Suponha
que um anjo bata à sua porta. Não se espante: é final de ano e
tradicionalmente, como os balões de junho, esta data é propícia ao
aparecimento de anjos. Para evitar constrangimentos ou diálogos
inúteis, você está sozinho em casa. Então o anjo bate, depois
você larga o que estiver fazendo, abre a porta e convida-o para
entrar e sentar, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Como
a coisa mais natural do mundo, quando chega visita, também porque
faz calor, e ainda ou principalmente porque algo em você sempre
soube que deve-se ser gentil com anjos, você pergunta se ele
gostaria de beber alguma coisa. Evite fazer isso: afinal, o que um
anjo bebe? Café parece inadequado, quente demais para chá, difícil
imaginar refrigerante ou cerveja, uísque ainda mais, suco de frutas
talvez? Não ofereça nada, sequer faça qualquer comentário sobre o
tempo ou aquelas perguntas para forçar intimidades tipo então, como
vai o Gabriel?
Não,
não pergunte nada. Pense apenas que, se um anjo bateu exatamente à
sua porta nesta época do ano, e se tão exato entrou e sentou à sua
frente, ninguém melhor do que ele saberá, com exatidão, o que
fazer. Então espere. Não fique tentando descobrir se seria arcanjo,
querubim ou serafim, nem se barroco, gótico ou medieval. Também
tente serenizar a memória que certamente vai disparar feito
computador, enumerando todas as imagens angélicas arquivadas desde a
infância, ou até antes. Controle a tentação de achá-lo a cara
daquele anjo da guarda com as mãos estendidas sobre as crianças à
beira do abismo; afugente o anjo patético de García Márquez caído
num galinheiro; esqueça o anjo cego Pygar carregando Barbarela pelos
céus: um anjo é todos os anjos, sobretudo em dezembro. Concentre-se
neste, pousado à sua frente.
Suponha
que você está sentado imóvel e calado à frente de um anjo em sua
própria casa, numa manhã ou tarde ou noite deste dezembro. Isso
dura algum tempo, parado feito um fotograma. E atenção: estou certo
que só depois que o anjo perceber que você parou de corpo e mente,
e portanto abriu-se para ele, aceitando-o sem ohs!, é que vai
começar a falar. Não uma voz de som, compreenda, mas uma voz dentro
de você mesmo, muito clara, embora de certa forma abstrata, porque
não sonora. Com essa voz e nesse momento, o anjo vai dizer a você
que pode pedir qualquer coisa. Mas qualquer, qualquer mesmo?, você
pergunta ávido.
Calma,
calma: chegamos ao ponto. Eu aviso porque sei que, quando o anjo
falar, será muito fácil sua mente desenfrear-se desgovernada por
carros, amores, apartamentos, viagens, iates e toda essa espécie de
prazeres. Bastardos, bradará o anjo. Porque — atenção! — se
você for pessoal, haverá em seguida um ruflar de asas, um clarão,
e o anjo desaparecerá sem atender pedido algum, sem deixar nenhum
sinal.
É
que, a grande revelação eu faço agora, os anjos deste dezembro não
são pessoais. Concentrado e fervoroso, então, peça pelo País, por
este onde estamos agora os três. Eu, você, o anjo. Que se banhe de
luz, peça, e não só isso, peça abstrações como justiça, paz,
dignidade, honestidade, e peça ainda o concreto de estradas,
escolas, trabalho, comida. Feche os olhos, enumere tudo, com todos os
detalhes. Não importa que demore muito, e certamente vai demorar: o
País tem todos os defeitos do mundo. Mas os anjos, eles também têm
todo o tempo do mundo.
Agora
abra os olhos. Suponha que você tenha terminado de ler este texto.
Suponha que você não acredita em anjos. Suponha que você joga o
jornal de lado aborrecido e assim nesse movimento de folhas voando,
voa também entre elas uma pena pelo ar. Branca, leve, inconfundível.
Que estranho, você pensa, parece de anjo. É neste momento que
alguém bate à sua porta.
Caio
Fernando Abreu, in Pequenas epifanias
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