19/12/2015

Fazer o melhor que puder

Não tenho preocupação com o público. Vocês já assistiram ao filme A festa de Babete? É isso, ela foi para a cozinha e fez o melhor que ela podia. Só isso. Vou para o escritório e faço o melhor que posso. Àquela hora não tem destinatário. Se tiver destinatário, não é mais literário. Se entrar no escritório e pensar: vou escrever um texto para criança, já me distancio dela. Já me coloco no lugar de adulto, me distancio da infância.
Tenho muito medo do “escrever para criança”. Parece que estou em um lugar muito legal, que estou bem feliz, bem disposto, alegre e vou ensinar esses “coitadinhos” a chegar nesse lugar em que estou. Eu tenho horror disso. Quero mostrar para a criança que também cresci, mas tenho muita insegurança, muita tristeza, muita alegria, muita saudade.
Na minha obra, falo de morte, falo de tudo. Quando escrevo e quero que a criança seja leitora, faço uma frase mais curta, uma ordem mais direta, um parágrafo menor, porque o fôlego da criança é pequeno. Quando escrevo, preciso ler o texto em voz alta para saber se ele cabe na minha respiração. Às vezes, ao ler o texto em voz alta, percebo que é preciso transformar uma frase em duas, colocar um ponto final, dar um jeito porque está muito longa.
Quando a emoção é muito forte, tenho que mudar de folha. Faço muito isso, mas quase que protegendo o leitor. O conteúdo, não. As crianças dão conta. As crianças são muito mais fortes do que nós.
Quando se chega à idade que cheguei, descobre-se uma coisa interessantíssima: a vida não é um processo de soma, é um processo de subtração. Viver um dia é ter menos um dia. Hoje tenho muito menos dias para subtrair. A criança tem muito mais para viver do que eu. Ela é muito mais intensa do que eu. Ela tem muito mais pela frente do que eu. O meu pela frente é pouco. É perigoso quando a gente pensa que vai escrever para a criança porque a infância é o lugar que jamais poderei estar a não ser pela fantasia. E a criança está lá em realidade.
Às vezes, os adultos, os pais, os professores ou os escritores, se sentem tão ameaçados porque a criança está em um lugar que indiscutivelmente já perdi, irremediavelmente nunca mais poderei estar. Então, começamos a querer trazer essa criança o mais depressa possível para o lugar onde estou. Aí, você começa a assaltar a infância da criança. Tenho muito medo desse assalto. Hoje, muita escola é considerada boa porque rouba a infância da criança muito cedo. Que aquele professor é muito bom porque rouba a infância da criança muito cedo. Eu vejo isso com muita clareza. É preciso deixar a criança viver a sua infância, com suas inseguranças, seus medos, suas tristezas, suas fantasias.
Bartolomeu Campos de Queirós, in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba - PR

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