Enquanto
no mundo islâmico florescia a medicina, na Europa se entrou
realmente em uma idade escura. Perdeu-se a maior parte do
conhecimento de anatomia e cirurgia. Abundava a confiança na oração
e as curas milagrosas. Desapareceram os médicos seculares. Usavam-se
amplamente cânticos, poções, horóscopos e amuletos.
Restringiram-se ou ilegalizaram a dissecação de cadáveres, o que
impedia que os que praticavam a medicina adquirissem conhecimento de
primeira mão do corpo humano. A investigação médica chegou a um
ponto morto.
Era
muito parecido ao que o historiador Edward Gibbon descreveu para todo
o Império oriental, cuja capital era Constantinopla:
No
transcurso de dez séculos não se fez nem um só descobrimento que
exaltasse a dignidade ou promovesse a felicidade da humanidade. Não
se tinha acrescentado nenhuma só ideia aos sistemas especulativos da
Antiguidade e toda uma série de pacientes discípulos se converteu
em seu momento nos professores dogmáticos da seguinte geração
servil.
A
prática médica pré-moderna não conseguiu salvar a muitos nem
sequer em seu melhor momento. Rainha Anne foi a última monarca
Stuart da Grã-Bretanha. Nos últimos dezessete anos do século XVII
ficou grávida dezoito vezes. Só cinco meninos lhe nasceram vivos.
Só a gente sobreviveu à infância. Morreu antes de chegar à idade
adulta e antes da coroação da rainha em 1702. Não parece haver
nenhuma prova de transtorno genético. Contava com os melhores
cuidados médicos que se podiam comprar com dinheiro.
As
trágicas enfermidades que em outra época se levavam um número
incontável de bebês e meninos se foram reduzindo progressivamente e
se curam graças à ciência: pelo descobrimento do mundo dos
micróbios, pela ideia de que médicos e parteiros se lavassem as
mãos e esterilizassem seus instrumentos, mediante a nutrição, a
saúde pública e as medidas sanitárias, os antibióticos,
medicamentos, vacinas, o descobrimento da estrutura molecular do DNA,
a biologia molecular e, agora, a terapia genética. Ao menos no mundo
desenvolvido, os pais têm muitas mais possibilidades de ver alcançar
a maturidade a seus filhos das que tinha a herdeira ao trono de uma
das nações mais capitalistas da Terra a finais do século XVII. A
varíola desapareceu que mundo. A área de nosso planeta infestada de
mosquitos transmissores da malária se reduziu de maneira
espetacular. A esperança de vida de um menino ao que se diagnostica
leucemia foi aumentando progressivamente ano detrás ano. A ciência
permite que a Terra possa alimentar a uma quantidade de humanas
centenas de vezes maior, e em condições muito menos miseráveis,
que faz uns quantos milhares de anos.
Podemos
rezar por uma vítima do cólera ou podemos lhe dar quinhentos
miligramas de tetraciclina cada doze horas. (Ainda há uma religião,
a “ciência cristã”, que nega a teoria do germe da enfermidade;
se enguiço a oração, os fiéis desta seita prefeririam ver morrer
a seus filhos antes que lhes dar antibióticos.) Podemos tentar uma
terapia psicanalítica quase fútil com o paciente esquizofrênico,
ou lhe dar de trezentos a quinhentos miligramas de clazepina ao dia.
Os tratamentos científicos são centenas ou milhares de vezes mais
eficazes que os alternativos. (E inclusive quando parece que as
alternativas funcionam, não sabemos se realmente tiveram algum
papel: Podem produzir-se remissões espontâneas, inclusive do cólera
e a esquizofrenia, sem oração e sem psicanálise.) Abandonar a
ciência significa abandonar muito mais que o ar condicionado, o
aparelho do CD, os secadores do cabelo e os carros rápidos.
Na
época pré-agrícola, de caçadores-coletores, a expectativa de vida
humana era de vinte a trinta anos, quão mesma na Europa ocidental a
finais da época romana medieval. Ela só aumentou para quarenta anos
por volta do ano 1870.
Chegou
a cinquenta em 1915, sessenta em 1930, setenta em 1955 e hoje se
aproxima de oitenta (um pouco mais para as mulheres, um pouco menos
para os homens). O resto do mundo segue os passados do incremento
europeu da longevidade. Qual é a causa desta transição humanitária
assombrosa, sem precedentes? A teoria do germe como causador da
enfermidade, medidas de saúde pública, os remédios e a tecnologia
médica. A longevidade possivelmente seja a melhor medida da
qualidade de vida física. (Se você estiver morto, não pode fazer
nada para ser feliz.) É um oferecimento muito valioso da ciência à
humanidade: nada menos que o dom da vida.
Mas
os micro-organismos se transformam. Aparecem novas enfermidades que
se estendem como o fogo. Há uma batalha constante entre medidas
microbianas e contra medidas humanas. Acompanhamos o ritmo desta
competição não só inventando novos medicamentos e tratamentos, a
não ser avançando progressivamente com maior profundidade na
compreensão da natureza da vida: uma investigação básica.
Se
quisermos que o mundo escapamento das temíveis consequências do
crescimento da população global e dos dez mil ou doze bilhões de
pessoas no planeta a finais do século XXI, devemos inventar métodos
seguros e mais eficientes de cultivar mantimentos, com o conseguinte
abastecimento de sementes, irrigação, fertilizantes, pesticidas,
sistemas de transporte e refrigeração. Também se necessitarão
métodos contraceptivos amplamente disponíveis e aceitáveis, passos
significativos para a igualdade política das mulheres e melhoras nas
condições de vida dos mais pobres. Como pode conseguir-se todo isso
sem ciência e tecnologia?
Sei
que a ciência e a tecnologia não são simples cornucópias que
vertem dons ao mundo. Os cientistas não só conceberam as armas
nucleares; também agarraram aos líderes políticos pelas lapelas
para que entendessem que sua nação — qualquer que esta fora —
tinha que ser primeira nas ter. Logo fabricaram mais de sessenta mil.
Durante a guerra fria, os cientistas dos Estados Unidos, a União
Soviética, China e outras nações estavam dispostos a expor seus
compatriotas à radiação — na maioria dos casos sem seu
conhecimento — com o fim de preparar-se para a guerra nuclear. Os
médicos do Tuskegee, Alabama, enganaram a um grupo de veteranos que
acreditavam receber tratamento médico para a sífilis, quando em
realidade serviam de grupo de controle sem tratamento. São
conhecidas as atrocidades perpetradas pelos médicos nazistas. Nossa
tecnologia produziu a talidomida, o CFC, o agente laranja, o gás de
nervos, a contaminação do ar e a água, a extinção de espécies e
indústrias tão capitalistas que podem arruinar o clima do planeta.
Aproximadamente, a metade dos cientistas da Terra trabalha ao menos
em tempo parcial para os militares. Embora ainda temos alguns
cientistas como pessoas independentes que criticam com valentia os
males da sociedade e advertem com antecipação das potenciais
catástrofes tecnológicas, também se considera que muitos deles são
oportunistas acessíveis ou complacentes originadores de benefícios
corporativos e armas de destruição maciça, sem ter em conta as
consequências a longo prazo. Os perigos tecnológicos que expõe a
ciência, seu desafio implícito ao saber tradicional e a dificuldade
que se percebe nela são razões para que alguma gente desconfie da
ciência e a evite. Há uma razão pela que a gente fica nervosa ante
a ciência e a tecnologia. De modo que o mundo vive obcecado com a
imagem do cientista louco: dos loucos de bata branca dos programas
infantis do sábado pela manhã e a pletora de entendimentos
faustianos da cultura popular, do hiperônimo doutor Fausto em pessoa
ao Dr. Frankenstein, Dr. Strangelove e Jurassic
Park.
Mas
não nos podemos limitar a concluir que a ciência põe muito poder
em mãos de tecnólogos moralmente débeis ou políticos corruptos
enlouquecidos pelo poder e decidir, em consequência, prescindir
dela. Os avanços na medicina e agricultura salvaram muitas mais
vidas que as que se perderam em todas as guerras da história. Os
avanços em transportes, comunicação e espetáculos transformaram e
unificou o mundo. Nas pesquisa de opinião, a ciência fica
classificada sempre entre as ocupações mais admiradas e confiáveis,
apesar dos receios. A espada da ciência tem dois gumes. Seu temível
poder impõe a todos, incluídos os políticos, mas certamente
especialmente aos cientistas, uma nova responsabilidade: mais atenção
às consequências a longo prazo da tecnologia, uma perspectiva que
ultrapasse as fronteiras dos países e gerações e um incentivo para
evitar as chamadas fáceis ao nacionalismo e o chauvinismo. O custo
dos enganos começa a ser muito alto.
Interessa-nos
a verdade? Tem alguma importância?
...
onde a ignorância é uma bênção é uma loucura ser sábio,
escreveu o poeta Thomas Gray. Mas é assim? Edmund Way Teale, em seu
livro de 1950 Círculo das estações, expôs melhor o dilema:
Moralmente
é tão mau não querer saber se algo é verdade ou não, sempre que
permitir sentir-se bem, como o é não querer saber como ganha o
dinheiro sempre que se consiga.
Por
exemplo, é desanimador descobrir a corrupção e a incompetência do
governo, mas é melhor não saber nada disso? A que interesses servem
à ignorância? Se os humanos tiverem, por exemplo, uma propensão
hereditária ao ódio aos forasteiros, não é o autoconhecimento o
único antídoto? Se ansiarmos acreditar que as estrelas saem e ficam
para nós, que somos a razão pela que há um universo, é negativo o
serviço que nos empresta a ciência para rebaixar nossas
expectativas?
Na
genealogia da moral, Friedrich Nietzsche, como tantos antes e depois,
critica o “progresso ininterrupto na autodesvalorização do homem”
causado pela revolução científica. Nietzsche lamenta a perda da
“crença do homem em sua dignidade, sua unicidade, insubstituível
no projeto da existência”. Para mim é muito melhor captar o
universo como é em realidade que persistir no engano, por muito
satisfatório e reconfortante que seja. Que atitude é a que nos
equipa melhor para sobreviver a longo prazo? O que nos dá uma maior
influencia em nosso futuro? E se nossa ingênua autoconfiança fica
um pouco escavada no processo, é tão grande a perda, em realidade?
Não
há motivo para lhe dar a bem-vinda como uma experiência que faz
maturar e imprime caráter?
Descobrir
que o universo tem de oito mil a quinze bilhões de anos e não de
seis mil a doze mil melhora nossa apreciação de seu alcance e
grandeza; manter a ideia de que somos uma disposição
particularmente complexa de átomos e não uma espécie de hálito de
divindade aumenta quando menos nosso respeito pelos átomos;
descobrir, como agora parece possível, que nosso planeta é um dos
milhares de milhões de outros mundos na galáxia da Via Láctea e
que nossa galáxia é uma entre milhares de milhões mais, aumenta
majestosamente o campo do possível; encontrar que nossos
antepassados também eram os ancestrais dos macacos nos vincula ao
resto de seres vivos e dá pé a importantes reflita — embora às
vezes lamentável — sobre a natureza humana.
Simplesmente,
não há volta atrás. Nós gostemos ou não, estamos atados à
ciência. O melhor seria lhe tirar o máximo proveito. Quando
finalmente o aceitarmos e reconheçamos plenamente sua beleza e
poder, encontrar-nos-emos com que, tanto em assuntos espirituais como
práticos; saímos ganhando.
Mas
a superstição e a pseudociência não deixam de interpor-se no
caminho para distrair a todos os “Buckley” que há entre nós,
proporcionar respostas fáceis, evitar o escrutínio cético, apelar
a nossos temores e desvalorizar a experiência, nos convertendo em
praticantes rotineiros e cômodos além de vítimas da credulidade.
Sim, o mundo seria mais interessante se houvesse óvnis à espreita
nas águas profundas das Bermudas tragando-se navios e aviões, ou se
os mortos pudessem fazer-se com o controle de nossas mãos e nos
escrever mensagens. Seria fascinante que os adolescentes fossem
capazes de fazer saltar o auricular do telefone de sua forquilha só
com o pensamento, ou que nossos sonhos pudessem predizer
acertadamente o futuro com maior assiduidade que a que pode
explicar-se pela casualidade e nosso conhecimento do mundo.
Todo
isso são exemplos de pseudociência. Pretendem utilizar métodos e
descobrimentos da ciência, enquanto que em realidade são desleais a
sua natureza, frequentemente porque se apoiam em provas insuficientes
ou porque ignoram chaves que apontam em outra direção. Estão
infestados de credulidade. Com a cooperação desinformada (e
frequentemente a conivência cínica) de periódicos, revistas,
editores, rádio, televisão, produtores de cinema e similares, essas
ideias se encontram facilmente em todas as partes. Muito mais
difíceis de encontrar, como pude constatar em meu encontro com o
senhor “Buckley”, são os descobrimentos alternativos mais
desafiantes e inclusive mais assombrosos da ciência.
Carl Sagan, in O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela acesa no escuro
Nenhum comentário:
Postar um comentário