
Ilustração: Rodrigo Rosa
Estavam
no pátio de uma fazenda sem vida. O curral deserto, o chiqueiro das
cabras arruinado e também deserto, a casa do vaqueiro fechada, tudo
anunciava abandono. Certamente o gado se finara e os moradores tinham
fugido.
Fabiano
procurou em vão perceber um toque de chocalho. Avizinhou-se da casa,
bateu, tentou forçar a porta. Encontrando resistência, penetrou num
cercadinho cheio de plantas mortas, rodeou a tapera, alcançou o
terreiro do fundo, viu um barreiro vazio, um bosque de catingueiras
murchas, um pé de turco e o prolongamento da cerca do curral.
Trepou-se no mourão do canto, examinou a catinga, onde avultavam as
ossadas e o negrume dos urubus. Desceu, empurrou a porta da cozinha.
Voltou desanimado, ficou um instante no copiar, fazendo tenção de
hospedar ali a família. Mas chegando aos juazeiros, encontrou os
meninos adormecidos e não quis acordá-los. Foi apanhar gravetos,
trouxe do chiqueiro das cabras uma braçada de madeira meio roída
pelo cupim, arrancou touceiras de macambira, arrumou tudo para a
fogueira.
Nesse
ponto Baleia arrebitou as orelhas, arregaçou as ventas, sentiu
cheiro de preás, farejou um minuto, localizou-os no morro próximo e
saiu correndo.
Fabiano
seguiu-a com a vista e espantou-se uma sombra passava por cima do
monte. Tocou o braço da mulher, apontou o céu, ficaram os dois
algum tempo aguentando a claridade do sol. Enxugaram as lágrimas,
foram agachar-se perto dos filhos, suspirando, conservaram-se
encolhidos, temendo que a nuvem se tivesse desfeito, vencida pelo
azul terrível, aquele azul que deslumbrava e endoidecia a gente.
Entrava
dia e saía dia. As noites cobriam a terra de chofre. A tampa anilada
baixava, escurecia, quebrada apenas pelas vermelhidões do poente.
Miudinhos,
perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as
suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto
do coração de Sinha Vitória, um abraço cansado aproximou os
farrapos que os cobriam. Resistiram a fraqueza, afastaram-se
envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo a luz dura, receosos de
perder a esperança que os alentava.
Iam-se
amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um
preá. Levantaram-se todos gritando. O menino mais velho esfregou as
pálpebras, afastando pedaços de sonho. Sinha Vitória beijava o
focinho de Baleia, e como o focinho estava ensanguentado, lambia o
sangue e tirava proveito do beijo. Aquilo era caça bem mesquinha,
mas adiaria a morte do grupo. E Fabiano queria viver. Olhou o céu
com resolução. A nuvem tinha crescido, agora cobria o morro
inteiro. Fabiano pisou com segurança, esquecendo as rachaduras que
lhe estragavam os dedos e os calcanhares.
Sinha
Vitória remexeu no baú, os meninos foram quebrar uma haste de
alecrim para fazer um espeto. Baleia, o ouvido atento, o traseiro em
repouso e as pernas da frente erguidas, vigiava, aguardando a parte
que lhe iria tocar, provavelmente os ossos do bicho e talvez o couro.
Fabiano
tomou a cuia, desceu a ladeira, encaminhou-se ao rio seco, achou no
bebedouro dos animais um pouco de lama. Cavou a areia com as unhas,
esperou que a água marejasse e, debruçando-se no chão, bebeu
muito. Saciado, caiu de papo para cima, olhando as estrelas, que
vinham nascendo. Uma, duas, três, quatro, havia muitas estrelas,
havia mais de cinco estrelas no céu. O poente cobria-se de cirros -
e uma alegria doida enchia o coração de Fabiano. Pensou na família,
sentiu fome. Caminhando, movia-se como uma coisa, para bem dizer não
se diferençava muito da bolandeira de seu Tomás. Agora, deitado,
apertava a barriga e batia os dentes. Que fim teria levado a
bolandeira de seu Tomás?
Olhou
o céu de novo. Os cirros acumulavam-se, a lua surgiu, grande e
branca. Certamente ia chover.
Graciliano
Ramos, in Vidas secas
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