Há
duas semanas, estive em Ouro Preto para o Fórum de Letras, da
incansável Guiomar de Grammont. Cheguei no início da noite. Caía
uma tempestade e, sem ânimo para sair do quarto, me deitei.
Antes
de pegar no sono, retomei a leitura das Cartas escolhidas , de
Michelangelo Buonarroti (editora Unicamp / editora Unicfest,
prefácio, seleção, tradução e notas de Maria Berbara). Dormi
agarrado ao livro.
Sonhei,
então, que estava em Ouro Preto não para participar do Fórum, mas
para visitar meu avô materno, José Pedro – que, na verdade, não
cheguei a conhecer. Encontro-o em sua cama, magro e ofegante.
Assustado, peço que chamem seu médico.
Abro
a porta, é o médico. Na verdade, é Gabriel García Márquez, que
veste um jaleco branco e empunha uma maleta de couro. Não ouso
admitir que o reconheço. Nervoso, cumprimento-o e o conduzo ao
quarto de meu avô.
Por
que adotou a nova profissão? O que o levou a se mudar secretamente
para Ouro Preto? A agonia de meu avô, porém, não permite que eu me
detenha nessas divagações.
O
doutor Márquez examina seu doente. Não gosta do que vê. Pede,
então, uma cadeira e senta a seu lado. Da maleta de médico, tira um
livro. Abre-o e lê em voz alta um poema.
Não
consigo recordar os versos. Sei que são do próprio García Márquez.
Enquanto escuta o poema, meu avô abre os olhos, a face se aviva, a
respiração desacelera. Nos últimos versos, já está sentado.
Aliviado,
acompanho o doutor Marquez até a saída. “É espantoso que um
poema possa curar”, eu lhe digo. Gabriel García Má rquez se vira
e, com os olhos tristes, me diz: “A literatura cura quem lê. Mas
ela adoece quem escreve”. Suspira e prossegue: “Veja como estou –
e ninguém pode fazer nada por mim”.
Noto
então que o escritor empalideceu, está trêmulo, que suas mãos
vacilam. A dor do leitor (meu avô) agora é sua dor. Amparo-o até
seu carro. Fecho a porta. Acordo.
Na
manhã seguinte, o sonho com García Márquez me ajuda a ler a
correspondência de Michelangelo. As 72 cartas selecionadas por Maria
Berbara têm sua súmula em carta que ele enviou a Niccolò Martelli
em 1542. Diz Michelangelo: “Vejo que me imaginaste como o que Deus
gostaria que eu fosse. Sou um pobre homem de pouco valor”.
Modéstia?
É bem mais que isso. Imitando o doutor Márquez, Michelangelo tinha
consciência de que, diante da obra, o artista não passa de uma
formiga. Alguém esmagado por sua própria grandeza e que sofre do
que faz.
Não
existem palavras para explicar essa experiência, e as cartas de
Michelangelo – práticas, objetivas, frias – refletem essa
consciência. Em uma delas, a Tommaso Cavalieri, ele admite: “Nada
mais tenho a dizer. Lede o coração, e não a carta, pois a pluma
é incapaz de alcançar o afeto”. Cita um verso de Petrarca; só
a poesia (como em meu sonho) consegue dizer o indizível.
Com
problemas de dinheiro, Michelangelo se lamenta com um prelado
anônimo, que alguns identificam como Marco Vigerio, o bispo de
Sinigaglia. O religioso procura acalmá-lo, sugerindo que se
concentre em sua pintura. Michelangelo é áspero: “Respondo que se
pinta com o cérebro e não com as mãos”.
Pinta-se
(cria-se) com a mente, e as chaves da mente, muitas vezes, se guardam
em zonas inacessíveis. Também a escrita – não falo das palavras
pragmáticas dos burocratas, dos representantes comerciais e dos
homens “cheios de si” – não se deixa normalizar.
Michelangelo
acata a sugestão inútil do monsenhor, que fala em nome do papa. Mas
adverte: “Não posso negar nada ao Papa; pintarei tristemente, e
produzirei obras tristes”.
Sobre
o mesmo tema, em carta a Tommaso Cavalieri, ele resume: “Farei do
coração rocha, e avançarei”. Tem consciência de que o caminho
da arte (como sugere o doutor Márquez) o adoece. Terá de suportar.
Suas
obras, até hoje, espantam e maravilham. Elas nos curam da dor de
existir. Pagou, porém, um alto preço. Ao cardeal Bernardo Dovizi,
confessa: “Rogo, não como amigo ou servo, mas como um homem vil,
pobre e louco”.
Em
outra carta, ao pintor Sebastiano Veneziano, Michelangelo fala de um
jantar que lhe pareceu muito agradável, “pois abandonei um pouco a
minha melancolia, ou, melhor dito, a minha loucura”. Sua arte, que
nos consola e encoraja, o corrói.
Para
fugir de si, ele se detém em problemas práticos, como a falta de
dinheiro, as dificuldades políticas, a longa espera pelos mecenas, a
inveja dos concorrentes, como Rafael. Contudo, aqui e ali, deixa
sempre escapar algo de seu sofrimento.
Ao
pai, Lodovico, logo depois de terminar a capela Sistina, ele diz: “O
Papa ficou muito satisfeito, mas outras coisas não saíram como eu
esperava; a isso culpo os correntes tempos, que são muito contrários
à nossa arte”.
Numa
última, e furiosa, carta ao pai, com quem rompeu relações no ano
de 1523, depois de brigar com sua madrasta, Lucrezia, Michelangelo
vocifera: “Cuidai-vos, e tende cuidado com que vos cuida, pois só
se morre uma vez, e não se retorna para consertar as coisas
malfeitas”.
Amparado
pelas palavras de Michelangelo, retorno ao presente. Nossos tempos
parecem favoráveis aos artistas (e aos escritores), que se tornaram
celebridades e pontificam em festas, palcos e seminários. Isso é
uma ilusão. Sempre me incomoda quando se rouba do artista – em
nome do sucesso, do prestígio, da “assinatura” – um pedaço de
sua dor.
Não
que o artista tenha de sofrer ou esteja condenado à crueldade.
Ocorre que a arte é um trabalho como qualquer outro, e por isso
cobra seu preço e exige sacrifícios.
As
cartas de Michelangelo derrubam o mito contemporâneo de que o
artista é um astro sobre-humano, que leva uma existência glamourosa
e fútil. Sem suor, sem feridas, sem desgaste, nada se faz. É o que
o doutor García Márquez comunica em meu sonho: pode ser belo, mas
não é fácil.
Devemos
respeitar essa dor, que é mais preciosa que as luzes do sucesso e as
pompas da consagração. As modas, as feiras e os circuitos
comerciais que fiquem com seu fantasma inexistente. O artista –
como Márquez e Michelangelo –, sempre intransigente, se manterá
aferrado a sua dor.
José
Castello, in Sábados inquietos
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