22/12/2015

Mude o disco: fale da vida


O careca bebe um gole de água ruidoso e depois dá um suspiro de satisfação para o menino, que voltou a sentar-se nos degraus e aguarda que ele prossiga com o relato de sua provação amorosa. Dona Jane aparece para recolher o lampião. Caímos num silêncio suspeito, e ela capta o clima. Olha de um para outro.
O que foi? Interrompi alguma coisa?
Eu e o menino nada dizemos. A boca do careca se abre num esgar. É um sorriso. Torto e amarelo.
Estou falando da Marinês.
Dona Jane, ainda desconfiada:
De novo? Como é que o senhor aguenta, seu Cauby?
Eu digo que gosto. Dona Jane, enérgica:
Muda um pouco o disco, seu Altino. Fala de outra coisa. Fala da vida.
O careca dá uma risada sinistra. Vida. O que resta para ele? O que o careca pode esperar da vida daqui para a frente? Só mais rugas. No entanto falamos da vida o tempo inteiro, mesmo quando o que vivemos não pode, de jeito nenhum, ser chamado de vida. Quando não há mais vida, e nada pode ser mudado em nossa história.
Dona Jane é diferente: ela ainda não entregou os pontos. Pode ser que apareça alguém que a desvie da rota. Passa muita gente por aqui — otários, incautos e aventureiros. Quem sabe um deles não resolve tomar nas mãos o destino de uma dona de pensão de um lugar ordinário?
O menino tem todas as chances. Mas precisará ir embora.
Eu? Sou um caso perdido.
Marçal Aquino, in Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

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