quinta-feira, 16 de junho de 2022

– Quem me dera o rapaz para me ajudar!



Caiu. Deixá-lo comer à vontade.
Permitiu que a linha deslizasse entre os dedos, enquanto com a mão esquerda prendia a ponta das duas pilhas de reserva às reservas da outra linha. Estava preparado. Tinha agora três tambores de quarenta braças, além do que ia desenrolando-se.
Come mais um bocadinho. Come à vontade.
Come, de maneira que o bico do anzol se te espete no coração e te mate, pensou. Vem para cima sossegado, que eu meto-te o arpão. Muito bem. Já acabaste? Estiveste à mesa o tempo que quiseste?”


Agora! – exclamou, e deu um puxão a mãos ambas, recuperou uma jarda de linha, tornou a puxar, e outra e outra vez, atirando alternadamente cada braço à corda, com toda a força dos braços e o peso do corpo em alavanca.
Nada aconteceu. O peixe continuava a afastar-se devagar, e o velho não conseguia fazê-lo ascender uma polegada. A linha era forte, própria para peixe graúdo, e segurava-a contra as costas, tão tensa que gotículas de água saltavam dela.
Depois, a linha principiou a chiar baixinho nas águas, mas continuava a segurá-la, retesando-se contra o banco e deitado contra o sentido da força. O barco começou a vogar lentamente para noroeste.
O peixe movia-se com constância, e viajavam ambos pelas águas calmas. Os outros anzóis continuavam na água, mas nada havia a fazer.
Quem me dera agora o rapaz – disse alto o velho. – Vou a reboque de um peixe, e sou eu as abitas.
Eu podia amarrar a linha, mas podia ele rebentá-la. Tenho de o segurar o mais que possa, e de lhe dar linha quando ele precisar. Graças a Deus que vai de longada e não mergulha.
Que hei-de fazer, se ele decide mergulhar, não sei. Que hei-de fazer, se vai para o fundo e morre, não sei. Mas hei-de fazer alguma coisa. Há uma data de coisas que eu posso fazer”.
Segurava a linha contra as costas, e observava o viés dela na água e o esquife movendo-se firmemente para noroeste.
Isto há-de matá-lo, pensava o velho. Não pode continuar assim eternamente”. Mas, quatro horas mais tarde, o peixe continuava a nadar para o largo, rebocando o esquife, e o velho estava ainda solidamente retesado com a linha pelas costas.
Era meio-dia, quando o apanhei. E nunca o vi.
O chapéu de palha, que enterrara na cabeça com força antes de anzolar o peixe, cortava-lhe agora a testa. Estava, além disso, cheio de sede, e pôs-se de joelhos e, com cuidado, para não fazer vibrar a linha, chegou-se quanto pôde à proa e estendeu uma das mãos para a garrafa de água. Abriu-a e bebeu um pouco.
Depois, descansou encostado à proa. Descansou sentado no mastro desarmado, e fez por não pensar, aguentar apenas.
Olhou então para trás, e viu que não havia terra à vista.
Não tem importância, pensou. Posso sempre voltar guiado pelo clarão de Havana. Ainda há mais duas horas até o sol se pôr e talvez que ele venha ao cimo antes disso. Se não vier, talvez venha com a lua. Se também não vier, talvez venha com o nascer do sol. Não sinto cãibras e estou em forma. Quem tem o anzol na boca é ele. Mas que peixe, para puxar assim! Deve ter a boca cerrada no fio. Quem me dera vê-lo. Quem me dera vê-lo, ao menos uma vez, para saber com quem tenho de me haver”.
O peixe não mudou de andamento nem de direção durante essa noite, tanto quanto pelas estrelas o homem avaliava. Depois de o sol se pôr, arrefeceu, e o suor do velho secou-lhe nas costas, nos braços e nas velhas pernas. Durante o dia, tirara o saco que cobria a caixa das iscas, e estendera-o a secar ao sol. Posto o sol, passou-o ao pescoço, por forma a que lhe descesse pelas costas, e cuidadosamente foi-o interpondo sob a linha que estava agora ao través dos ombros. O saco almofadava a linha, e o velho arranjara maneira de dobrar-se contra a proa, quase confortavelmente. A posição era, de fato, apenas um pouco menos intolerável; mas achava-a quase confortável.
Nada lhe posso fazer, nem ele a mim, pensou. Pelo menos, enquanto ele continuar assim”.
Uma vez, levantou-se e urinou pela borda fora, e olhou para os astros a verificar o rumo. A linha brilhava na água como uma fita fosforescente que lhe saísse dos ombros. Iam então mais devagar, e o clarão de Havana era menos intenso; a corrente levava-os, portanto, para leste. “Se perco o reflexo de Havana, é porque vamos mais para leste, pensou. Porque, se o rumo do peixe é certo, devia eu vê-lo por muitas mais horas. Que se passará com o ‘baseball’ da 1.a divisão? Isto com um rádio é que era bom”. E, a seguir, pensou: “Não te distraias. Pensa no que estás a fazer. Não faças alguma asneira”.
Depois, em voz alta, disse: – Quem me dera o rapaz! Para me ajudar e para ver isto.
Ninguém devia estar só na velhice, pensou. Mas é inevitável. Tenho de me lembrar de comer a ‘tuna’, antes de se estragar, para aguentar as forças. Lembra-te, por pouco que te apeteça, tens de a comer pela manhã”. Lembra-te, repetiu de si para si.
Durante a noite, dois porcos marinhos vieram para junto do barco, e bem os ouvia espinoteando e bufando. Era capaz de diferençar o ruído assoprado que o macho fazia, e o sopro suspirado da fêmea.
São bons. Brincam e divertem-se e amam-se. São nossos irmãos como os peixes-voadores.
Depois, começou a sentir pena do grande peixe que apanhara.
É maravilhoso e estranho, e quem sabe como será velho, pensou. Nunca apanhei um peixe tão forte, nem que se portasse tão estranhamente. Talvez não esteja disposto a saltar. Podia dar cabo de mim com um pulo ou uma correria desenfreada. Mas talvez já saiba o que é um anzol e que é assim que lhe convém lutar. Não pode saber que é um só contra ele, nem que é um velho. Mas que grande peixe! E, se a carne é boa, o que não dará no mercado! Mordeu a isca como um macho, é como um macho que puxa, e luta sem pânico algum.
Terá quaisquer planos, ou estará apenas tão desesperado como eu?"
Recordou-se da vez em que apanhara um peixe graúdo, de um casal. O macho deixa sempre a fêmea comer primeiro, e a fêmea, apanhada no anzol, lutou desesperadamente, tomada de pânico, e depressa ficara exausta; e todo o tempo o macho estivera ao pé dela, cruzando a linha e dando voltas com a fêmea à superfície. Andara por tão perto, que o velho temera que ele cortasse a linha, com a cauda afiada como uma foice e quase do mesmo tamanho e forma. Quando o velho a agarrara com o croque e lhe dera uma marretada, segurando o estoque e batendo-lhe no alto da cabeça, até que a cor do peixe se tornara quase igual ao estanho dos espelhos, e depois, com o auxílio do rapaz, a içara para bordo, o macho ficara ao lado do barco. E então, enquanto o velho desenredava as linhas e preparava o arpão, o macho saltara muito alto fora de água, ao pé do barco, para ver onde estava a fêmea, e mergulhara profundamente, com as suas asas cor de alfazema, que eram as barbatanas peitorais, desfraldadas e todas as listras de alfazema a brilhar. Era belo, recordava o velho, e tinha ficado.
Foi a coisa mais triste que já vi em peixes, pensou o velho. O rapaz também ficou triste, e então pedimos perdão à bicha e tratamos de a esquartejar logo”.
Quem me dera aqui o rapaz! – exclamou, e instalou-se nas pranchas recurvas da proa, a sentir a força do peixe na linha que lhe cruzava os ombros, do peixe que prosseguia firme o rumo que escolhera.
Que uma vez, por traição minha, lhe foi necessário escolher, pensou o velho.
Tinha escolhido permanecer nas águas fundas e sombrias, fora dos laços, das traições, dos engodos. E eu escolhi ir até lá ao encontro precisamente dele. Precisamente dele e de ninguém mais. E agora estamos unidos, e têmo-lo estado, desde o meio-dia. E ninguém pode ajudar-nos; a qualquer de nós”.
Talvez eu não devesse ser pescador, pensou. Mas foi para o que nasci. Não devo esquecer-me de comer a ‘tuna’, antes de aclarar”.
A certa altura, antes de romper o dia, alguém mordeu uma das iscas que estavam por trás dele. Ouviu o pauzinho partir-se e a linha principiar a correr na amurada do esquife. Na treva, abriu a navalha e, aguentando o esforço do peixe com o ombro esquerdo, inclinou-se para trás e cortou a linha contra a madeira da borda. Cortou, depois, a outra linha mais próxima e, no escuro, ligou as duas pontas dos tambores sobrantes. Trabalhava habilmente com uma mão só, e pôs o pé nas linhas de reserva para as segurar ao apertar os nós.
Tinha seis reservas. Duas de cada uma das iscas que abandonara, duas do anzol que o peixe mordera, ligadas todas.
Quando for dia, pensou, hei-de puxar o anzol das quarenta braças e cortá-lo, para ligar o resto. Terei perdido umas duzentas braças de bom cordel catalão, mais os anzóis e os chumbos. Isso pode ser substituído. Mas quem substitui este peixe, se apanho outro que me corte a linha? Não sei o que era este peixe que mesmo agora mordeu. Poderá ter sido um tubarão, um espadarte. Nem cheguei a senti-lo. Tinha de me ver livre dele”.
E, alto, disse: – Quem me dera o rapaz.
Mas não tens cá o rapaz. Só te tens a ti, e o melhor é meteres dentro a última linha às escuras ou às claras, e cortar o resto, e juntar as pontas”.

Ernest Hemingway, in O Velho e o Mar

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