terça-feira, 14 de junho de 2022

Coração aos arrancos

Quando ajudei minha mãe a morrer, era a mocinha que escondia o coração aos arrancos, por causa dos engenheiros bonitos que na ferrovia em obras pediam água em nossa casa. Reza, filha, e toma conta da Joana. De nós todas, penso que a mais órfã é Graça, a mais maternal, a mais sábia, a que tem de nossa mãe apenas a imprecisão de um vulto. Mãe, quantas vezes te vi alegre sem ser por gosto da tristeza? Quando a senhora pedia meus lápis de cor, pegava-os de um jeito que eu queria esconder-me, fugir da sensação esquisita de prazer pagão desagradando a Deus. Só goze a festa em suas providências. Começou o baile? Já chega, dançar também já é demais. Eu, Graça e Joana fomos afetadas e, ainda que loucas pra namorar e casar, demoramos a nos tornar mulheres comestíveis.

Adélia Prado, in Quero minha mãe

Nenhum comentário:

Postar um comentário