quarta-feira, 5 de março de 2025

1559 – Cidade do México

Os doentes

A águia dos Austrias abre suas asas de ouro contra o céu limpo do altiplano. Sobre um pano negro, rodeado de bandeiras, resplandece a coroa. O túmulo rende homenagem a Carlos V e também à morte, que a monarca tão invencível venceu.
A coroa, cópia exata da que usava o imperador da Europa, percorreu ontem as ruas do México. Sobre uma almofada de damasco trouxeram-na em procissão. A multidão orava e cantava atrás dela, enquanto repicavam, fúnebres, os sinos de todas as igrejas. A cavalo desfilaram os senhores principais, cetins negros, negros brocados, capotes de veludo negro bordados de ouro e prata, e debaixo de um pálio atravessaram as nuvens de incenso o arcebispo, os bispos e suas mitras fulgurantes.
Há várias noites não dormem os alfaiates. A colônia inteira se veste de luto.
Nos arrabaldes, os astecas também estão de luto. Há meses, um ano quase, que estão de luto. A peste mata em quantidade. Uma febre, que não se conhecia antes da conquista, arranca sangue do nariz e dos olhos e mata.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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