Convosco,
componho.
Revenho
ver: a casa, esta, em fama e ideia. Só por fora, com efeito; prédio
que o Governo comprou, para escola de meninos, quefazer vitalício.
Dizendo, formo é a estória dela, que fechei redonda e quadrada. Mas
o mundo não é remexer de Deus? — com perdão, que comparo. Minha
será, no que não se tasca nem aufere, sempre, em fachada e oitão,
de cerces à cimalha. Olhem. O que conto, enquanto; ponto. Olhos põem
as coisas no cabimento.
Oficial
pedreiro, forro, eu era, nem ordinário nem superior; de chegar a
mais, me impedia esse contra mim de todos, descrer, desprezo. Minha
mulher mesma me não concedia razão, questionava o eu querer: o
faltado, corçôos do vir a ser, o possível. Todos toleram na gente
só os dissabores do diário e pouco sal no feijão. Armininho
possuía o terreno — alto — espaço de capim, sol e arredor... Em
três, reparto quina pontuda, no errado narrar, no engraçar trapos e
ornatos? Sem custoso, um explica é as lérias ocas e comuns, e que
não são nunca. Assim, tudo num dia, nada, não começa. Faço
quando foi que fez que começou.
Saí,
andei, não sei, fio que numa propositada, sem saber. Dei com o
Armininho; eu estava muito repelido. Ele, desapossado, pior, por
desdita. Voltado da cidade, a nôiva mais não achou em pé de flor:
aquém a tinham casado, com um Requincão. Agora, de tão firme ele
cambaleava, pelos ses e quases, tirado de qualquer resolver. Tratavam
de o escorraçar do arraial, os do Requincão, o marido desnaturado.
Armininho só ansiava. Igualei com ele — para restadas as
confidências.
Me
disse: tinha bastante dinheiro. E que lhe ganhava? Seria para fazerem
antes casa, a que sonhava a nôiva. — “A mais moderna...” —
ela queria constante, ah: escutei, de um pulo.
— “Pois
então” — o que estudei e rebatidamente. — “Vamos propor, à
revelia desses, dita casa...” — disse e olhei, de um trago.
— “O
sr.? amigo...” — ele, vem, me espreitou nos centros, ele
suspirava pelos olhos.
Suspirei
junto: — “Estou para nascer, se isso não faço!” — rouqueei
— desfechada decisão.
Mas
ele recedia, ao triste gosto, como um homem vê de frente e anda de
costas. Teso em mente forcejei — por de mim arredar desânimo
pegador. Enquanto o que, eu percebia: a sina e azo e hora, de cem uma
vez: da vida com capacidade. — “A casa levada da breca,
confrontando com o Brasil” — e parti copo, também o dele, me
pondo em pé, o pé em chão, o chão de cristão. Armininho, só
então. Só riu ou entendeu, comigo se adotou. De lá a gente saiu,
arrastando eu aquele peso alheio, paixão, de um coração
desrespeitado.
Deserto
do mais, tranquei minha presença, com lápis, régua e papel, rodei
a cabeça. Minha mulher a me supor; desrespondi a quem me ilude.
Tantas quantas vezes hei-de, tracei planta — só um solfejo, um
modulejo — a minha construção, desconforme a reles usos. Assim
amanheci.
De
alvenel a mestre-de-obras, apareci frente ao Armininho. Tresnoitado,
espinhoso, eu, ardente; ele, sonhado com felizes idos. Porque, quem
sabe. Confirmou, o caso era fato. Tudo a favor e seguro: escritura,
carta-branca, tempo bom, nem chuvas. Dinheiro — o que serve
principalmente, mesmo ao sofrido amargurado.
Encomendei:
pedra e cal. A moça, daquela futura casa padroeira, tanto fazendo
solteira que casada! Tirada a licença completa; e o que não digo.
Tijolaria areias cimento, logo. Eu tinha o Dés, ajudante correto, e
servente o Nhãpá, cordato; mas ainda outros reuni, por motivos. O
lugar e o povo temíveis em paz. De carpinteiro tão bem entendo:
para o travejável, de lei, esteios de madeira serrada. O Requincão
em praça se certificou, tarde.
Não
há como um tarde demais — eu dizendo — porque aí é que as
coisas de verdade principiam. Amor? Dele e fé, o Armininho consumia,
pesaroso; contanto cobrava era aqui, esperança organizada. E o que
não digo, meço palavra.
Vinham
avispar, os do Requincão; logo aborrecidos do que olhado. A cova —
sete palmos — que antes de tudo ali cavei, a de qualquer afoito
defunto, estreamento, para enxotar iras e orgulho. Primeiro o
sotaque, depois a signifa — eu redizendo; com meu Tio o Borba,
ajudador, e nosso um Lamenha dando serventia. Nhãpá e o Dés
cavavam os profundamentos; o risco mudamente eu caprichava. Um alvo
ali em árvore preguei, e tiros de aviso-de-amigo atirávamos. Eu,
que a mais valentes não temo, não haviam de me pôr grosa.
— “Dôido
diacho monstro!” — minha mulher e praga. Desentendia minha
fundura. Empiquei: a fio-a-prumo. Ela indo-se embora para sempre —
e botados o assento e o soco em o baldrame. A obra abria.
Suave
o Armininho: — “Vai, vou...” — referia o montante de
suspiros, durante cada fiada de tijolos. Enviava o amor a vales e
campos, isto é, a certa rua e morada. Saiba eu o que não digo, eu,
alarife, trolha na mão, espingarda à bandoleira. A nôiva em
lua-de-mel cativa — ninguém via — vigiada. Tomara, o extrato
desse amor, para ingerir no projeto exato. Perfiz a primeira
quadrela.
Rondeavam
os do Requincão, muito mais retrocediam: de ante meu Tio o Borba,
dunga jagunço, e o Lamenha nosso, quera curimbaba. O mau resolve —
estando-se em empresas. Mas, escarniam nossos andaimes era o povo,
inglório. De invejas ainda não bastante — esta minha terra é
igual a todas. Despique e birra contra desfeita: — “Boto edifício
ao contrário!” — então, mandei; e o Armininho concorde. Votei,
se fechou, refiz traço. Descrevo o erguido: a casa de costas para o
rual, respeitando frente a horizonte e várzeas.
Armininho,
mas, conjunto, chorava já por um olho só, o homem. Me prezou, pelo
meu engenho, o quanto alguém me creditava. Mirava o quê: sem
açamouco, diferençado, vistoso, o pé-direito de moda. Ah, e a
moça? Mulher, o que quer, ouve, tão mal, tão bem; todo-o-mundo
neste mundo é mensageiro.
Em
que, até, para igreja, o lugar o padre cobiçou. Minhas mãos de
fazer a ele mostrei — mandato — por invenção de sentimento. —
“Deus do belo sofrido é servido...” — conveio. Mas não assim
as pessoas, umas e outras, atiçadas.
Tive
começo de ameaço de medo. Então eu disse: — “Redobrar tudo,
mais alto! sobrado!” — tive’de. A madre, meu construído,
casa-grande de quantos andares aguentando, no se subir, lanço a
lanço, à risca feita. Mas: a casa sem janelas nem portas — era o
que eu ambicionava.
Sem
no tempo terminar? Vindo o osso, o caroço, as rijezas amargosas. O
dinheiro: água, que faltando. Armininho, rapaz, pois sim. Vi. Sua
parte ele ainda fiado me cedendo, firmei clareza; desmanchada nossa
sociedade. Tão de lado, comum, sofri nos dentes, nos dedos, mesmo
nem comigo eu pudesse, sentado chorava. Mas para adiante. Tal o que
meu, sangue ali amassei, o empenho e dívidas. Se avessavam os
companheiros, desistidos entes, sem artes. — “Morro, na soleira e
no reboco!” — anunciei. — “Eu, não morro...” — ou nem
nada.
Me
culpavam desta à-sozinha casa, infinito movimento, sem a festa da
cumeeira. Seja agora a simplicidade, pintada de amarelo-flor em
branco, o alinhamento, desconstrução de sofrimento, singela
fortificada. Sem parar — e todo ovo é uma caixinha? Segui o
desamparo, conforme. Só me valendo o extraordinário.
Surpresa
azul: à-del-rei, a matinas, se soube, o confusório. As coisas só
me espantam de véspera. Se foram, no caminhão das telhas, em horas
da noite, de amor, bem idos! Assim fugido o par — Armininho e ela —
mulher do Requincão, mas nôiva dele. Sem nem haver perseguição.
Solertes em breve longe estavam, alegres na nuca e na barriga, entre
os tebas parentes dele surungangas.
Sozinho
fiquei, aqui esperei, os requincães. Vieram, as pessoas, umas atrás
das outras, certa multidão. Revólver meu no bolso, aqueles recebi,
disse: — “É para não entrarem! A casa é vossa...” — por
não romper a cortesia.
Ventanias
em fubás: assaz destorciam os rostos, vi como é que o povo muda.
Agora, comigo e por pró estavam, vivavam: — “A casa é progresso
do arraial!” — instantes arras. Outras aí alturas me a rodear,
desfechos de um calor me percorriam.
A
mim, por fim, de repletos ganhos, essas frias sopas e glória. A
casa, porém de Deus, que tenho, esta, venturosa, que em mim copiei —
de mestre arquiteto — e o que não dito.
Guimarães Rosa, in Tutameia
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