É
difícil dizer de Ataulfo de Paiva todo o bem que ele merecia; quanto
mais difícil, então, figurar todo o bem que ele fez. Quase toda
gente se divertia em lembrar que era uma personalidade velhíssima, e
nada mais; como se a idade extremamente provecta constituísse um
defeito cômico maior, sobrelevando os demais implícitos na pessoa
que o detenha. Esse ponto de vista diante da senectude sempre me
impressionou; nele se distingue o ressentimento, para com os que
souberam viver muito, dos que receiam viver pouco. E Ataulfo soube de
fato viver sua longa vida. Dir-se-ia que a quisera e fizera assim
extensa para melhor aplicá-la. Porque sua existência dava sempre a
impressão de um ato de vontade. Se se desinteressasse dela, morreria
como qualquer outro, de uma das mortes urbanas oferecidas cada dia à
nossa fragilidade. E no mesmo ativo cuidado com que ele ia
diariamente visitar seus doentes e enterrar seus defuntos se podia
notar a determinação de sobre-existir, de cumprir um “programa”
cuja duração e complexidade lhe estavam bem presentes aos olhos.
Que
programa era esse? Vencer? Aparentemente, Ataulfo era apenas um
vitorioso urbano, e, como gostasse de ser considerado tal, o
julgamento frívolo se detinha nesse particular, e nele resumia o ser
inteiro. Poucos reparavam em que a vitória social não o limitava
nem o esgotava; e é a partir dela que Ataulfo conquista uma
espantosa eficiência na condução do serviço social, sentido
permanente e profundo de sua vida. O homem se comprazia com as
distinções honoríficas esparzidas em seu redor, como coroas
votivas, e era esse o instantâneo malicioso que se fazia dele; no
entanto, Ataulfo apenas se servia desse material e desses ritos para
obter condições de utilidade pública que lhe faltariam na situação
comum. O conviva de todos os banquetes mal se alimentava de um copo
de leite, empunhado com mão trêmula; o amigo de todos os poderosos
do país não participava de seus prazeres e nada lhes pedia para si;
e para os outros, o que andava maquinando, com um luxo de pormenores
e uma perfeição técnica cheia de pitoresco e invenção, eram
novos hospitais; eram vacinas aplicadas em massa, a atingir toda a
gurizada do Brasil; eram recreatórios, colônias de férias, ou
mesmo viagens individuais de amigos que careciam de repouso, e para
os quais ele dispôs, durante anos, de casa em Teresópolis, com
criados, luz, telefone, flores e todos os cuidados imagináveis.
Esse, o seu prazer único, e pode dizer-se que a vida inteira foi
Ataulfo um gozador perfeito, no sentido de que seu gozo era o serviço
dos pobres e, em segundo lugar, dos amigos.
Pessoalmente,
sei de muita gente que nem sequer o conhece, e que lhe deve a vida ou
algum benefício relevante. A ausência de ficha eleitoral em sua
benemerência tornará ignorados para sempre esses benefícios.
Colocar um doente no estabelecimento adequado era para Ataulfo uma
operação da mais absoluta importância. Cuidava em pessoa de tudo,
mobilizando ainda a velha equipe de servidores aguçados, cada um com
a tarefa rigidamente prevista. Às vezes, o paciente sentia-se meio
raptado, pois a organização Ataulfo o pegava em casa, de surpresa,
e ia de automóvel recolhê-lo ao ponto conveniente, ao fim de uma
longa jornada, cheia de sigilo e carinho. Não sabia fazer o bem
atabalhoadamente e sem toques delicados e pessoais. Era,
positivamente, vieux style. E como tinha estilo!
Certo
domingo já remoto, em que um grupo de amigos, com suas famílias,
foi conhecer as maravilhas do Preventório Dona Amélia, em Paquetá,
a cortesia imaginosa de Ataulfo como que requintou. Já antes de
tomarmos a lancha no cais Pharoux, éramos olhados com espanto pelos
transeuntes: o ministro fizera vir de sua casa da rua Valparaíso
cadeiras de vime onde as senhoras e crianças se sentavam à espera
dos acontecimentos. E pela tarde afora, na ilha florida, foi um
repousante contato com a centena de crianças felizes, que cantavam e
bailavam. Num intervalo, já digerido o belo almoço com que ele nos
brindara, passeávamos por uma alameda, incertos sobre o que fazer,
quando Ataulfo bateu três palmas rítmicas; e logo apareceu um rapaz
trazendo copos e um estilete de prata, numa bandeja. Mais um sinal
sonoro, e o rapaz cravou o estilete numa palmeira-anã, ali
inocentemente plantada; sobre os copos jorrou uma água gelada e pura
que só no oásis é encontrada, mas que ali estava aguardando nossa
disponibilidade, como um dos trunfos ocultos de Ataulfo de Paiva. E
na volta, já cansados de um belo dia de agitação, ele, com suas
palmas sábias, fazia abrir-se o chão da lancha e de lá sair uma
derradeira, imprevista e igualmente glacial laranjada, para a sede
crepuscular. Tinha o dom da organização levada ao mínimo gracioso.
Seus telegramas, por exemplo, constantes e minuciosos, eram todos do
seu punho, em caligrafia esculpida, e entregues por mensageiro
próprio; era, sozinho, uma espécie de telégrafo nacional da
amizade.
Sua
morte, com uma grande mágoa, me causa uma grande surpresa: é a
primeira vez que o encontro em falta.
Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira
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