17/10/2023

Cartas na Rua | TRÊS





1

Não contestei o divórcio, não compareci ao tribunal. Joyce me deu o carro. Ela não sabia dirigir. Tudo somado, eu perdera uns três ou quatro milhões. Mas ainda tinha os Correios.
Encontrei Betty na rua.
Vi você com aquela vadia um tempo atrás. Ela não é o seu tipo de mulher!
Nenhuma é.
Disse a ela que tínhamos terminado. Fomos tomar uma cerveja. Betty envelhecera rápido. Engordara. As rugas apareceram. Pelancas pendiam de seu pescoço. Era triste. Mas eu também envelhecera.
Betty perdera o emprego. O cachorro tinha sido atropelado e morto. Ela havia arranjado um outro emprego como garçonete, e o perdido quando demoliram o café para erguer um prédio de escritórios. Agora morava num pequeno quarto de um hotel de última. Trocava as toalhas e limpava os banheiros por lá. Entupia-se de vinho. Sugeriu que talvez pudéssemos voltar a viver juntos. Sugeri que esperássemos um pouco. Eu tinha recém saído de uma relação difícil.
Ela voltou ao quarto e pôs o melhor vestido, saltos altos, tentou se maquiar. Mas havia uma tristeza horrível na tentativa dela.
Compramos uma garrafa de uísque e algumas cervejas e fomos para o meu apartamento no quarto andar de um velho prédio. Peguei o telefone e liguei dizendo que estava doente. Sentei-me ao lado de Betty. Ela cruzou as pernas, bateu os saltos, riu um pouco. Era como nos velhos tempos. Ou quase. Alguma coisa estava faltando.
Naquele tempo, quando você ligava dizendo estar doente, os Correios enviavam uma enfermeira para averiguar, para ter certeza de que você não estava na gandaia ou sentado numa mesa de pôquer. Minha casa era perto do escritório central, de modo que era conveniente para eles virem até aqui se certificar. Betty e eu já estávamos lá há duas horas quando bateram à porta.
O que será?
Tudo bem — sussurrei —, fique quieta! Tire esses saltos, vá para a cozinha e não faça barulho.
SÓ UM MOMENTO! — respondi a quem batia.
Acendi um cigarro para mascarar o bafo, depois fui até a porta e abri apenas uma fresta. Era a enfermeira. A mesma de sempre. Ela já me conhecia.
Qual é o problema agora? — perguntou.
Soltei uma pequena baforada.
Estou mal do estômago.
Tem certeza?
É meu estômago.
Assinará este formulário para atestar que estive aqui e que você se encontra em casa?
Claro.
A enfermeira me entregou o formulário meio de lado. Assinei. Devolvi-lhe.
Vai trabalhar amanhã?
Não tenho como saber. Se estiver bem, eu vou. Se não, não vou.
Olhou-me com desprezo e foi embora. Eu sabia que ela sentira meu bafo de uísque. Teria provas? Talvez não, muita burocracia envolvida, ou talvez estivesse rindo ao entrar no carro com sua malinha preta.
Tudo bem — eu disse —, calce os sapatos e venha.
Quem era?
Uma enfermeira dos Correios.
Ela já foi?
Já.
Fazem isso sempre?
Até agora não deixaram passar nenhuma. Agora vamos a um drinque caprichado para comemorar!
Fui até a cozinha e preparei dois dos bons. Voltei e entreguei a Betty o dela.
Salud! — eu disse.
Erguemos bem nossos copos e fizemos um brinde. Então o despertador começou a tocar muito alto.
Dei um salto como se tivesse sido baleado nas costas. Betty lançou um dos pés para o ar, se endireitou. Corri para o relógio e desliguei o alarme.
Meu Deus — ela disse —, quase me caguei!
Começamos a rir. Depois nos sentamos. Tomamos nosso belo drinque.
Tive um namorado que trabalhava para a prefeitura — ela disse. — Eles também costumavam mandar um inspetor, um cara, mas não era todas as vezes, talvez uma em cada cinco. Uma noite eu estava bebendo com Harry, esse era o nome dele: Harry. Nessa noite, eu estava bebendo com Harry quando bateram à porta. Harry estava sentado no sofá completamente vestido. “Ah, meu Deus!”, ele disse e saltou na cama de roupa e tudo e puxou o cobertor. Eu escondi os copos e as garrafas debaixo da cama e abri a porta. O cara entrou e sentou no sofá. Harry estava até de meias e sapatos, tudo escondido debaixo das cobertas. O cara disse: “Como se sente, Harry?”, ao que Harry respondeu: “Não muito bem. Ela veio aqui para me cuidar”. Apontou para mim. Eu estava ali, sentada e bêbada. “Bem, espero que você melhore, Harry”, disse o cara, e depois foi embora. Tenho certeza de que ele viu as garrafas e os copos debaixo da cama, e sabia que os pés de Harry não podiam ser tão grandes assim. Foi um momento de sobressalto.
Caralho, os caras não deixam um homem ser feliz, não é mesmo? Querem sempre enquadrá-lo no esquema.
Sem dúvida.
Bebemos um pouco mais e depois fomos para a cama, mas não foi a mesma coisa, nunca é — havia um espaço entre nós, muitas coisas tinham acontecido. Fiquei olhando-a ir ao banheiro, vi as rugas e as pregas da pele que pendia abaixo de suas nádegas. Pobre criatura. Pobre, pobre criatura. Joyce tinha sido forte e rija — era de encher a mão, uma delícia. Betty não estava se sentindo bem. Era triste, triste, muito triste. Quando Betty voltou, não cantamos nem sorrimos, nem sequer uma discussão. Ficamos sentados no escuro, bebendo, fumando cigarros, e quando fomos dormir, não encostei meus pés em seu corpo, nem ela os seus em mim como costumávamos fazer. Dormimos sem nos tocar.
Ambos tínhamos sido roubados.

2

Telefonei para Joyce.
Como estão as coisas com o Alfinete Roxo?
Não consigo entender — ela disse.
O que ele fez quando você disse que havia se divorciado?
Estávamos sentados de frente no refeitório dos empregados quando contei a ele.
O que aconteceu?
Ele deixou cair o garfo. Ficou de boca aberta. Ele disse: “O quê?”.
Ele sabia que isso era coisa séria.
Não consigo entender. Desde então ele vem me evitando. Quando o vejo no saguão, ele foge. Não senta mais comigo na hora das refeições. Ele parece... bem, quase... distante.
Baby, há outros homens. Esqueça esse cara. Está na hora de partir para outro.
É difícil esquecer ele. Quero dizer, o jeito dele.
Ele sabe que você tem grana?
Não, eu nunca disse, ele não sabe de nada.
Bem, se você quer mesmo ficar com ele...
Não, não! Não quero que seja desse modo...
Está bem, então. Adeus, Joyce.
Adeus, Hank.
Pouco tempo depois, recebi uma carta dela. Tinha voltado para o Texas. A avó estava muito doente, não esperavam que vivesse muito tempo mais. O pessoal perguntara por mim. E assim por diante. Amor, Joyce.
Deixei a carta de lado e quase pude ver aquele anão se perguntando como eu tinha perdido essa boca. Aquela pequena e nervosa aberração, pensando que eu era um filho da puta esperto. Não era fácil decepcioná-lo dessa maneira.

Charles Bukowski, in Cartas na Rua

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