Vou envelhecendo, e algumas paixões
literárias, já testadas pela releitura constante, se consolidam e
se aprofundam. A cada inverno que passa, mais admiro Tchecov, Carver, Machado, Borges
e Bradbury, entre outros.
Reli, com paixão e deleite, A cidade inteira dorme e outros contos, nome que o editor brasileiro deu ao Bradbury Stories original.
Apesar da traição, que traduzir é, mesmo, sempre trair, o título brasileiro resultou melhor que o norte-americano. Gosto desses títulos que são retirados de uma das peças do conjunto. A cidade inteira dorme e outros contos nos lança de imediato nesse clima psicológico, meio onírico e perturbador que o autor sempre constrói, apesar de fingir escrever sobre marcianos, viagens estelares e futuros distantes.
Na medida em que nos aproximamos da realidade descrita nesses contos magníficos – afinal, já estamos viajando pelos satélites e pelos planetas –, o aspecto de novidade desaparece e sobressai o que é mais importante na obra de Bradbury, a maestria com que trabalha o conto, o suave lirismo de sua linguagem, a riqueza metafórica e a absoluta humanidade de seus personagens.
Mario Quintana dizia que Ray Bradbury era um escritor de contos de fadas moderno. Nas mãos de um mestre como ele, aprendemos o quanto esse gênero difícil, esquivo e falsamente simples pode ser poderoso e inesquecível.
Charles Kiefer, in Para ser escritor
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