A
Jussara estava a fim de um cara e bolou um plano para conhecê-lo. Ou
para ele a conhecer. Um plano minucioso, que descreveu para as amigas
como se fosse uma operação militar. Em vez de conquistar um reduto
inimigo, Jussara conquistaria o cara, que se renderia ao seu ataque.
Ela acreditava que, no amor como na guerra, audácia era tudo.
Jussara
sabia que José Henrique — o nome do cara era José Henrique —
tinha dinheiro e não tinha namorada firme, duas precondições para
seu plano valer a pena. Era bonito, era um intelectual (andava sempre
com um livro embaixo do braço) e tinha hábitos regulares. Todos os
dias saía do trabalho e sentava-se numa mesa de bar, sempre a mesma
mesa, para comer uma empada e tomar uma cerveja (só uma, e ele não
fumava nem tinha qualquer outro vício aparente) antes de ir pegar
seu carro num estacionamento próximo. Geralmente bebia sozinho e ia
direto para casa, onde morava com a mãe viúva.
O
ataque, de acordo com a melhor tática militar, deveria ser de
surpresa. Mas surpreendente apenas o bastante para ser inesquecível
sem assustar o cara. A ideia da Jussara era que, no primeiro contato,
ele já descobrisse tudo sobre ela. O que ele faria com esta
informação dependeria do que viesse depois. Ou, como disse a
Jussara, “dos desdobramentos”. Mas no primeiro instante ele teria
que saber tudo a seu respeito. Como conseguir isto?
Com
a bolsa. As amigas se entreolharam. Com a bolsa? Com a bolsa. Jussara
entraria no bar remexendo na sua bolsa, fingindo procurar alguma
coisa com tanta concentração que esqueceria de olhar para a frente,
e esbarraria no José Henrique, derramando todo o conteúdo da bolsa
na mesa à sua frente, ou no chão ao seu lado.
— E
o conteúdo da bolsa dirá tudo que ele precisa saber a meu respeito,
entendem? Serei eu dentro da bolsa. Tudo que eu sou, tudo que eu
gosto. Ele vai me ajudar a colocar as coisas de volta dentro da bolsa
e em poucos minutos conhecerá minha alma e minha biografia.
Jussara
já sabia o que colocaria dentro da bolsa. Um bonequinho de pelúcia
que certamente enterneceria o cara, mostrando seu coração bom e
algo infantil. Envelopes com sementes, mostrando sua preocupação
com o meio ambiente. E um livro, para ele saber que ela também lia.
Mas precisava decidir: que livro? Estava aceitando sugestões.
Poesia? Martha Medeiros? Karl Marx? Pornopopeia? O pequeno
príncipe? Qual faria maior efeito? Escolheram um Saramago, desde
que não fosse muito pesado.
E
o encontro se deu. Todo o conteúdo da bolsa da Jussara caiu na
frente do cara, que ajudou a botá-lo de volta, como previsto. Mas
ele nem notou o livro e as outras coisas. Pegou um estojo de
maquiagem da Jussara e disse:
— Eu
uso o mesmo blush!
A
Jussara culpa seu fracasso numa falha que costuma frustrar as
operações militares: reconhecimento insuficiente do terreno.
— Faltou
pesquisa — lamenta.
Luís Fernando Veríssimo, em Diálogos impossíveis
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