Os
doentes
A
águia dos Austrias abre suas asas de ouro contra o céu limpo do
altiplano. Sobre um pano negro, rodeado de bandeiras, resplandece a
coroa. O túmulo rende homenagem a Carlos V e também à morte, que a
monarca tão invencível venceu.
A
coroa, cópia exata da que usava o imperador da Europa, percorreu
ontem as ruas do México. Sobre uma almofada de damasco trouxeram-na
em procissão. A multidão orava e cantava atrás dela, enquanto
repicavam, fúnebres, os sinos de todas as igrejas. A cavalo
desfilaram os senhores principais, cetins negros, negros brocados,
capotes de veludo negro bordados de ouro e prata, e debaixo de um
pálio atravessaram as nuvens de incenso o arcebispo, os bispos e
suas mitras fulgurantes.
Há
várias noites não dormem os alfaiates. A colônia inteira se veste
de luto.
Nos
arrabaldes, os astecas também estão de luto. Há meses, um ano
quase, que estão de luto. A peste mata em quantidade. Uma febre, que
não se conhecia antes da conquista, arranca sangue do nariz e dos
olhos e mata.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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