Para
não dar o nome certo digamos assim: os Teixeiras moravam quase
defronte lá de casa.
Não
tínhamos nada contra eles: o velho, de bigodes brancos, era sério e
cordial e às vezes até nos cumprimentava com deferência. O outro
homem da casa tinha uma voz grossa e alta, mas nunca interferiu em
nossa vida, e passava a maior parte do tempo em uma fazenda fora da
cidade; além disso seu jeito de valentão nos agradava, porque ele
torcia para o mesmo time que nós.
Mas
havia as Teixeiras. Quantas eram, oito ou vinte, as irmãs Teixeiras?
Sei que era uma casa térrea muito, muito longa, cheia de janelas que
davam para a rua, e em cada janela havia sempre uma Teixeira
espiando. Havia umas que eram boazinhas, mas em conjunto as irmãs
Teixeiras eram nossas inimigas, acho que principalmente as mais
velhas e mais magras.
As
Teixeiras tinham um pecado fundamental: elas não compreendiam que em
uma cidade estrangulada entre morros, nós, a infância, teríamos de
andar muito para arranjar um campo de futebol; e, portanto, o nosso
campo natural para chutar a bola de borracha ou de meia era a rua
mesmo.
Jogávamos
descalços, a rua era. calçada de pedras irregulares (só muitos
anos depois vieram os paralelepípedos, e eu me lembro que os achei
feios, com sua cor de granito, sem a doçura das pedras polidas entre
as quais medrava o capim; e achei o nome também horroroso,
insuportável, paralelepípedos, nome que o prefeito dizia com muita
importância, parece que a grande glória de Cachoeiro e o progresso
supremo da humanidade residia nessa palavra imensa e antipática —
paralelepípedos); mas, como eu ia dizendo, a gente dava tanta topada
que todos tínhamos os pés escalavrados: as plantas dos pés eram de
couro grosso, e as unhas eram curtas, grossas e tortas,
principalmente do dedão e do vizinho dele. Até ainda me lembro de
um pedaço do "campo" que era melhor, era do lado da
extrema direita de quem jogava de baixo para cima, tinha uma pedra
grande, lisa, e depois um meio metro só de terra com capim, lugar
esplêndido para chutar em gol ou centrar.
Tenho
horror de contar vantagem, muita gente acha que eu quero desmerecer o
Rio de Janeiro contando coisas de Cachoeira, isto é uma injustiça;
a prova aqui está: eu reconheço que o Estádio do Maracanã é
maior que o nosso campo, até mesmo o Pacaembu é bem maior. Só que
nenhum dos dois pode ser tão emocionante, nem jamais foi disputado
tão palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a
canelada, às vezes tapa a tapa.
Não
consigo me lembrar se a marcação naquele tempo era em diagonal ou
por zona; em todo caso a técnica do futebol era diferente, o jogo
era ao mesmo tempo mais cavado e mais livre, por exemplo: não era
preciso ter 11 jogadores de cada lado, podia ser qualquer número, e
mesmo às vezes jogavam cinco contra seis, pois a gente punha dois
menores para equilibrar um vaca-brava maior.
Eu
disse que as partidas eram emocionantes; até hoje não compreendo
como as Teixeiras jamais se entusiasmaram pelos nossos prélios. Isso
foi um erro, e na semana que vem eu contarei por quê.
Rubem Braga, in A traição das elegantes
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