bebelo, revindo, me gabou: ― Tu é tudo, Riobaldo Tatarana! Cobra voadeira... Antes Zé Bebelo me ofereceu mais restilo, o tanto também bebeu, às saúdes. Seria só por desconto de um começo de remorso, por me temer em consciências? A gente sabe mais, de um homem, é o que ele esconde. ― Ah! o Urutú Branco! assim é que você devia de se chamar... E amigos somos. A ver, um dia, a gente vai entrar, juntos, no triunfal, na forte cidade de Januária... ― aprontado ele falou. Ao que resposta não dei. Amigo? Eu, ali, do lado de Zé Bebelo; mas Zé Bebelo não estava do lado de ninguém. Zé Bebelo ― cortador de caminhos. Amigo? Eu era, sim senhor. Aquele homem me sabia, entendia meu sentimento. A ser! que entendia meu sentimento, mas só até uma parte ― não entendia o depois-do-fim, o confrontante. Assemelhado a ele, pensei. Pensei! eu visse que traindo ele estivesse, ele morria. Morria da mão de um amigo. Jurei, calado. E, desde, naquela hora, a minha ideia se avançou por lá, na grande cidade de Januária, onde eu queria comparecer, mas sem glórias de guerra nenhuma, nem acompanhamentos. Alembrado de que no hotel e nas casas de família, na Januária, se usa toalha pequena de se enxugar os pés; e se conversa bem. Desejei foi conhecer o pessoal sensato, eu no meio, uns em seus pagáveis trabalhos, outros em descanso comedido, o povo morador. A passeata das bonitas moças morenas, tão socialmente, alguma delas com os cabelos mais pretos rebrilhados, cheirando a óleo de umbuzeiro, uma flôr airada enfeitando o espírito daqueles cabelos certos. A Januária eu ia, mais Diadorim, ver o vapor chegar com apito, a gente esperando toda no porto. Ali, o tempo, a rapaziada suava, cuidando nos alambiques, como perfeito se faz. Assim essas cachaças ― a vinte-e-seis cheirosa ― tomando gosto e cor queimada, nas grandes dornas de umburana.
Ao menos, daí desajoelhei e vim para a alpendrada, avistar o que se passava com Diadorim; e eu estipulava meu direito de reverter por onde que eu quisesse, porque meu rifle certeiro era que tinha defendido de tomação o chiqueiro e a tulha, nos assaltos, e então até a Casa. Diadorim guerreava, a seu comprazer, sem deszelar, sem querer ser estorvado. Datado que Deus, que me livrou, livrava também meu amigo de todo comezinho perigo. As raivas, naquela varanda, vinham e caíam, demasiadas, vi. Tiros altos, revoantes: eram os bandos de balas. Assunto de um homem que estava deitado mal, atravessado, pensei que assim em pouco descanso. ― Vamos levar para a capela... ― Zé Bebelo mandou. Assunto que era o Acrísio, morto no meio; tórto. Devia de ter se passado sem tribulação. Agora não caçavam uma vela, para em provisão dele se acender? ― Quem tem um rosário? Mas, no sobrevento, o Cavalcânti se exclamou:
A que estão matando os cavalos!...
Arre e era. Aí lá cheio o curralão, com a boa animalada nossa, os pobres dos cavalos ali presos, tão sadios todos, que não tinham culpa de nada; e eles, cães aqueles, sem temor de Deus nem justiça de coração, se viravam para judiar e estragar, o rasgável da alma da gente ― no vivo dos cavalos, a tórto e direito, fazendo fogo! Ânsias, ver aquilo. Alt-e-baixos ― entendendo, sem saber, que era o destapar do demónio ― os cavalos desesperaram em roda, sacolejados esgalopeando, uns saltavam erguidos em chaça, as mãos cascantes, se deitando uns nos outros, retombados no enrolar dum rolo, que reboldeou, batendo com uma porção de cabeças no ar, os pescoços, e as crinas sacudidas esticadas, espinhosas: eles eram só umas curvas retorcidas! Consoante o agarre do rincho fino e curtinho, de raiva ― rinchado; e o relincho de medo ― curto também, o grave e rouco, como urro de onça, soprado das ventas todas abertas. Curro que giraram, trompando nas cercas, escouceantes, no esparrame, no desembêsto ― naquilo tudo a gente viu um não haver de dóidas asas. Tiravam poeira de qualquer pedra! Iam caindo, achatavam no chão, abrindo as mãos, só os queixos ou os topetes para cima, numa tremura. Iam caindo, quase todos, e todos; agora, os de tardar no morrer, rinchavam de dôr ― o que era um gemido alto, roncado, de uns como se estivessem quase falando, de outros zunido estrito nos dentes, ou saído com custo, aquele rincho não respirava, o bicho largando as forças, vinha de apertos, de sufocados.
Os mais malditos! Os desgraçados!
O Fafafa chorava. João Vaqueiro chorava. Como a gente toda tirava lágrimas. Não se podia ter mão naquela malvadez, não havia remédio. A tala, eles, os hermógenes, matavam conforme queriam, a matança, por arruinar. Atiravam até no gado, alheio, nos bois e vacas, tão mansos, que, desde o começo, tinham querido vir por se proteger mais perto da casa. Onde se via, os animais iam amontoando, mal morridos, os nossos cavalos! Agora começávamos a tremer. Onde olhar e ouvir a coisa inventada mais triste, e terrível ― por no escasso do tempo não caber. A cerca era alta, eles não tiveram fuga. Só um, um cavalão claro, que era o de Mão-de-Lixa e se chamava Safirento. Se aprumou, nas alças, ficou suspenso, cochilasse debruçado na régua ― que nem que sendo pesado em balança, um ponto ― as nádegas ancas mostrava para cá, grossas carnes; depois tombou para fora, se afundou para lá, nem a gente podia ver como terminava. A pura maldade! A gente jurava vinganças. E, aí, não se divulgava mais cavalo correndo, todos tinham sido distribuídos derrubados!
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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