8.
O
patrão Vasques. Tenho, muitas vezes, inexplicavelmente, a hipnose do
patrão Vasques. Que me é esse homem, salvo o obstáculo ocasional
de ser dono das minhas horas, num tempo diurno da minha vida?
Trata-me bem, fala-me com amabilidade, salvo nos momentos bruscos de
preocupação desconhecida em que não fala bem a alguém. Sim, mas
porque me preocupa? É um símbolo? É uma razão? O que é?
O
patrão Vasques. Lembro-me já dele no futuro com a saudade que sei
que hei de ter então. Estarei sossegado numa casa pequena nos
arredores de qualquer coisa, fruindo um sossego onde não farei a
obra que não faço agora, e buscarei, para a continuar a não ter
feito, desculpas diversas daquelas em que hoje me esquivo a mim. Ou
estarei internado num asilo de mendicidade, feliz da derrota inteira,
misturado com a ralé dos que se julgaram génios e não foram mais
que mendigos com sonhos, junto com a massa anónima dos que não
tiveram poder para vencer nem renúncia larga para vencer do avesso.
Seja onde estiver, recordarei com saudade o patrão Vasques, o
escritório da Rua dos Douradores, e a monotonia da vida quotidiana
será para mim como a recordação dos amores que me não foram
advindos, ou dos triunfos que não haveriam de ser meus.
O
patrão Vasques. Vejo de lá hoje, como o vejo hoje de aqui mesmo —
estatura média, atarracado, grosseiro com limites e afeições,
franco e astuto, brusco e afável — chefe, à parte o seu dinheiro,
nas mãos cabeludas e lentas, com as veias marcadas como pequenos
músculos coloridos, o pescoço cheio mas não gordo, as faces
coradas e ao mesmo tempo tensas, sob a barba escura sempre feita a
horas. Vejo-o, vejo os seus gestos de vagar enérgico, os seus olhos
a pensar para dentro coisas de fora, recebo a perturbação da sua
ocasião em que lhe não agrado, e a minha alma alegra-se com o seu
sorriso, um sorriso amplo e humano, como o aplauso de uma multidão.
Será,
talvez, porque não tenho próximo de mim figura de mais destaque do
que o patrão Vasques, que, muitas vezes, essa figura comum e até
ordinária se me emaranha na inteligência e me distrai de mim. Creio
que há símbolo. Creio ou quase creio que algures, num a vida
remota, este homem foi qualquer coisa na minha vida mais importante
do que é hoje.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

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