Anos
atrás, eu e um amigo também escritor nos apaixonamos pela mesma
mulher, uma atriz de teatro com voz marcante, um corpo perfeito,
boêmia, culta, poeta nas horas vagas, que canta, dança, sapateia,
faz mágica, joga pôquer, tranca e gamão, e tem um monótono
figurino no armário, apenas minissaias e botas.
Era
o tipo de mulher ideal para um escritor, pois sabia ser caseira e
paciente na hora certa, e baladeira e inconveniente na incerta.
Ela
estava no elenco de peças que ensaiávamos. Às tardes, comigo, às
noites, com ele. Às madrugadas, íamos comer, beber, conversar, rir
e nos fotografarmos abraçados.
Até
confessarmos simultaneamente o nosso amor.
Nós
dois descobrimos o quanto ela nos inspirara. O quanto aqueles ensaios
giravam em torno dela, como ocorrera nas leituras. Talvez, até, como
profetas, o quanto ela se encaixara nos nossos personagens, que
pareciam ter sido escritos apenas para ela, antes de a escalarmos.
Nenhuma outra atriz conseguiria fazê-los.
E,
juntos, a pedimos em casamento.
Ela
adorou. Mas, claro, profissionais que somos, sabemos que uma relação
amorosa não pode se desenvolver numa pré-produção. Especialmente
enquanto ela descobria os personagens. Talvez depois da estreia.
Nossas atenções devem estar focadas apenas no propósito e na
difícil missão de levantar um espetáculo.
Estrearíamos
na mesma época. Na mesma cidade. Minha peça seria exibida aos fins
de semana. A dele, no horário alternativo (terças e quartas).
Enquanto
não estreávamos, bolamos os três uma forma de lidar com aquele
impasse. Meu amigo propôs.
Depois
de duas semanas de peça, tempo suficiente para ganhar voo próprio,
alternaríamos nosso amor, dividiríamos a rotina sem culpa, ciúmes.
Dia sim, dia não, ela moraria com um de nós. Dias pares com ele,
dias ímpares comigo.
Mas
ela reclamou que precisaria de um dia de folga, afinal, mulheres têm
seus misteriosos afazeres e desejos, amigos gays, amigas tagarelas
sempre em crise na relação e em busca de conselhos. E muitos ex
para lidar.
Então
decidimos. Segundas, quartas e sextas com ele. Terças, quintas e
sábados comigo. Domingo era a folga dela. Que iria para a sua
casinha viver o seu mundo paralelo e fazer sobrancelha, depilação,
massagem linfática, pés e mãos.
Desenvolvemos
melhor o projeto ambicioso. Não iríamos buscá-la na casa do outro,
para evitar encontros desconfortáveis. Pagaríamos a sua condução.
Faríamos um inventário dividindo nossos bares e restaurantes
preferidos.
Metade
para ele, metade para mim.
Mas
o mais importante: as comparações estavam terminantemente
proibidas.
Jamais
ela revelaria detalhes da noite anterior, em que estava com o outro.
Não
diria o que fizeram, o que comeram, a que assistiram, se ele prefere
bem ou malpassado, balsâmico ou limão, com gelo ou sem, se ronca,
dorme de conchinha, se é mais carinhoso ou mais estilo local de um
forró de Trancoso, se gasta tempo com preliminares, dorme de pijama,
sentiu frio ou calor na noite anterior, prepara o café da manhã,
escreve de dia ou de noite, tem um Mac ou um PC, usa Aurélio ou
Houaiss, prefere Beckett ou Brecht, jazz ou blues,
Seinfeld ou Friends, Mad Men ou Californication,
se assina um jornal ou lê pela internet, se twitta assim que acorda,
quais blogs lê, se coloca despertador para acordar, escova os dentes
após as refeições, usa cuecas, meias, anda pela casa de Havaianas
legítimas ou não, ou descalço, se tem gato ou cachorro, rinite
alérgica, colesterol alto, pressão baixa, qual o tipo sanguíneo,
se adoça o café, lava a louça só no dia seguinte, arruma a cama,
liga do fixo ou do celular, em qual banco tem conta, se compra DVD
pirata ou é contra alimentar o crime organizado, se eles tomam banho
juntos, lê quadrinhos, se também odeia axé, zapeia muito, ou nem
ligam a TV, se ele tem insônia, frita na cama ou se levanta e vai
fazer um chá de erva-cidreira, ou prefere camomila, se prefere
dinheiro ou cartão com chip, quantos pontos tem na carteira, se usa
iTunes ou Media Player, se passa fio dental todos os dias, põe a
camisinha ou pede gentilmente que ela seja colocada, se a impressora
é a laser ou jato de tinta, compra flores pra casa, quais
móveis da Tok & Stock tem, carrinhos de brinquedos na estante,
clássicos, que compra em sebos, cinzeiros roubados com o logo dos
bares, se bebe água em copos de requeijão, prefere do filtro ou
mineral, com gás ou sem, gelada ou sem gelo, se o refri é light
ou zero, em garrafa ou lata, se prefere cerveja no copo, se tem
manias, mau humor, se fala sacanagens na cama, se beija de olhos
abertos.
E,
por último, imprescindível, para que tudo desse certo. Jamais
saberíamos o número de vezes que ela atingia o clímax com o outro.
Estreamos
as peças.
Ela
mandou bem.
Foi
elogiadíssima por todos.
Nos
emocionou.
Se
entregou às personagens.
Fez
de verdade.
E
começou a namorar outro ator, de outra peça, que nem sabíamos que
tinha estreado, de um teatro maior, que ficou muito mais tempo em
cartaz e, detalhe irrelevante, fez muito mais sucesso do que as
nossas. Galã que a tem todos os dias, exceto aos domingos, que é
nosso na mesa de um bar, em que continuamos nos fotografando
abraçados. E sonhando em repartir o indivisível.
Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz
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