quarta-feira, 15 de junho de 2022

Estamos atados à ciência

Enquanto no mundo islâmico florescia a medicina, na Europa se entrou realmente em uma idade escura. Perdeu-se a maior parte do conhecimento de anatomia e cirurgia. Abundava a confiança na oração e as curas milagrosas. Desapareceram os médicos seculares. Usavam-se amplamente cânticos, poções, horóscopos e amuletos. Restringiram-se ou ilegalizaram a dissecação de cadáveres, o que impedia que os que praticavam a medicina adquirissem conhecimento de primeira mão do corpo humano. A investigação médica chegou a um ponto morto.
Era muito parecido ao que o historiador Edward Gibbon descreveu para todo o Império oriental, cuja capital era Constantinopla:
No transcurso de dez séculos não se fez nem um só descobrimento que exaltasse a dignidade ou promovesse a felicidade da humanidade. Não se tinha acrescentado nenhuma só ideia aos sistemas especulativos da Antiguidade e toda uma série de pacientes discípulos se converteu em seu momento nos professores dogmáticos da seguinte geração servil.
A prática médica pré-moderna não conseguiu salvar a muitos nem sequer em seu melhor momento. Rainha Anne foi a última monarca Stuart da Grã-Bretanha. Nos últimos dezessete anos do século XVII ficou grávida dezoito vezes. Só cinco meninos lhe nasceram vivos. Só a gente sobreviveu à infância. Morreu antes de chegar à idade adulta e antes da coroação da rainha em 1702. Não parece haver nenhuma prova de transtorno genético. Contava com os melhores cuidados médicos que se podiam comprar com dinheiro.
As trágicas enfermidades que em outra época se levavam um número incontável de bebês e meninos se foram reduzindo progressivamente e se curam graças à ciência: pelo descobrimento do mundo dos micróbios, pela ideia de que médicos e parteiros se lavassem as mãos e esterilizassem seus instrumentos, mediante a nutrição, a saúde pública e as medidas sanitárias, os antibióticos, medicamentos, vacinas, o descobrimento da estrutura molecular do DNA, a biologia molecular e, agora, a terapia genética. Ao menos no mundo desenvolvido, os pais têm muitas mais possibilidades de ver alcançar a maturidade a seus filhos das que tinha a herdeira ao trono de uma das nações mais capitalistas da Terra a finais do século XVII. A varíola desapareceu que mundo. A área de nosso planeta infestada de mosquitos transmissores da malária se reduziu de maneira espetacular. A esperança de vida de um menino ao que se diagnostica leucemia foi aumentando progressivamente ano detrás ano. A ciência permite que a Terra possa alimentar a uma quantidade de humanas centenas de vezes maior, e em condições muito menos miseráveis, que faz uns quantos milhares de anos.
Podemos rezar por uma vítima do cólera ou podemos lhe dar quinhentos miligramas de tetraciclina cada doze horas. (Ainda há uma religião, a “ciência cristã”, que nega a teoria do germe da enfermidade; se enguiço a oração, os fiéis desta seita prefeririam ver morrer a seus filhos antes que lhes dar antibióticos.) Podemos tentar uma terapia psicanalítica quase fútil com o paciente esquizofrênico, ou lhe dar de trezentos a quinhentos miligramas de clazepina ao dia. Os tratamentos científicos são centenas ou milhares de vezes mais eficazes que os alternativos. (E inclusive quando parece que as alternativas funcionam, não sabemos se realmente tiveram algum papel: Podem produzir-se remissões espontâneas, inclusive do cólera e a esquizofrenia, sem oração e sem psicanálise.) Abandonar a ciência significa abandonar muito mais que o ar condicionado, o aparelho do CD, os secadores do cabelo e os carros rápidos.
Na época pré-agrícola, de caçadores-coletores, a expectativa de vida humana era de vinte a trinta anos, quão mesma na Europa ocidental a finais da época romana medieval. Ela só aumentou para quarenta anos por volta do ano 1870.
Chegou a cinquenta em 1915, sessenta em 1930, setenta em 1955 e hoje se aproxima de oitenta (um pouco mais para as mulheres, um pouco menos para os homens). O resto do mundo segue os passados do incremento europeu da longevidade. Qual é a causa desta transição humanitária assombrosa, sem precedentes? A teoria do germe como causador da enfermidade, medidas de saúde pública, os remédios e a tecnologia médica. A longevidade possivelmente seja a melhor medida da qualidade de vida física. (Se você estiver morto, não pode fazer nada para ser feliz.) É um oferecimento muito valioso da ciência à humanidade: nada menos que o dom da vida.
Mas os micro-organismos se transformam. Aparecem novas enfermidades que se estendem como o fogo. Há uma batalha constante entre medidas microbianas e contra medidas humanas. Acompanhamos o ritmo desta competição não só inventando novos medicamentos e tratamentos, a não ser avançando progressivamente com maior profundidade na compreensão da natureza da vida: uma investigação básica.
Se quisermos que o mundo escapamento das temíveis consequências do crescimento da população global e dos dez mil ou doze bilhões de pessoas no planeta a finais do século XXI, devemos inventar métodos seguros e mais eficientes de cultivar mantimentos, com o conseguinte abastecimento de sementes, irrigação, fertilizantes, pesticidas, sistemas de transporte e refrigeração. Também se necessitarão métodos contraceptivos amplamente disponíveis e aceitáveis, passos significativos para a igualdade política das mulheres e melhoras nas condições de vida dos mais pobres. Como pode conseguir-se todo isso sem ciência e tecnologia?
Sei que a ciência e a tecnologia não são simples cornucópias que vertem dons ao mundo. Os cientistas não só conceberam as armas nucleares; também agarraram aos líderes políticos pelas lapelas para que entendessem que sua nação — qualquer que esta fora — tinha que ser primeira nas ter. Logo fabricaram mais de sessenta mil. Durante a guerra fria, os cientistas dos Estados Unidos, a União Soviética, China e outras nações estavam dispostos a expor seus compatriotas à radiação — na maioria dos casos sem seu conhecimento — com o fim de preparar-se para a guerra nuclear. Os médicos do Tuskegee, Alabama, enganaram a um grupo de veteranos que acreditavam receber tratamento médico para a sífilis, quando em realidade serviam de grupo de controle sem tratamento. São conhecidas as atrocidades perpetradas pelos médicos nazistas. Nossa tecnologia produziu a talidomida, o CFC, o agente laranja, o gás de nervos, a contaminação do ar e a água, a extinção de espécies e indústrias tão capitalistas que podem arruinar o clima do planeta. Aproximadamente, a metade dos cientistas da Terra trabalha ao menos em tempo parcial para os militares. Embora ainda temos alguns cientistas como pessoas independentes que criticam com valentia os males da sociedade e advertem com antecipação das potenciais catástrofes tecnológicas, também se considera que muitos deles são oportunistas acessíveis ou complacentes originadores de benefícios corporativos e armas de destruição maciça, sem ter em conta as consequências a longo prazo. Os perigos tecnológicos que expõe a ciência, seu desafio implícito ao saber tradicional e a dificuldade que se percebe nela são razões para que alguma gente desconfie da ciência e a evite. Há uma razão pela que a gente fica nervosa ante a ciência e a tecnologia. De modo que o mundo vive obcecado com a imagem do cientista louco: dos loucos de bata branca dos programas infantis do sábado pela manhã e a pletora de entendimentos faustianos da cultura popular, do hiperônimo doutor Fausto em pessoa ao Dr. Frankenstein, Dr. Strangelove e Jurassic Park.
Mas não nos podemos limitar a concluir que a ciência põe muito poder em mãos de tecnólogos moralmente débeis ou políticos corruptos enlouquecidos pelo poder e decidir, em consequência, prescindir dela. Os avanços na medicina e agricultura salvaram muitas mais vidas que as que se perderam em todas as guerras da história. Os avanços em transportes, comunicação e espetáculos transformaram e unificou o mundo. Nas pesquisa de opinião, a ciência fica classificada sempre entre as ocupações mais admiradas e confiáveis, apesar dos receios. A espada da ciência tem dois gumes. Seu temível poder impõe a todos, incluídos os políticos, mas certamente especialmente aos cientistas, uma nova responsabilidade: mais atenção às consequências a longo prazo da tecnologia, uma perspectiva que ultrapasse as fronteiras dos países e gerações e um incentivo para evitar as chamadas fáceis ao nacionalismo e o chauvinismo. O custo dos enganos começa a ser muito alto.
Interessa-nos a verdade? Tem alguma importância?
... onde a ignorância é uma bênção é uma loucura ser sábio, escreveu o poeta Thomas Gray. Mas é assim? Edmund Way Teale, em seu livro de 1950 Círculo das estações, expôs melhor o dilema:
Moralmente é tão mau não querer saber se algo é verdade ou não, sempre que permitir sentir-se bem, como o é não querer saber como ganha o dinheiro sempre que se consiga.
Por exemplo, é desanimador descobrir a corrupção e a incompetência do governo, mas é melhor não saber nada disso? A que interesses servem à ignorância? Se os humanos tiverem, por exemplo, uma propensão hereditária ao ódio aos forasteiros, não é o autoconhecimento o único antídoto? Se ansiarmos acreditar que as estrelas saem e ficam para nós, que somos a razão pela que há um universo, é negativo o serviço que nos empresta a ciência para rebaixar nossas expectativas?
Na genealogia da moral, Friedrich Nietzsche, como tantos antes e depois, critica o “progresso ininterrupto na autodesvalorização do homem” causado pela revolução científica. Nietzsche lamenta a perda da “crença do homem em sua dignidade, sua unicidade, insubstituível no projeto da existência”. Para mim é muito melhor captar o universo como é em realidade que persistir no engano, por muito satisfatório e reconfortante que seja. Que atitude é a que nos equipa melhor para sobreviver a longo prazo? O que nos dá uma maior influencia em nosso futuro? E se nossa ingênua autoconfiança fica um pouco escavada no processo, é tão grande a perda, em realidade?
Não há motivo para lhe dar a bem-vinda como uma experiência que faz maturar e imprime caráter?
Descobrir que o universo tem de oito mil a quinze bilhões de anos e não de seis mil a doze mil melhora nossa apreciação de seu alcance e grandeza; manter a ideia de que somos uma disposição particularmente complexa de átomos e não uma espécie de hálito de divindade aumenta quando menos nosso respeito pelos átomos; descobrir, como agora parece possível, que nosso planeta é um dos milhares de milhões de outros mundos na galáxia da Via Láctea e que nossa galáxia é uma entre milhares de milhões mais, aumenta majestosamente o campo do possível; encontrar que nossos antepassados também eram os ancestrais dos macacos nos vincula ao resto de seres vivos e dá pé a importantes reflita — embora às vezes lamentável — sobre a natureza humana.
Simplesmente, não há volta atrás. Nós gostemos ou não, estamos atados à ciência. O melhor seria lhe tirar o máximo proveito. Quando finalmente o aceitarmos e reconheçamos plenamente sua beleza e poder, encontrar-nos-emos com que, tanto em assuntos espirituais como práticos; saímos ganhando.
Mas a superstição e a pseudociência não deixam de interpor-se no caminho para distrair a todos os “Buckley” que há entre nós, proporcionar respostas fáceis, evitar o escrutínio cético, apelar a nossos temores e desvalorizar a experiência, nos convertendo em praticantes rotineiros e cômodos além de vítimas da credulidade. Sim, o mundo seria mais interessante se houvesse óvnis à espreita nas águas profundas das Bermudas tragando-se navios e aviões, ou se os mortos pudessem fazer-se com o controle de nossas mãos e nos escrever mensagens. Seria fascinante que os adolescentes fossem capazes de fazer saltar o auricular do telefone de sua forquilha só com o pensamento, ou que nossos sonhos pudessem predizer acertadamente o futuro com maior assiduidade que a que pode explicar-se pela casualidade e nosso conhecimento do mundo.
Todo isso são exemplos de pseudociência. Pretendem utilizar métodos e descobrimentos da ciência, enquanto que em realidade são desleais a sua natureza, frequentemente porque se apoiam em provas insuficientes ou porque ignoram chaves que apontam em outra direção. Estão infestados de credulidade. Com a cooperação desinformada (e frequentemente a conivência cínica) de periódicos, revistas, editores, rádio, televisão, produtores de cinema e similares, essas ideias se encontram facilmente em todas as partes. Muito mais difíceis de encontrar, como pude constatar em meu encontro com o senhor “Buckley”, são os descobrimentos alternativos mais desafiantes e inclusive mais assombrosos da ciência.

Carl Sagan, in O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela acesa no escuro

Nenhum comentário:

Postar um comentário