1
Não
contestei o divórcio, não compareci ao tribunal. Joyce me deu o
carro. Ela não sabia dirigir. Tudo somado, eu perdera uns três ou
quatro milhões. Mas ainda tinha os Correios.
Encontrei
Betty na rua.
— Vi
você com aquela vadia um tempo atrás. Ela não é o seu tipo de
mulher!
— Nenhuma
é.
Disse
a ela que tínhamos terminado. Fomos tomar uma cerveja. Betty
envelhecera rápido. Engordara. As rugas apareceram. Pelancas pendiam
de seu pescoço. Era triste. Mas eu também envelhecera.
Betty
perdera o emprego. O cachorro tinha sido atropelado e morto. Ela
havia arranjado um outro emprego como garçonete, e o perdido quando
demoliram o café para erguer um prédio de escritórios. Agora
morava num pequeno quarto de um hotel de última. Trocava as toalhas
e limpava os banheiros por lá. Entupia-se de vinho. Sugeriu que
talvez pudéssemos voltar a viver juntos. Sugeri que esperássemos um
pouco. Eu tinha recém saído de uma relação difícil.
Ela
voltou ao quarto e pôs o melhor vestido, saltos altos, tentou se
maquiar. Mas havia uma tristeza horrível na tentativa dela.
Compramos
uma garrafa de uísque e algumas cervejas e fomos para o meu
apartamento no quarto andar de um velho prédio. Peguei o telefone e
liguei dizendo que estava doente. Sentei-me ao lado de Betty. Ela
cruzou as pernas, bateu os saltos, riu um pouco. Era como nos velhos
tempos. Ou quase. Alguma coisa estava faltando.
Naquele
tempo, quando você ligava dizendo estar doente, os Correios enviavam
uma enfermeira para averiguar, para ter certeza de que você não
estava na gandaia ou sentado numa mesa de pôquer. Minha casa era
perto do escritório central, de modo que era conveniente para eles
virem até aqui se certificar. Betty e eu já estávamos lá há duas
horas quando bateram à porta.
— O
que será?
— Tudo
bem — sussurrei —, fique quieta! Tire esses saltos, vá para a
cozinha e não faça barulho.
— SÓ
UM MOMENTO! — respondi a quem batia.
Acendi
um cigarro para mascarar o bafo, depois fui até a porta e abri
apenas uma fresta. Era a enfermeira. A mesma de sempre. Ela já me
conhecia.
— Qual
é o problema agora? — perguntou.
Soltei
uma pequena baforada.
— Estou
mal do estômago.
— Tem
certeza?
— É
meu estômago.
— Assinará
este formulário para atestar que estive aqui e que você se encontra
em casa?
— Claro.
A
enfermeira me entregou o formulário meio de lado. Assinei.
Devolvi-lhe.
— Vai
trabalhar amanhã?
— Não
tenho como saber. Se estiver bem, eu vou. Se não, não vou.
Olhou-me
com desprezo e foi embora. Eu sabia que ela sentira meu bafo de
uísque. Teria provas? Talvez não, muita burocracia envolvida, ou
talvez estivesse rindo ao entrar no carro com sua malinha preta.
— Tudo
bem — eu disse —, calce os sapatos e venha.
— Quem
era?
— Uma
enfermeira dos Correios.
— Ela
já foi?
— Já.
— Fazem
isso sempre?
— Até
agora não deixaram passar nenhuma. Agora vamos a um drinque
caprichado para comemorar!
Fui
até a cozinha e preparei dois dos bons. Voltei e entreguei a Betty o
dela.
— Salud!
— eu disse.
Erguemos
bem nossos copos e fizemos um brinde. Então o despertador
começou a tocar muito alto.
Dei
um salto como se tivesse sido baleado nas costas. Betty lançou um
dos pés para o ar, se endireitou. Corri para o relógio e desliguei
o alarme.
— Meu
Deus — ela disse —, quase me caguei!
Começamos
a rir. Depois nos sentamos. Tomamos nosso belo drinque.
— Tive
um namorado que trabalhava para a prefeitura — ela disse. — Eles
também costumavam mandar um inspetor, um cara, mas não era todas as
vezes, talvez uma em cada cinco. Uma noite eu estava bebendo com
Harry, esse era o nome dele: Harry. Nessa noite, eu estava bebendo
com Harry quando bateram à porta. Harry estava sentado no sofá
completamente vestido. “Ah, meu Deus!”, ele disse e saltou na
cama de roupa e tudo e puxou o cobertor. Eu escondi os copos e as
garrafas debaixo da cama e abri a porta. O cara entrou e sentou no
sofá. Harry estava até de meias e sapatos, tudo escondido debaixo
das cobertas. O cara disse: “Como se sente, Harry?”, ao que Harry
respondeu: “Não muito bem. Ela veio aqui para me cuidar”.
Apontou para mim. Eu estava ali, sentada e bêbada. “Bem, espero
que você melhore, Harry”, disse o cara, e depois foi embora. Tenho
certeza de que ele viu as garrafas e os copos debaixo da cama, e
sabia que os pés de Harry não podiam ser tão grandes assim. Foi um
momento de sobressalto.
— Caralho,
os caras não deixam um homem ser feliz, não é mesmo? Querem sempre
enquadrá-lo no esquema.
— Sem
dúvida.
Bebemos
um pouco mais e depois fomos para a cama, mas não foi a mesma coisa,
nunca é — havia um espaço entre nós, muitas coisas tinham
acontecido. Fiquei olhando-a ir ao banheiro, vi as rugas e as pregas
da pele que pendia abaixo de suas nádegas. Pobre criatura. Pobre,
pobre criatura. Joyce tinha sido forte e rija — era de encher a
mão, uma delícia. Betty não estava se sentindo bem. Era triste,
triste, muito triste. Quando Betty voltou, não cantamos nem
sorrimos, nem sequer uma discussão. Ficamos sentados no escuro,
bebendo, fumando cigarros, e quando fomos dormir, não encostei meus
pés em seu corpo, nem ela os seus em mim como costumávamos fazer.
Dormimos sem nos tocar.
Ambos
tínhamos sido roubados.
2
Telefonei
para Joyce.
— Como
estão as coisas com o Alfinete Roxo?
— Não
consigo entender — ela disse.
— O
que ele fez quando você disse que havia se divorciado?
— Estávamos
sentados de frente no refeitório dos empregados quando contei a ele.
— O
que aconteceu?
— Ele
deixou cair o garfo. Ficou de boca aberta. Ele disse: “O quê?”.
— Ele
sabia que isso era coisa séria.
— Não
consigo entender. Desde então ele vem me evitando. Quando o vejo no
saguão, ele foge. Não senta mais comigo na hora das refeições.
Ele parece... bem, quase... distante.
— Baby,
há outros homens. Esqueça esse cara. Está na hora de partir para
outro.
— É
difícil esquecer ele. Quero dizer, o jeito dele.
— Ele
sabe que você tem grana?
— Não,
eu nunca disse, ele não sabe de nada.
— Bem,
se você quer mesmo ficar com ele...
— Não,
não! Não quero que seja desse modo...
— Está
bem, então. Adeus, Joyce.
— Adeus,
Hank.
Pouco
tempo depois, recebi uma carta dela. Tinha voltado para o Texas. A
avó estava muito doente, não esperavam que vivesse muito tempo
mais. O pessoal perguntara por mim. E assim por diante. Amor, Joyce.
Deixei
a carta de lado e quase pude ver aquele anão se perguntando como eu
tinha perdido essa boca. Aquela pequena e nervosa aberração,
pensando que eu era um filho da puta esperto. Não era fácil
decepcioná-lo dessa maneira.
Charles Bukowski, in Cartas na Rua

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