quarta-feira, 15 de junho de 2022

O assassino desinteressado Bill Harrigan


A imagem das terras do Arizona, antes de qualquer outra imagem: a imagem das terras do Arizona e do Novo México, terras com um ilustre fundamento de ouro e prata, terras vertiginosas e aéreas, terras da meseta monumental e das delicadas cores, terras com branco resplendor de esqueleto pelado pelos pássaros. Nessas terras, outra imagem, a de Billy the Kid: o cavaleiro cravado sobre o cavalo, o jovem dos duros disparos que aturdem o deserto, o emissor de balas invisíveis que matam a distância, feito magia.
O deserto com veios de metais, árido e reluzente. O quase menino que, ao morrer com vinte e um anos, devia à justiça dos homens vinte e uma mortes — “sem contar os mexicanos”.

O ESTADO LARVAL

Por volta de 1859, o homem que para o terror e a glória seria Billy the Kid nasceu num cortiço subterrâneo de Nova York. Dizem que o pariu um fatigado ventre irlandês, mas foi criado entre negros. Naquele caos de catinga e de carapinhas, gozou o primado que as sardas e uma risca de cabelo arruivado concedem. Praticava o orgulho de ser branco; também era mirrado, chucro, soez. Aos doze anos militou na gangue dos Swamp Angels (Anjos do Pântano), divindades que agiam entre as cloacas. Nas noites com odor a névoa queimada emergiam daquele fétido labirinto, seguiam o rumo de algum marinheiro alemão, derrubavam-no com uma pedrada, despojavam-no até da roupa de baixo, e se restituíam à outra sujeira. Eram comandados por um negro encanecido, Gas Houser Jonas, também famoso como envenenador de cavalos.
Às vezes, do sótão de alguma casa corcovada perto da água, uma mulher despejava sobre a cabeça de algum transeunte um balde de cinza. O homem ficava agitado e se afogava. De imediato os Anjos do Pântano pululavam sobre ele, carregavam-no pela boca de um porão e saqueavam-no.
Tais foram os anos de aprendizagem de Bill Harrigan, o futuro Billy the Kid. Não desdenhava as ficções teatrais; gostava de assistir (talvez sem qualquer pressentimento de que fossem símbolos e letras de seu destino) aos melodramas de caubóis.

GO WEST!

Se nos populosos teatros do Bowery (cujos frequentadores vociferavam “Levantem o trapo!” à menor impontualidade da cortina) eram numerosos aqueles melodramas de cavaleiros e tiros, a banalíssima razão disso é que a América padecia então da paixão do Oeste. Atrás dos poentes estava o ouro do Nevada e da Califórnia. Atrás dos poentes estava o machado demolidor de cedros, a enorme cara babilônica do bisão, o chapéu de copa alta e o numeroso leito de Brigham Young, as cerimônias e a ira do pele-vermelha, o ar desanuviado dos desertos, a ilimitada planície, a terra fundamental cuja vizinhança acelera a batida do coração como a proximidade do mar. O Oeste chamava. Um contínuo rumor compassado povoou aqueles anos: o de milhares de homens americanos rumo à ocupação do Oeste. Entre eles, por volta de 1872, estava o sempre serpenteante Bill Harrigan, fugindo de uma cela retangular.

DEMOLIÇÃO DE UM MEXICANO

A História (que, à semelhança de certo diretor cinematográfico, procede por imagens descontínuas) propõe agora a de uma arriscada taberna, que está no todo-poderoso deserto como em alto-mar. O tempo, uma destemperada noite do ano de 1873; o lugar preciso, o Llano Estacado (Novo México). A terra é quase sobrenaturalmente lisa, mas o céu de nuvens desniveladas, com rasgões de tormenta e luar, está cheio de poços que se abismam e de montanhas. Na terra há o crânio de uma vaca, latidos e olhos de coiote na sombra, finos cavalos e a luz alongada da taberna. Dentro, acotovelados no único balcão, homens cansados e fornidos bebem um álcool arreliento e fazem ostentação de grandes moedas de prata, com uma serpente e uma águia. Um bêbado canta impassivelmente. Há os que falam um idioma com muitos esses, que deve ser espanhol, já que aqueles que o falam são desprezados. Bill Harrigan, rato arruivado de cortiço, está entre os bebedores. Acabou com um par de aguardentes e pensa pedir mais outro, talvez porque não lhe reste um centavo. Os homens daquele deserto aniquilam-no. Acha-os tremendos, tempestuosos, felizes, odiosamente sábios no manejo da criação bravia e de altos cavalos. De repente se faz um silêncio total, só ignorado pela voz desatinada do bêbado. Entrou um mexicano mais que fornido, com cara de índia velha. Exagera num avantajado sombreiro e em duas pistolas laterais. Num duro inglês deseja boa-noite a todos os gringos filhos de uma cadela que estão bebendo. Ninguém aceita o desafio. Bill pergunta quem é, e lhe sussurram temerosamente que o Dago — o Diego — é Belisario Villagrán, de Chihuahua. Uma detonação retumba a seguir. Escorado por aquele cordão de homens altos, Bill disparou contra o intruso. A taça cai da mão de Villagrán; depois, o homem inteiro. O homem não precisa de outra bala. Sem se dignar a olhar para o morto de primeira, Bill reata a conversa. “Verdade?”, diz.2 “Pois eu sou Bill Harrigan, de Nova York.” O bêbado continua cantando, insignificante.
Já se adivinha a apoteose. Bill concede apertos de mão e aceita adulações, hurras e uísques. Alguém observa que não há marcas em seu revólver. Billy the Kid fica com o canivete daquele alguém, mas diz “que não vale a pena anotar mexicanos”. Aquilo talvez não bastasse. Bill, naquela noite, estende sua cama junto do cadáver e dorme até a aurora — ostentosamente.

MORTES PORQUE SIM

Daquela feliz detonação (aos catorze anos de idade) nasceu Billy the Kid, o Herói, e morreu o furtivo Bill Harrigan. O rapazote da cloaca e da pedrada ascendeu a homem de fronteira. Tornou-se cavaleiro; aprendeu a montar ereto no cavalo à maneira do Wyoming ou do Texas, não com o corpo inclinado para trás, à maneira do Oregon ou da Califórnia. Nunca se assemelhou por completo à sua lenda, mas foi se aproximando. Algo do valentão de Nova York perdurou no caubói; depositou nos mexicanos o ódio que antes lhe inspiravam os negros, mas as últimas palavras que disse foram palavrões em espanhol. Aprendeu a arte errante dos tropeiros. Aprendeu a outra, mais difícil, de mandar nos homens; ambas o ajudaram a ser um bom ladrão de gado. Às vezes os violões e os bordéis do México o arrastavam.
Com a lucidez atroz da insônia, organizava concorridas orgias que duravam quatro dias e quatro noites. Afinal, enjoado, pagava a conta com tiros. Enquanto o dedo no gatilho não lhe falhou, foi o homem mais temido (e talvez mais ninguém e mais só) daquela fronteira. Garrett, amigo dele, o xerife que mais tarde o matou, disse-lhe uma vez: “Exercitei muito a pontaria, matando búfalos”. “E eu a exercitei mais matando homens”, replicou suavemente. Os pormenores são irrecuperáveis, mas sabemos que deveu até vinte e uma mortes — “sem contar os mexicanos”. Durante sete arriscadíssimos anos praticou esse luxo: a coragem.
Na noite de 25 de julho de 1880, Billy the Kid atravessou a galope de seu cavalo malhado a rua principal ou única de Fort Sumner. O calor apertava e não haviam acendido os lampiões; o comissário Garrett, sentado numa cadeira de balanço num corredor, sacou o revólver e desfechou-lhe um tiro na barriga. O malhado continuou; o cavaleiro despencou na rua de terra. Garrett pespegou-lhe outro balaço. O povo (sabedor de que o ferido era Billy the Kid) trancou bem as janelas. A agonia foi longa e blasfematória. Já com o sol bem alto, foram se acercando e desarmaram-no; o homem estava morto. Notaram-lhe o ar de traste que têm os defuntos.
Barbearam-no, vestiram-no com roupa pronta e exibiram-no para o espanto e as zombarias na vitrine do melhor armazém.
Homens a cavalo ou em tílburi acudiram de léguas da redondeza. No terceiro dia tiveram de maquiá-lo. No quarto dia, enterraram-no com júbilo.

Jorge Luis Borges, in História universal da infâmia

Nenhum comentário:

Postar um comentário