
O
careca bebe um gole de água ruidoso e depois dá um suspiro de
satisfação para o menino, que voltou a sentar-se nos degraus e
aguarda que ele prossiga com o relato de sua provação amorosa. Dona
Jane aparece para recolher o lampião. Caímos num silêncio
suspeito, e ela capta o clima. Olha de um para outro.
O
que foi? Interrompi alguma coisa?
Eu
e o menino nada dizemos. A boca do careca se abre num esgar. É um
sorriso. Torto e amarelo.
Estou
falando da Marinês.
Dona
Jane, ainda desconfiada:
De
novo? Como é que o senhor aguenta, seu Cauby?
Eu
digo que gosto. Dona Jane, enérgica:
Muda
um pouco o disco, seu Altino. Fala de outra coisa. Fala da vida.
O
careca dá uma risada sinistra. Vida. O que resta para ele? O
que o careca pode esperar da vida daqui para a frente? Só mais
rugas. No entanto falamos da vida o tempo inteiro, mesmo quando o que
vivemos não pode, de jeito nenhum, ser chamado de vida. Quando não
há mais vida, e nada pode ser mudado em nossa história.
Dona
Jane é diferente: ela ainda não entregou os pontos. Pode ser que
apareça alguém que a desvie da rota. Passa muita gente por aqui —
otários, incautos e aventureiros. Quem sabe um deles não resolve
tomar nas mãos o destino de uma dona de pensão de um lugar
ordinário?
O
menino tem todas as chances. Mas precisará ir embora.
Eu?
Sou um caso perdido.
Marçal
Aquino, in Eu receberia as piores notícias dos seus lindos
lábios
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