A
imagem das terras do Arizona, antes de qualquer outra imagem: a
imagem das terras do Arizona e do Novo México, terras com um ilustre
fundamento de ouro e prata, terras vertiginosas e aéreas, terras da
meseta monumental e das delicadas cores, terras com branco resplendor
de esqueleto pelado pelos pássaros. Nessas terras, outra imagem, a
de Billy the Kid: o cavaleiro cravado sobre o cavalo, o jovem dos
duros disparos que aturdem o deserto, o emissor de balas invisíveis
que matam a distância, feito magia.
O
deserto com veios de metais, árido e reluzente. O quase menino que,
ao morrer com vinte e um anos, devia à justiça dos homens vinte e
uma mortes — “sem contar os mexicanos”.
O
ESTADO LARVAL
Por
volta de 1859, o homem que para o terror e a glória seria Billy the
Kid nasceu num cortiço subterrâneo de Nova York. Dizem que o pariu
um fatigado ventre irlandês, mas foi criado entre negros. Naquele
caos de catinga e de carapinhas, gozou o primado que as sardas e uma
risca de cabelo arruivado concedem. Praticava o orgulho de ser
branco; também era mirrado, chucro, soez. Aos doze anos militou na
gangue dos Swamp Angels (Anjos do Pântano), divindades que agiam
entre as cloacas. Nas noites com odor a névoa queimada emergiam
daquele fétido labirinto, seguiam o rumo de algum marinheiro alemão,
derrubavam-no com uma pedrada, despojavam-no até da roupa de baixo,
e se restituíam à outra sujeira. Eram comandados por um negro
encanecido, Gas Houser Jonas, também famoso como envenenador de
cavalos.
Às
vezes, do sótão de alguma casa corcovada perto da água, uma mulher
despejava sobre a cabeça de algum transeunte um balde de cinza. O
homem ficava agitado e se afogava. De imediato os Anjos do Pântano
pululavam sobre ele, carregavam-no pela boca de um porão e
saqueavam-no.
Tais
foram os anos de aprendizagem de Bill Harrigan, o futuro Billy the
Kid. Não desdenhava as ficções teatrais; gostava de assistir
(talvez sem qualquer pressentimento de que fossem símbolos e letras
de seu destino) aos melodramas de caubóis.
GO
WEST!
Se
nos populosos teatros do Bowery (cujos frequentadores vociferavam
“Levantem o trapo!” à menor impontualidade da cortina) eram
numerosos aqueles melodramas de cavaleiros e tiros, a banalíssima
razão disso é que a América padecia então da paixão do Oeste.
Atrás dos poentes estava o ouro do Nevada e da Califórnia. Atrás
dos poentes estava o machado demolidor de cedros, a enorme cara
babilônica do bisão, o chapéu de copa alta e o numeroso leito de
Brigham Young, as cerimônias e a ira do pele-vermelha, o ar
desanuviado dos desertos, a ilimitada planície, a terra fundamental
cuja vizinhança acelera a batida do coração como a proximidade do
mar. O Oeste chamava. Um contínuo rumor compassado povoou aqueles
anos: o de milhares de homens americanos rumo à ocupação do Oeste.
Entre eles, por volta de 1872, estava o sempre serpenteante Bill
Harrigan, fugindo de uma cela retangular.
DEMOLIÇÃO
DE UM MEXICANO
A
História (que, à semelhança de certo diretor cinematográfico,
procede por imagens descontínuas) propõe agora a de uma arriscada
taberna, que está no todo-poderoso deserto como em alto-mar. O
tempo, uma destemperada noite do ano de 1873; o lugar preciso, o
Llano Estacado (Novo México). A terra é quase sobrenaturalmente
lisa, mas o céu de nuvens desniveladas, com rasgões de tormenta e
luar, está cheio de poços que se abismam e de montanhas. Na terra
há o crânio de uma vaca, latidos e olhos de coiote na sombra, finos
cavalos e a luz alongada da taberna. Dentro, acotovelados no único
balcão, homens cansados e fornidos bebem um álcool arreliento e
fazem ostentação de grandes moedas de prata, com uma serpente e uma
águia. Um bêbado canta impassivelmente. Há os que falam um idioma
com muitos esses, que deve ser espanhol, já que aqueles que o falam
são desprezados. Bill Harrigan, rato arruivado de cortiço, está
entre os bebedores. Acabou com um par de aguardentes e pensa pedir
mais outro, talvez porque não lhe reste um centavo. Os homens
daquele deserto aniquilam-no. Acha-os tremendos, tempestuosos,
felizes, odiosamente sábios no manejo da criação bravia e de altos
cavalos. De repente se faz um silêncio total, só ignorado pela voz
desatinada do bêbado. Entrou um mexicano mais que fornido, com cara
de índia velha. Exagera num avantajado sombreiro e em duas pistolas
laterais. Num duro inglês deseja boa-noite a todos os gringos filhos
de uma cadela que estão bebendo. Ninguém aceita o desafio. Bill
pergunta quem é, e lhe sussurram temerosamente que o Dago — o
Diego — é Belisario Villagrán, de Chihuahua. Uma detonação
retumba a seguir. Escorado por aquele cordão de homens altos, Bill
disparou contra o intruso. A taça cai da mão de Villagrán; depois,
o homem inteiro. O homem não precisa de outra bala. Sem se dignar a
olhar para o morto de primeira, Bill reata a conversa. “Verdade?”,
diz.2 “Pois eu sou Bill Harrigan, de Nova York.” O bêbado
continua cantando, insignificante.
Já
se adivinha a apoteose. Bill concede apertos de mão e aceita
adulações, hurras e uísques. Alguém observa que não há marcas
em seu revólver. Billy the Kid fica com o canivete daquele alguém,
mas diz “que não vale a pena anotar mexicanos”. Aquilo talvez
não bastasse. Bill, naquela noite, estende sua cama junto do cadáver
e dorme até a aurora — ostentosamente.
MORTES
PORQUE SIM
Daquela
feliz detonação (aos catorze anos de idade) nasceu Billy the Kid, o
Herói, e morreu o furtivo Bill Harrigan. O rapazote da cloaca e da
pedrada ascendeu a homem de fronteira. Tornou-se cavaleiro; aprendeu
a montar ereto no cavalo à maneira do Wyoming ou do Texas, não com
o corpo inclinado para trás, à maneira do Oregon ou da Califórnia.
Nunca se assemelhou por completo à sua lenda, mas foi se
aproximando. Algo do valentão de Nova York perdurou no caubói;
depositou nos mexicanos o ódio que antes lhe inspiravam os negros,
mas as últimas palavras que disse foram palavrões em espanhol.
Aprendeu a arte errante dos tropeiros. Aprendeu a outra, mais
difícil, de mandar nos homens; ambas o ajudaram a ser um bom ladrão
de gado. Às vezes os violões e os bordéis do México o arrastavam.
Com
a lucidez atroz da insônia, organizava concorridas orgias que
duravam quatro dias e quatro noites. Afinal, enjoado, pagava a conta
com tiros. Enquanto o dedo no gatilho não lhe falhou, foi o homem
mais temido (e talvez mais ninguém e mais só) daquela fronteira.
Garrett, amigo dele, o xerife que mais tarde o matou, disse-lhe uma
vez: “Exercitei muito a pontaria, matando búfalos”. “E eu a
exercitei mais matando homens”, replicou suavemente. Os pormenores
são irrecuperáveis, mas sabemos que deveu até vinte e uma mortes —
“sem contar os mexicanos”. Durante sete arriscadíssimos anos
praticou esse luxo: a coragem.
Na
noite de 25 de julho de 1880, Billy the Kid atravessou a galope de
seu cavalo malhado a rua principal ou única de Fort Sumner. O calor
apertava e não haviam acendido os lampiões; o comissário Garrett,
sentado numa cadeira de balanço num corredor, sacou o revólver e
desfechou-lhe um tiro na barriga. O malhado continuou; o cavaleiro
despencou na rua de terra. Garrett pespegou-lhe outro balaço. O povo
(sabedor de que o ferido era Billy the Kid) trancou bem as janelas. A
agonia foi longa e blasfematória. Já com o sol bem alto, foram se
acercando e desarmaram-no; o homem estava morto. Notaram-lhe o ar de
traste que têm os defuntos.
Barbearam-no,
vestiram-no com roupa pronta e exibiram-no para o espanto e as
zombarias na vitrine do melhor armazém.
Homens
a cavalo ou em tílburi acudiram de léguas da redondeza. No terceiro
dia tiveram de maquiá-lo. No quarto dia, enterraram-no com júbilo.
Jorge Luis Borges, in História universal da infâmia

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